Entre os laços e as correntes: histórias de homens e mulheres enredados pelo tráfico interno

Victor Shimabukuro Pastor

Machado de Assis uma vez escreveu: “Ao vencedor, as batatas”. Para além da alegoria humanitista de Quincas Borba, o prêmio representado por tais batatas metafóricas pode abarcar muitas das relações e lógicas vinculadas à sociabilidade humana. Transpondo essa reflexão para o campo do livro analisado neste artigo, observa-se fenômeno semelhante no fazer historiográfico. Para além das disputas entre Norte e Sul geográficos, centros e periferias e das diversas descredibilizações acadêmicas, é fato que, pela própria materialidade dos documentos, a história oficial se constrói a partir da perspectiva dos “vencedores” – apagamentos e soterramentos são movimentos recorrentes na construção dessas grandes narrativas. 

Não à toa, a concepção de uma “história vinda de baixo” consolidou-se como um marco no campo da história social: a mudança de perspectiva, ao partir do sujeito comum, mostra-se fundamental por permitir a exploração de uma nova gama de possibilidades históricas; possibilidades essas que podem ser observadas em Quando arrebentam os nós: histórias de homens e mulheres enredados pelo tráfico interno (1850-1888).

Novo título da Coleção Várias Histórias, Quando arrebentam os nós foi escrito por Joice Oliveira a partir de uma ampla e minuciosa pesquisa em diferentes arquivos, tanto nacionais quanto internacionais. A obra apresenta as lógicas do comércio interno de escravizados no Brasil oitocentista ao reconstituir as redes desenvolvidas por traficantes e desvendar as dinâmicas responsáveis por submeter homens, mulheres e crianças a migrações forçadas. Joice Oliveira é graduada e mestre em História pela Unicamp e doutora em História Social pela Unicamp e pela Rice University (EUA).

Nos primeiros dias de março de 1876, Rosendo Vasques da Costa caminhava pelas ruas do centro de Salvador, região que conhecia tão bem. Ao longo de dez anos vivendo na capital, ele se acostumou a subir e descer ladeiras, a circular pelo agitado bairro do Comércio e a trabalhar sob o clima quente e úmido. Mas, desta vez, era diferente: ele era um homem liberto e ansioso para deixar aquela terra, o que esperava fazer dentro de alguns dias.

Extraído do primeiro parágrafo da introdução do livro, o excerto acima é representativo de um dos aspectos mais valiosos do trabalho da autora: a mescla entre escrita historiográfica e ficcional. No preâmbulo, Oliveira afirma: “As páginas que se seguem são uma longa contação de histórias feita sob o rigor da historiografia e a admiração pela literatura”. Dificilmente haveria combinação mais precisa de termos para descrever o projeto da autora do que a formada por essas duas expressões – rigor historiográfico e admiração pela literatura. Tanto o escopo quanto a estrutura da obra revelam-se fortes aliados justamente pela natureza de um e de outro: onde a fragmentação, os silêncios e os apagamentos das fontes primárias escancaram lacunas, a prosa de tom ficcional tenta especular ao centrar-se nas trajetórias individuais e experiências vividas por esses sujeitos históricos, pintando um quadro mais vivo e pulsante do que aquele possível por meio de uma abordagem restrita à análise qualitativa dos dados.

Com o objetivo de rastrear o tráfico interno em sua totalidade – tanto em sua dimensão comercial quanto nas formas como foi vivido –, a organização do livro estrutura-se a partir de duas frentes, encabeçadas por um par de figuras representativas desse sistema: negociantes e negociados. Na primeira parte, rastreiam-se as redes de comércio arquitetadas por comerciantes da Bahia e do Rio de Janeiro, passando pelas atuações da firma Miranda Leone e Companhia e pelas transações clandestinas da família Moura e Albuquerque, até chegar a Delfim Ribeiro de Abreu, importador e distribuidor de cativos. Já na segunda, homens, mulheres e crianças escravizadas assumem o protagonismo, ainda que suas histórias cheguem ao leitor através de ecos nos arquivos, oriundos de fontes que deixam escapar resquícios de suas vozes. O movimento, aqui, consiste em compreender quem eram essas pessoas comercializadas e o que entendiam das atividades a que eram submetidas, para então adentrar casos específicos em que esse contexto pode ser observado mais de perto – como o episódio apresentado no quarto capítulo, que narra a trajetória e a formação de laços de companheirismo entre 18 cativos durante seu translado do Rio de Janeiro até Campinas.

Mais do que reconstituir o tráfico interno em sua totalidade, a principal contribuição do livro reside na forma como, por meio de exercícios de especulação construídos a partir de uma escrita mais literária, quase ficcional, o movimento engendrado por esse comércio é humanizado: dá-se nome ao que por muito tempo não passou de números, estabelece-se maior proximidade com uma realidade horrorizante e, ao fazê-lo, iluminam-se dimensões emocionais, culturais e políticas frequentemente silenciadas pela historiografia tradicional.

Ao escancarar os efeitos profundos que o comércio interprovincial de escravizados no Brasil exerceu não apenas sobre as comunidades negras escravizadas e livres, mas também sobre toda a logística imperial e seu desenvolvimento nas décadas imediatamente anteriores à Abolição, Quando arrebentam os nós: histórias de homens e mulheres enredados pelo tráfico interno (1850-1888) afirma-se como uma obra de grande relevância para além da comunidade acadêmica, pois traça, através da historiografia, histórias cheias de vida.

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Quando arrebentam os nós: histórias de homens e mulheres enredados pelo tráfico interno (1850-1888)

Autora: Joice Oliveira

ISBN: 9788526818026

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 304

Dimensões: 14 x 21 cm

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