
Maria Eduarda Peloggia Lunardelli
En el extremo de la calle / La florista se emborracha con Legui / Y la ciudad la mambea un instante / Y la devuelve en su silla / Todos estos años de gente / Todos estos años de gente / Frente a los vidrios de un banco / Un anciano desfallece sin nombre / Los pordioseros lo reclaman / Desde un pozo en el aire de Ezeiza / Todos estos años de gente / Todos estos años de gente / Hay un tinglado inconcluso / Donde moran dos bolitas ilegales pero limpias / Y entre las lluvias y los Falcon / Ya no viven ni adentro ni afuera / Todos estos años de gente / Todos estos años de gente. (Luis Alberto Spinetta, 1986)
Escrita pelo músico argentino Luis Alberto Spinetta e interpretada em parceria com Fito Páez, a canção “Todos estos años de gente”, apesar de breve, apresenta um contundente questionamento sobre a condição social de parcelas significativas da população latino-americana, em especial no contexto argentino. Ao retratar uma cidade povoada por sujeitos anônimos, alheios e isolados do convívio urbano, a música chama atenção não apenas para a exclusão social, mas também para vidas marcadas pela transitoriedade, pela incompletude e por um potencial latente de transformação e renovação.
A interpretação da canção nos conduz a dois eixos centrais: as relações sociais construídas entre as pessoas e a passagem do tempo. O primeiro nos aproxima dos estudos sociais – campo interdisciplinar que abrange sociologia, história, antropologia, ciência política, economia, entre outros –, enquanto o segundo nos direciona às reflexões históricas. Pensadas de forma articulada e situadas em contextos específicos, essas perspectivas permitem problematizar a maneira como diferentes populações se organizaram, protestaram, agiram politicamente e transmitiram suas experiências ao longo dos anos.
É a partir dessas questões que Andrea Andújar e Ernesto Bohoslavsky organizam o livro Todos estes anos de gente: história social, protesto e política na América Latina, cujo título dialoga diretamente com a obra de Spinetta. A coletânea propõe uma reflexão aprofundada sobre a América Latina como espaço historicamente marcado por mobilizações sociais, culturas de protesto e intensas disputas políticas.
Andrea Norma Andújar, membro da Associação Latino-americana e Ibérica de História Social (Alihs), é doutora em História pela Universidade de Buenos Aires (UBA) e desenvolve pesquisas na área de história social do trabalho, com ênfase em perspectiva de gênero. É autora de Rutas argentinas hasta el fin; mujeres, política y piquetes, 1996-2001 (2014) e coautora de Vivir con lo justo: estudios de historia social del trabajo en perspectiva de género. Argentina, siglos XIX y XX (2016).
Ernesto Bohoslavsky é doutor em América Latina Contemporânea pela Universidade Complutense de Madrid, docente da Universidade Nacional de General Sarmiento e pesquisador independente do Conicet, na Argentina. Autor de El complot patagónico: nación, conspiracionismo y violencia en el sur de Argentina y Chile, siglos XIX y XX (2009), dedica-se atualmente ao estudo da história das ideias e das organizações da direita na Argentina, no Brasil e no Chile ao longo do século XX.
Todos estes anos de gente reúne os esforços de diversos pesquisadores para analisar os cenários sociais e políticos latino-americanos, investigando, entre outras questões, de que maneira as formas de protesto do passado se conectam às lutas contemporâneas e como os historiadores se vinculam – ou podem se vincular – aos movimentos sociais e às suas demandas políticas.
Composta de seis capítulos e um texto introdutório, a obra reúne artigos acadêmicos de diferentes autores, organizados em torno de duas questões centrais: quais contribuições a história social pode oferecer para a compreensão da América Latina contemporânea? E quais são os vínculos existentes (ou que deveriam existir) entre os movimentos sociais e o exercício profissional da história?
O primeiro capítulo, “Tarefa e promessa da imaginação histórica”, do historiador espanhol José Antonio Piqueras, resulta da conferência de abertura do Segundo Congresso Internacional da Associação Latino-americana e Ibérica de História Social, evento que deu origem ao livro, e discute as relações entre imaginação social, política e história social no pós-Segunda Guerra. Em seguida, Carlos Illades, em “Algumas reflexões sobre a história e os protestos sociais”, analisa as múltiplas formas de protesto no México nas últimas décadas, destacando os repertórios de luta de camponeses, estudantes e professores.
No terceiro capítulo, “‘A miopia do visível’. Mulheres, protestos e historiografia”, Mirta Zaida Lobato aborda as relações entre gênero, feminismo e história dos protestos no contexto argentino.
Rodrigo Laguarda, autor do quarto capítulo, “No fim do arco-íris. Sobre os homossexuais como sujeitos de interesse na academia mexicana”, narra sua experiência na investigação antropológica das identidades homossexuais na cidade do México na contemporaneidade. No capítulo seguinte, “História da escravidão, movimentos sociais e políticas públicas contra o racismo no Brasil”, Silvia Hunold Lara coloca o cenário brasileiro em foco, analisando de que maneira historiadores e a população afrodescendente estabeleceram vínculos para defender e ampliar o potencial político do movimento negro. Por fim, em “De pontos e precipícios. Uma perspectiva sobre os vínculos entre história/s e movimentos sociais na Bolívia (de 1970 aos dias de hoje)”, Rossana Barragán Romano apresenta reflexões sobre as relações entre a vida política e a historiografia boliviana, do período das ditaduras ao governo de Evo Morales.
Assim, Todos estes anos de gente: história social, protesto e política na América Latina apresenta um conjunto de problematizações, interpretações e questionamentos sobre os processos sociopolíticos ocorridos nas últimas décadas nos países latino-americanos, abordando o ciclo de autoritarismos e de transições democráticas do século XX, as tensões vividas durante os governos da chamada “maré rosa” e os recentes processos de direitização em parte do continente.
Com textos claros, bem contextualizados e analiticamente consistentes, a obra constitui uma leitura relevante tanto para estudantes e pesquisadores das ciências sociais quanto para leitores interessados em compreender a história política e social da América Latina.
Para conhecer mais sobre o livro, acesse nosso site!

Todos estes anos de gente: história social, protesto e política na América Latina
Organizadores: Andrea Andújar e Ernesto Bohoslavsky
ISBN: 978-85-268-1800-2
Edição: 1ª
Ano: 2025
Páginas: 208
Dimensões: 14 x 21 cm