Jornal da Unicamp publica entrevista com o autor do livro “Ciência e política no novo regime climático”

Jornal da Unicamp – Como o livro pode auxiliar cientistas, pesquisadores, políticos e governantes na tomada de decisões perante eventos climáticos extremos?

Jean Carlos Hochsprung Miguel – O livro propõe um recuo crítico em relação à ideia, muitas vezes naturalizada, de que a ciência simplesmente “auxilia” a tomada de decisão. Ele questiona que tipo de relação estabelecemos entre os saberes especializados e a formulação de políticas públicas. A partir de estudos de caso, evidencia-se uma concepção linear entre produção de conhecimento e decisão política, associada a uma cultura tecnocrática no Brasil. Em vez de oferecer respostas prontas, a obra coloca em debate a própria possibilidade de uma política orientada por evidências, defendendo uma abertura reflexiva tanto na produção do conhecimento quanto nas decisões climáticas.

JU – Diante da frequência de eventos extremos, você acredita que o negacionismo climático está sendo superado?

Jean Carlos Hochsprung Miguel – O negacionismo climático não pode ser entendido apenas como a negação da existência das mudanças climáticas. Trata-se de uma rede complexa de discursos e práticas que, sobretudo, negam a urgência de transformações profundas no modo de produção capitalista e no consumo em massa. Paradoxalmente, o aumento dos eventos extremos tem servido como oportunidade para a transferência de recursos públicos para a gestão privatizada dos desastres. Assim, o negacionismo não se manifesta apenas como recusa da realidade climática, mas também como afirmação de uma gestão técnica dos riscos que preserva um modelo de desenvolvimento insustentável.

JU – De que forma o diálogo entre universidade e sociedade pode combater o negacionismo e a visão tecnocrática da ciência?

Jean Carlos Hochsprung Miguel – Quanto maior o envolvimento da universidade com os problemas vividos por populações vulneráveis, maior é a legitimidade social da produção acadêmica. A tecnocracia hierarquiza saberes e reduz a comunicação com a sociedade à simples oferta de conhecimento especializado, ignorando como os problemas são efetivamente vivenciados. Essa distância contribui para o fortalecimento do negacionismo. A universidade pública, por sua vez, tem a responsabilidade não apenas de produzir conhecimento, mas também de refletir sobre seus sentidos e implicações. Por isso, o diálogo com a sociedade deve ser o ponto de partida, e não o ponto final, da produção do conhecimento.

JU – Diante da ascensão de práticas anticiência, quais medidas são urgentes para frear as alterações drásticas no clima?

Jean Carlos Hochsprung Miguel – Reduzir o problema à descarbonização da economia ou à desinformação é insuficiente. Estamos diante de uma crise marcada por uma forte interconectividade entre dimensões ambientais, sociais, econômicas e políticas, o que exige ações sistêmicas. Apostar exclusivamente no planejamento tecnocrático do Estado e no progresso técnico ignora os limites desse modelo. A transição ecológica não pode ser conduzida apenas de cima para baixo. É fundamental reconhecer a inteligência coletiva e os modos de vida locais como elementos centrais da transformação, incorporando seus pontos de vista às decisões do Estado e da ciência.

JU – Como pesquisadores e estudiosos podem tornar a ciência mais acessível e inclusiva para um público mais amplo?

Jean Carlos Hochsprung Miguel – A própria ideia de “popularização da ciência” é problemática, pois sugere que a ciência deve apenas esclarecer uma população supostamente desprovida de saberes. As pessoas já possuem conhecimentos construídos ao longo de suas trajetórias de vida. O que se busca na universidade pública não é apenas o acesso à informação, mas a uma nova condição de vida que inclui o conhecimento. Diante da crise climática, o desafio não é apenas levar a ciência à sociedade, mas permitir que a ciência encontre seu lugar onde a sociedade mais precisa.

Para ler o texto no site do Jornal da Unicamp, clique aqui.

Ciência e política no novo regime climático

Autor: Jean Carlos Hochsprung Miguel

ISBN: 9788526817173

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 280

Dimensões: 16 cm x 23 cm

Deixe um comentário