Antropologias do futuro: um encontro entre vozes do passado e do presente

Marcella Fernandes Dias

“A antropologia, assim, é uma disciplina na medida em que falarmos uns para os outros. Por isso, saber posicionar o pensamento dos antropólogos do passado diante dos problemas do presente é condição para que haja antropologia no futuro.”

No trecho acima, retirado da introdução de Antropologias: lições de uma história inquieta, Susana Durão enfatiza como o movimento de olhar para o passado e para o presente da antropologia constitui um exercício constante e fundamental para pensar o futuro da disciplina. Como resultado da articulação entre o resgate de tradições e a construção de novas perspectivas antropológicas, surgiu o livro mencionado, recém-publicado pela Editora da Unicamp e organizado por Susana Durão e Omar Ribeiro Thomaz.

Susana Durão tem graduação e mestrado em Antropologia pela Universidade Nova de Lisboa. Seu doutorado, por sua vez, foi realizado no Instituto Universitário de Lisboa (Iscte-IUL) e o pós-doutorado, no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atualmente, é professora livre-docente do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde também atua como pesquisadora associada do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP) e do Núcleo de Estudos de Gênero PAGU. Durão já publicou diversos trabalhos sobre antropologia do trabalho, policiamento, segurança pública e privada, desigualdade, gênero, racismo, entre outros temas.

Omar Ribeiro Thomaz é licenciado em História da Arte pela Universidade de Barcelona e bacharel em Arte Dramática pelo Estudio de Formación de Actores Nancy Tuñón. Realizou seu doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e seu pós-doutorado no Max Planck Institute for Social Anthropology, na Alemanha. Atualmente, é professor livre-docente da Unicamp e desenvolve pesquisas sobre antropologia da guerra e do conflito, bem como sobre história da África e do Caribe.

O livro Antropologias: lições de uma história inquieta surgiu das experiências docentes de Susana Durão durante a pandemia. Em 2021, a professora se questionou sobre como poderia reinventar suas aulas on-line de antropologia para turmas de graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, de modo a cativar a atenção dos estudantes. Com o apoio de um aluno e de seus colegas, começou a oferecer cursos virtuais no âmbito da disciplina “Antropologia III: Teorias e Experimentações Etnográficas”. O projeto, intitulado “Aulas Abertas: Teorias e Histórias da Antropologia”, recebeu uma série de professores convidados do Brasil e da Europa, que mediaram as discussões.

A dinâmica das aulas parecia estar sendo bem recebida por todos, exceto por alguns estudantes da pós-graduação, que demonstraram certo descontentamento ao perceber que o enfoque da disciplina se voltava apenas para autores clássicos da antropologia. Diante dessa quebra de expectativas, Susana Durão, com a colaboração de Omar Ribeiro Thomaz, adicionou novos nomes, temas e influências às aulas, buscando representar a multiplicidade de debates antropológicos. Esse novo ciclo, que percorreu o passado e o presente da antropologia, foi chamado de “Aulas Abertas da Antropologia: Novas Tradições & Desafios”. 

Diante da grande receptividade do curso, os organizadores decidiram transformar as aulas da disciplina em textos escritos. Para isso, cada um dos professores convidados ficou responsável por elaborar um capítulo, processo que resultou no livro Antropologias: lições de uma história inquieta. Pensando em torná-la didática e acessível, a obra foi dividida em três partes, organizadas segundo um recorte temporal: a antropologia do período entreguerras, o pós-guerra e as décadas de Guerra Fria. Desse modo, além de resgatar leituras consideradas canônicas — dada a importância das bases teóricas para os estudos da área —, o volume também propõe um olhar voltado para o futuro da antropologia.

A primeira parte do livro apresenta reflexões sobre as categorias sociais na obra de Marcel Mauss e sobre como os temas discutidos pelo antropólogo no final do século XIX e início do século XX são abordados atualmente. Nesse mesmo recorte, discute-se, ainda, a influência de Mauss nas obras de suas alunas Denise Paulme, Germaine Dieterlen e Germaine Tillion. Ao lado dessas questões, somam-se reflexões sobre os temas do corpo, da doença e das emoções na escola sociológica francesa, bem como uma análise do centenário de Argonautas do Pacífico Ociedental, uma das monografias mais lidas da antropologia. A seção também apresenta um estudo sobre a invenção da antropologia política na África colonial.

Na segunda parte de Antropologias: lições de uma história inquieta, a obra de Claude Lévi-Strauss é revisitada, e os conceitos de honra e graça, proposto por Julian Pitt-Rivers, recebem nova reflexão. Além disso, outros importantes nomes se destacam nas discussões apresentadas, como: Louis Dumont, cujas contribuições foram centrais para a antropologia brasileira; Victor Turner, responsável por elaborar conceitos fundamentais, como drama social, liminaridade e ritos de passagem; e Colette Pétonnet, pioneira da antropologia urbana francesa. A segunda parte da obra se encerra com um capítulo dedicado a Pierre Bourdieu, que, embora se autodenominasse sociólogo, tomou a antropologia como ponto de partida para seus estudos.

Por fim, a terceira parte do livro se debruça sobre questões da contemporaneidade. Inicialmente, são apresentados alguns apontamentos sobre a Escola de Manchester, fundada pelo antropólogo Max Gluckman. Na sequência, os capítulos se dedicam, respectivamente, à obra e à trajetória de Lélia Gonzalez e aos sentidos de quilombo no pensamento militante e antropológico. A seção ainda traz uma reflexão sobre conceitos fundantes para experimentos etnográficos na modernidade e se encerra com um artigo sobre os desafios da antropologia crítica no cenário contemporâneo.

Assim, Antropologias: lições de uma história inquieta se destaca como uma leitura fundamental não apenas para estudantes e pesquisadores da antropologia, mas também para acadêmicos das ciências sociais e o público em geral que deseja percorrer o passado, o presente e o futuro dessa disciplina tão importante para a compreensão da experiência humana.

Para conhecer mais sobre o título, visite nosso site!

Antropologias: lições de uma história inquieta

Organizadores: Susana Durão e Omar Ribeiro Thomaz

ISBN: 9788526818293

Edição: 1ª

Ano: 2026

Páginas: 464

Dimensões: 16 x 23 cm

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