
Maria Eduarda Peloggia Lunardelli
O Cavalo-Marinho? O Cavalo-Marinho é uma cultura. É uma estrela. O Cavalo-Marinho é uma estrela muito iluminada, nossa divina luz. É o Cavalo-Marinho! O Cavalo-Marinho é do céu; o Cavalo-Marinho é de cruz; o Cavalo-Marinho é benzido; Cavalo-Marinho é abençoado. É uma estrela que nunca pode se acabá, o Cavalo-Marinho. (Relato de Mestre Inácio Lucindo)
Apesar de sugestivo, o Cavalo-Marinho ao qual Mestre Inácio Lucindo se refere não tem relação alguma com o animal conhecido cientificamente como Hippocampus. O termo Cavalo-Marinho diz respeito, nesse contexto, a uma das expressões culturais mais ricas e simbólicas do Brasil.
Tradicionalmente realizado na Zona da Mata Norte de Pernambuco e no sul da Paraíba, o folguedo – palavra que remete à ideia de festejo e divertimento e que designa uma manifestação cultural popular que mistura diferentes formas de arte em uma só celebração – é uma brincadeira expressa por meio de dança, música e teatralidade, transmitida e preservada ao longo dos anos pela tradição oral. Essa manifestação artística possui uma estrutura básica fixa, mas é construída a partir do improviso. Dessa forma, o Cavalo-Marinho, assim como outros folguedos – como o Bumba meu boi, o Reisado (comemoração do Dia de Reis), o Maracatu, a Congada e o Pastoril (celebração do nascimento de Jesus) –, é compreendido como uma festa performática atrelada a datas comemorativas e marcada por fortes simbolismos e por um intenso caráter coletivo.
Nascida no cotidiano dos trabalhadores rurais dos engenhos de cana-de-açúcar pernambucanos, a brincadeira era, no início, uma alternativa encontrada pelos escravizados para se divertirem após longas horas de trabalho. Com influências das culturas africana, indígena e europeia, o jogo surgiu como um reflexo da sociedade da época, representando as estruturas de poder por meio de seus personagens, que encenam uma história-base: o Capitão, com o objetivo de organizar uma festa em homenagem aos Santos Reis, contrata Mateus e Bastião para preparar a celebração. Surgem, entretanto, ao longo do caminho, diversos personagens que levam o Capitão ao limite da paciência e, assim, divertem o público.
Com um tom crítico e bem humorado, a encenação é marcada por muita música, danças expressivas e fantasias coloridas, tornando caricata a estrutura social que representa. A figura do Capitão Marinho, por exemplo, corresponde ao europeu que veio ao Brasil para assumir terras, exercer autoridade e manter a ordem. No folguedo, entretanto, ele é constantemente desafiado e, por isso, acaba se tornando motivo de chacota e riso. Por outro lado, as figuras de Mateus e Bastião simbolizam os trabalhadores negros e pobres que, com humor, resiliência e esperteza, subvertem as ordens do senhor do engenho e se tornam a alma da brincadeira.
Repleto de personagens marcantes e de sincretismos, o Cavalo-Marinho chama atenção também pela riqueza, complexidade e indissociabilidade entre as diferentes formas de arte, cultura e sociedade, sendo recentemente estudado sob novas perspectivas e eixos teóricos.
E me – ou também nos e lhes – pergunto: a arte criada e manifesta pelo povo, que se presta à análise a partir de referências eruditas, não será ela do mesmo quilate que a arte que não se considera popular? Ou seria de outro valor a arte produzida por coletividades? A resposta está dada pelas próprias criações. A arte é arte! Ingênuo seria querer definir diferenças de valor e qualidade. Diferenças – de outra natureza – verdadeira e necessariamente precisam existir, porque é nelas que encontramos o novo! Mesmo quando o novo, o improviso, as sutis diferenças venham de tradição e memória. (Suzi Frankl Sperber)
Diante da surpreendente grandiosidade da brincadeira pernambucana, os pesquisadores Alício Amaral, Juliana Pardo e Suzi Frankl Sperber produziram o livro O Cavalo-Marinho da Mata Norte de Pernambuco: da boca da noite até quebrar a barra do dia, que desvenda, explica e analisa os pormenores do folguedo.
Rabequeiro, diretor musical e pesquisador em teatro, dança e tradições cênicas populares, Alício Amaral é formado pela Universidade Livre de Música (ULM) e é membro da equipe de mestres da Escola Internacional de Antropologia Teatral (Ista). Junto a Juliana Pardo – atriz, preparadora corporal e pesquisadora do movimento em teatro, dança e tradições cênicas, formada em Dança pela Escola Klauss Vianna e em Teatro pela Escola Livre de Teatro (ELT) –, fundaram a Cia. Mundu Rodá (2000) e o Grupo Manjarra (2004), nos quais desenvolvem trabalhos artísticos teatrais, incluindo pesquisas e criações sobre o Cavalo-Marinho.
Suzi Frankl Sperber é, atualmente, professora titular e colaboradora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestra e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), foi coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais (Lume), membro do conselho editorial da Revista ABP: Afrika Asien Brasilien e autora de diversos livros, como Caos e cosmos: leituras de Guimarães Rosa (1976), Guimarães Rosa: signo e sentimento (1982), Identidade e alteridade: conceitos, relações e a prática literária (2008), Ficção e razão (2009), Presença do sagrado na literatura (2011) e Contadores de histórias da Amazônia ribeirinha (2012).
O Cavalo-Marinho da Mata Norte de Pernambuco apresenta os esforços dos três pesquisadores, que contaram com o auxílio de muitos outros colaboradores para a realização de seus estudos sobre o tema. Desenvolvidos ao longo de 24 anos, os trabalhos de Alício e Juliana foram realizados por meio de uma imersão completa no folguedo, vivenciando de perto o que a brincadeira simboliza para seus participantes, de modo a poder transmiti-la adiante. Além disso, Sperber realiza uma atenta e detalhada revisão bibliográfica e crítica sobre o Cavalo-Marinho, explorando suas representações e complexidades teóricas. Estruturada em cinco capítulos, além de um texto introdutório, um índice de QR Codes, a bibliografia e o caderno de imagens, a obra apresenta uma transcrição inédita do folguedo, acompanhada de uma análise teórica sobre as diferentes formas de arte expressas nessa manifestação cultural.
O primeiro capítulo, “A semente da Cia. Mundu Rodá”, detalha a história de como os pesquisadores tiveram seu primeiro contato com o Cavalo-Marinho e de que maneira a brincadeira despertou grande interesse, resultando em anos de imersão e pesquisa e, consequentemente, na criação da Cia. Mundu Rodá e do próprio livro. Em seguida, em “Como funciona a brincadeira: do funda da roda ao pé do banco”, compreendemos em que consiste o folguedo, suas origens e significados, quando se brinca, como funciona seu enredo e quais são as linguagens estruturais da manifestação. No terceiro capítulo, “A brincadeira: da boca da noite até quebrar a barra do dia”, há uma exposição comentada dos papéis e funções de cada personagem, acompanhada da transcrição de uma brincadeira.
Os capítulos quatro e cinco acrescentam à obra um caráter interpretativo e analítico. Em “Mata Norte: terreiro de mulheres – um libelo”, discute-se a imagem e a participação feminina no jogo, questionando a proibição histórica da presença de mulheres na brincadeira e analisando como essa realidade vem sendo gradualmente transformada. Por fim, no capítulo cinco, “Morte e transfiguração no Cavalo-Marinho: ressignificando algumas marcas de suas declaradas origens”, os autores realizam uma leitura crítica do texto, de sua simbologia e dos significados do folguedo.
Dessa forma, ao reunir história, depoimentos, transcrições, análises teóricas, vídeos que podem ser acessados por QR Codes e imagens, O Cavalo-Marinho da Mata Norte de Pernambuco: da boca da noite até quebrar a barra do dia oferece ao leitor uma imersão completa no universo dessa tradição pernambucana. Trata-se, portanto, de uma excelente leitura para estudantes e pesquisadores das ciências humanas que buscam compreender o Brasil por meio das manifestações culturais de seu povo, bem como para todos os interessados em arte, música, dança, teatro e cultura popular brasileira.
Para conhecer mais sobre o livro, acesse nosso site!

O Cavalo-Marinho da Mata Norte de Pernambuco: da boca da noite até quebrar a barra do dia
Autores: Alício Amaral, Juliana Pardo e Suzi Frankl Sperber
ISBN: 978-85-268-1827-9
Edição: 1ª
Ano: 2026
Páginas: 632
Dimensões: 16 x 213 cm