
Por Victor Shimabukuro Pastor
Foi-se o tempo em que a universidade representava, de forma incontestável, um tipo de conhecimento tomado como definitivo, seguro e, pelo rigor do método científico, plenamente confiável. Em um contexto no qual a manipulação e a construção de narrativas, ancoradas ou não na verdade, alcançam proporções inimagináveis e o trabalho científico é constantemente posto à prova, projetos como o da Coleção Várias Histórias assumem um papel mais do que relevante.
Vinculada ao Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult), a Coleção constitui um verdadeiro marco nas áreas da história social do Brasil e da África. Com mais de 40 títulos publicados, que abarcam temas centrais da historiografia social, o projeto soma décadas de contribuição editorial e difusão qualificada do conhecimento.
Seu primeiro volume, Orfeu de Carapinha, lançado nos anos 1990, nasceu da parceria entre o Cecult e a Editora da Unicamp, com o propósito de tornar pública a produção acadêmica em história social desenvolvida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (IFCH-Unicamp). Desde então, a Coleção sustenta um pressuposto fundamental: a relação estreita entre as pesquisas desenvolvidas no Instituto e sua circulação ampliada por meio da Editora.
Dessa articulação surgiram títulos que, além de conferirem destaque à historiografia brasileira, ocupam espaços fundacionais nos debates sobre escravidão, trabalho, racismo, movimentos sociais e cidadania no Brasil. Tradicionalmente voltada a esses eixos da historiografia nacional, a Coleção inaugura um novo veio editorial com a publicação de Médicas-sacerdotisas, passando a abarcar diretamente questões relacionadas à história da África.
Esse movimento amplia o horizonte interpretativo da Coleção e reforça seu compromisso com a compreensão crítica da escravidão, da cultura negra, do racismo e das lutas por cidadania no Brasil – formando leitores atentos às diversas experiências históricas vividas no país, sejam eles provenientes da academia ou do público em geral. A incorporação da história da África não apenas diversifica o escopo temático, mas responde também a uma demanda histórica: a construção de uma biblioteca consistente de estudos africanos no Brasil, especialmente após a promulgação da lei n. 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas.
O êxito das obras confirma a relevância do projeto. Com temas atuais e textos pensados para dialogar com públicos diversos, a Coleção amplia seu alcance sem deixar de lado o rigor acadêmico. É o caso de Escritos de liberdade, de Ana Flávia Magalhães Pinto, sucesso editorial e finalista do 5º Prêmio Abeu.
Diante dessa trajetória, apresentamos os últimos lançamentos da Coleção.
Quando arrebentam os nós: histórias de homens e mulheres enredados pelo tráfico interno (1850-1888), de Joice Oliveira

Graduada e mestre em História pela Unicamp e doutora em História Social pela Unicamp e pela Rice University, Joice Oliveira constrói, em Quando arrebentam os nós, uma obra que combina rigorosa pesquisa arquivística com momentos de escrita de tonalidade ficcional. Ao examinar as lógicas do comércio interno de pessoas escravizadas no Brasil oitocentista, a autora reconstitui as redes formadas por traficantes e analisa as dinâmicas que submeteram homens, mulheres e crianças a migrações forçadas.
A originalidade do livro reside tanto na articulação entre exposição acadêmica e especulação narrativa, utilizada para explorar lacunas documentais, quanto na decisão de dar visibilidade aos diferentes sujeitos envolvidos nesse comércio, o que humaniza as experiências históricas retratadas.
Rastilhos da mina: conspirações escravas, o Rio da Prata e a abolição do tráfico de africanos no Brasil, de Thiago Leitão Araujo

Thiago Leitão de Araujo, licenciado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também concluiu o mestrado, e doutor em História Social pela Unicamp, apresenta novos contornos a uma temática já conhecida em Rastilhos da mina ao destacar a luta das pessoas escravizadas pela liberdade e o temor senhorial diante de possíveis insurgências.
A partir de documentação inédita, o autor evidencia a agência dos escravizados no processo emancipacionista e articula a história da escravidão ao contexto bélico da região do Rio da Prata. Ao relacionar tensões diplomáticas entre Brasil, Argentina e Uruguai a episódios como a sublevação de Pelotas, demonstra como o cenário político e social local alimentou a tensão internacional a ponto de se tornar determinante para a abolição do tráfico negreiro pelo Governo Imperial.
África, margens e oceanos: perspectivas de história social, organizado por Lucilene Reginaldo e Roquinaldo Ferreira

Organizada por Lucilene Reginaldo, doutora em História Social pela Unicamp, onde atua como professora do Departamento de História, e Roquinaldo Ferreira, doutor pela Universidade da Califórnia e professor do Departamento de História da Universidade da Pensilvânia, a coletânea reúne 16 textos que dialogam com a produção africanista no Brasil e no exterior.
A obra busca situar a África em perspectiva ampla, considerando desde sua inserção nos circuitos globais de comércio até a difusão de conhecimento e práticas religiosas anteriores à presença europeia. Ao enfatizar a agência africana e incorporar também o contexto do oceano Índico, o livro supera visões restritas ao Atlântico e evidencia a pluralidade de experiências históricas do continente.
Médicas-sacerdotisas: religiosidade ancestral e contestação ao sul de Moçambique (c. 1927-1988), de Jacimara Souza Santana

Resultado de tese de doutorado defendida no IFCH-Unicamp, Médicas-Sacerdotisas analisa as estratégias mobilizadas pelas tinyanga para garantir a existência social de suas associações e o exercício de seu ofício no contexto moçambicano, entre o período colonial e o processo de independência.
Entre as ações destacadas estão o atendimento clandestino, campanhas de boicote aos serviços de saúde metropolitanos e o recurso ao poder judiciário como forma de defesa coletiva.
Escritos de liberdade: literatos negros, racismo e cidadania no Brasil oitocentista, de Ana Flávia Magalhães Pinto

Derivado da tese “Fortes laços em linhas rotas: literatos negros, racismo e cidadania na segunda metade do século XIX”, menção honrosa no Prêmio Capes de Tese 2015, Escritos de liberdade, de Ana Flávia Magalhães Pinto, doutora em História pela Unicamp e professora do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB), propõe repensar os diferentes abolicionismos que emergiram no Brasil oitocentista.
Ao utilizar o plural, a autora evidencia experiências historicamente inviabilizadas, destacando a agência negra e os projetos de liberdade liderados por personalidades negras e organizações de trabalhadores de menor prestígio social. A partir das trajetórias de literatos e intelectuais negros livres, o estudo ilumina suas contribuições para a luta abolicionista e sua atuação nos espaços públicos de debate e afirmação de direitos.
As contribuições da Coleção para o meio acadêmico e para a comunidade geral são evidentes. Ao abordar temas estruturantes da realidade social brasileira, como a experiência histórica negra, a escravidão, o racismo e as lutas por cidadania, a Coleção reafirma sua atualidade e relevância.
Além disso, ao fortalecer os estudos africanos em seu catálogo, amplia o campo de diálogo entre Brasil e África, promovendo deslocamentos interpretativos essenciais para a renovação historiográfica. Ponte entre a produção científica de ponta e a público leitor, a Coleção Várias Histórias segue, há décadas, alimentando o interesse e o pensamento crítico de seus leitores.
Para conhecer todos os títulos, confira o catálogo completo da Coleção em nosso site!