
Jornal da Unicamp – Quais foram as principais motivações para escrever o livro e quais desafios você enfrentou ao longo do processo de criação da obra?
João Mostazo – A motivação foi o incômodo diante de um paradoxo que atravessa a nossa relação com a cultura. Ele tem a ver com o fato de que a ideia de resistência é, hoje, aquela que organiza a relação entre cultura e sociedade. Ouvimos, lemos e dizemos que a cultura “resiste”, que é uma forma de “resistência”. Mas o que isso significa? Investigando esse conceito, descobri que ele depende de alguns pressupostos poéticos e sociais que simplesmente não valem mais hoje, porque o processo histórico os varreu. Surpreendentemente, o resultado é que, no mesmo momento em que a ideia de resistência se tornou moeda corrente, resistir, no sentido forte, tornou-se impossível. Quanto aos desafios, o maior deles foi realizar a pesquisa sem financiamento.
JU – Na obra, você propõe pensar a poesia a partir da ideia de “dificuldade”. De que maneira esse conceito se relaciona com a noção de “resistência”?
João Mostazo – O conceito de resistência a que me refiro, formulado pelo [professor e crítico literário] Alfredo Bosi nos anos 1970, depende de uma dupla projeção no tempo: de um lado, projeta um passado mítico; de outro, um futuro profético. No livro, argumento que essas duas projeções se tornaram problemáticas em razão do estreitamento histórico provocado pelo atual estágio de colapso da modernidade. A esse caráter problemático que a ideia de resistência encontra no tempo presente dei o nome de dificuldade. O que chamo de dificuldade é o ponto em que o conceito de resistência emperra, torna-se opaco e perde o seu lastro histórico.
JU – Como foi feita a escolha dos autores e poemas analisados no livro? Houve algum critério específico ou intenção por trás dessas escolhas?
João Mostazo – A escolha se deu mais ou menos por acaso, motivada em parte por gosto e interesse pessoal. Mas, de um modo geral, tentei selecionar autores e autoras cujos poemas refletissem, de algum modo, o conjunto de problemas que eu buscava delinear. O único critério mais objetivo que adotei foi trabalhar apenas com obras publicadas nos últimos anos. Com algumas exceções, o livro analisa obras lançadas de 2020 para cá. A ideia era apresentar um panorama o mais contemporâneo possível. Como o livro articula análise literária e social, as obras também deveriam refletir o momento desenhado pelo quadro histórico.
JU – Além dos textos poéticos, você também expande suas análises para a prosa e a dramaturgia. Como a “dificuldade” da poesia se manifesta nesses outros gêneros literários?
João Mostazo – De fato, os dois ensaios que encerram o livro tratam de uma peça de teatro e de um romance. Ainda assim, creio que ali também seja possível identificar o que chamo de dificuldade da poesia, desde que se entenda essa dificuldade num sentido mais amplo — não restrito ao gênero lírico, mas relacionado a um impasse da literatura como um todo, que inclui também, e isso é decisivo, a crítica. Esse é o sentido em que Marcos Siscar (com cujo trabalho dialogo no início do livro) compreende o termo “poético”, ao lembrar que o apelo feito pela crítica para que a literatura resista comporta, no fim, um desejo de refundação da própria crítica.
JU – Quais são, na sua visão, as principais contribuições da obra para os estudos sobre a poesia brasileira contemporânea?
João Mostazo – Não sei dizer; isso deve ser decidido por quem lerá o livro. Minha intenção foi contribuir com a tradição crítica brasileira apresentando uma reavaliação daquele que, a meu ver, foi um dos últimos conceitos fortes dessa tradição: o conceito de resistência, na formulação de Bosi. Mobilizo essa tradição ao longo da reflexão, mas também a tomo como objeto, procurando pensar como suas formulações conceituais acompanham as transformações do país, com o objetivo de compreender, afinal, o que significa escrever poesia num país que já não vai para lugar nenhum, pois – para usar uma fórmula conhecida – sua formação se concluiu sem que nada se formasse.
Para ler o texto no site do Jornal da Unicamp, clique aqui.
Dificuldade da poesia: ensaios de literatura brasileira contemporânea
Autor: João Mostazo
ISBN: 9788526817982
Edição: 1ª
Ano: 2025
Páginas: 216
Dimensões: 14 cm x 21 cm