A Reconstrução recontada: Du Bois e o desmascarar da história

Victor Shimabukuro Pastor

Uma das tarefas mais interessantes do fazer acadêmico é a redescoberta de autores e obras até então esquecidos ou ignorados. Um caso famoso, por exemplo, é o ressurgimento de Edgar Allan Poe a partir do resgate de sua obra por Charles Baudelaire, que o transformou de autor menor e esquecido em um gigante da tradição literária. Atrelados a questões tanto materiais — suporte, facilidade de distribuição, contexto político — quanto subjetivas — como o valor atribuído a uma obra em determinado tempo —, são muitos os fatores que podem influenciar na sobrevivência ou não de um livro para a posterioridade. Existem casos, contudo, que escapam a essas explicações — ou que talvez só possam ser justificados pela má-fé de alguns diante de tais trabalhos. Esse parece ser o caso de Reconstrução negra: ensaio para a história do papel desempenhado pelo povo negro na tentativa de reconstruir a democracia na América, 1860-1880, traduzido integralmente pela primeira vez nesta coedição da Editora da Unicamp e da Boitempo.

W. E. B. Du Bois foi sociólogo, escritor, historiador, poeta, editor e ativista pan-africanista pelos direitos civis nos Estados Unidos. Autor prolífico, escreveu principalmente sobre o racismo e outras questões relacionadas à discriminação racial. Foi um dos intelectuais mais influentes de seu tempo e o primeiro afro-estadunidense a receber um doutorado. A tradução completa de sua obra magna, pela primeira vez disponível em português, foi realizada por Murillo van der Laan, doutor em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e revisada por Matheus Gato, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), e por Sávio Machado Cavalcante, professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH-Unicamp).

Com um longo subtítulo — ensaio para a história do papel desempenhado pelo povo negro na tentativa de reconstruir a democracia na América, 1860-1880 —, Reconstrução negra tem como objetivo central recontar a história do período da Reconstrução à luz da experiência e da agência do povo negro estadunidense. Em outras palavras, a obra investiga — a partir desse momento específico da história dos Estados Unidos — o desenvolvimento racializado do capitalismo, as estratégias de emancipação construídas pela população negra escravizada e livre na tentativa de edificar uma democracia em seus próprios termos e os limites estruturais da democracia liberal “industrial”. Nesse processo, Du Bois contesta a narrativa dominante de sua época sobre o suposto fracasso da Reconstrução.

O texto segue, em certa medida, uma cronologia, mas sem abrir mão de análises amplas no interior de cada recorte histórico. Numerados de um a 17, os capítulos apresentam uma estrutura formal e temática que favorece a orientação do leitor ao longo da obra. Formalmente, todos são abertos por uma breve epígrafe que antecipa os temas discutidos nas páginas seguintes, como se observa na que precede o conteúdo do primeiro capítulo:

Como os homens negros, trazidos para a América nos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX, se tornaram um fio central da história dos Estados Unidos; ao mesmo tempo que um desafio à sua democracia e uma parte sempre importante de sua história econômica e do seu desenvolvimento social.

No encerramento de cada capítulo, por sua vez, aparecem fragmentos de poemas e estrofes que dialogam com o tom evocado e os argumentos apresentados anteriormente. Considerando a obra em seu conjunto, os capítulos acompanham linearmente os anos da Reconstrução — ainda que haja variações provocadas pelo vaivém analítico construído pelo autor dentro de cada capítulo, já que eles são estruturados a partir de eixos temáticos e argumentativos específicos. 

Tome como exemplo o quarto capítulo, intitulado “A greve geral”. Nele, o recontar dos acontecimentos começa com o episódio de Edmund Ruffin e o primeiro disparo da Guerra Civil estadunidense, a partir do qual Du Bois constrói uma contextualização sobre os interesses, em relação à escravidão, das diferentes partes do conflito. Essa contextualização percorre a demografia das regiões envolvidas nos anos imediatamente anteriores à guerra e os anos iniciais do confronto, avançando, então, para a participação da população negra no conflito. Outro fator que contribui para esse vaivém temporal é a ampla utilização de fontes documentais, frequentemente citadas por Du Bois. 

Para além dessa linha quase cronológica, é possível argumentar que os capítulos também se organizam em blocos temáticos. O primeiro deles, que engloba os três textos iniciais, aborda o período anterior à Guerra Civil: Du Bois descreve a chegada dos trabalhadores negros e brancos e a realidade social do Sul dos Estados Unidos. Mais importante, é nessa seção que o autor apresenta algumas de suas ideias mais originais (ao menos à época), como a interpretação de que a verdadeira causa da Guerra Civil estava enraizada na escravidão. 

Nos seis capítulos seguintes, o autor trata da guerra e dos anos iniciais da Reconstrução: desde a entrada da força de trabalho negra no conflito e as lutas pela reorganização do trabalho no pós-guerra — momento em que identifica o embate entre duas teorias distintas de organização estatal, a democracia abolicionista e a democracia industrial — até os eventos que marcaram o início da derrocada do processo emancipatório e aquilo que denomina “as dívidas” instauradas na sociedade estadunidense a partir dessas decisões. 

Do décimo ao décimo terceiro capítulo, são apresentados estudos de caso focados na agência negra diante das estruturas sociais em diferentes regiões do Sul, permitindo observar de forma mais concreta os desdobramentos desse processo emancipatório. Por fim, a partir de “A contrarrevolução da propriedade”, Du Bois narra os últimos suspiros desse período histórico: a virada reacionária do governo estadunidense, a última conquista da Reconstrução e, finalmente, seu desmantelamento. 

O capítulo que encerra o ensaio discute como a história oficial construiu uma narrativa equivocada e dissociada da verdade histórica. Utilizando um termo anacrônico, mas célebre nas humanidades, Du Bois descreve como instituições estadunidenses promoveram uma série de apagamentos da agência negra e das conquistas da luta emancipatória no período, numa tentativa de mascarar os movimentos responsáveis por desmontar a Reconstrução e instituir novas formas de servidão e trabalho análogo à escravidão.

Agora, finalmente publicado em sua integralidade em português brasileiro, a obra de Du Bois constitui leitura incontornável para os interessados nos campos mais amplos da sociologia e da história, mas não apenas. Estranhamente esquecido pela crítica brasileira durante décadas, é possível que este projeto editorial contribua para que Reconstrução negra reencontre o lugar de destaque que lhe cabe no cânone.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Reconstrução negra: ensaio para uma história do papel desempenhado pelo povo negro na tentativa de reconstruir a democracia na América, 1860-1880

Autor: W. E. B. Du Bois

Tradução: Murillo Van Der Laan

ISBN: 9788526818729

Edição: 1ª

Ano: 2026

Páginas: 816

Dimensões: 16 x 23 cm

Coedição: Boitempo

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