A espessura da linguagem: discurso, história e sociedade

Leo Pereira Muniz

Os estudos da linguagem reúnem diferentes abordagens dedicadas à análise científica da capacidade comunicativa. A partir de sua estrutura e de sua origem, essas abordagens buscam descrever a língua para além das normas prescritivas, considerando também os fatores naturais e sociais que a moldam. 

A análise do discurso constitui uma das perspectivas da epistemologia das ciências da linguagem, voltada aos estudos sobre a formação e a concepção da língua. Nessa corrente, a comunicação é analisada a partir da produção de sentidos construída pelos signos, em estreita relação com as influências histórico-sociais que incidem sobre o indivíduo e, consequentemente, com o funcionamento histórico-social do discurso.

Michel Pêcheux, um dos fundadores e principais estudiosos da análise do discurso, aproxima filosofia, ciências sociais e linguagem e desenvolve essa concepção ao sustentar que “[…] o laço que une as ‘significações’ de um texto às suas condições sócio-históricas não é meramente secundário, mas constitutivo das próprias significações” (1971, p. 6).

Considerando a importância dos estudos linguísticos e da análise do discurso, a Coleção A Espessura da Linguagem, publicada pela Editora da Unicamp, reúne seis obras de autores brasileiros e estrangeiros que apresentam pesquisas contemporâneas sobre a língua. A partir de uma abordagem transdisciplinar, os títulos promovem debates sobre identidade, cultura, memória, Estado, políticas públicas e políticas linguísticas, consolidando o projeto como referência no campo dos estudos da linguagem, com elevado rigor teórico-metodológico. 

A coleção é coordenada por Mónica G. Zoppi Fontana (Unicamp) e tem como representante do Conselho Editorial Dirce Djanira Pacheco e Zan (Unicamp). Integram, ainda, a Comissão Editorial Greciely Cristina da Costa (Labeurb/Unicamp), Pedro de Souza (UFSC), Evandra Grigoletto (UFPE) e Maristela Cury Sarian (Unemat).

A Coleção A Espessura da Linguagem reúne os seguintes títulos: As evidências do discurso neoliberal na mídia, de Thierry Gilbert; Raízes e interpretação: ensaios transdisciplinares sobre literatura e ciências humanas, de  Ana Iris Díaz Martínez e Miguel Alvarado Borgoño; Usos do esquecimento: conferências proferidas no Colóquio de Royaumont, de Yosef Yerushalmi, Nicole Loraux e Hans Mommsen; Estrutura e totalidade, de Patrick Sériot; História da alfabetização no Brasil: sentidos e sujeitos da escolarização, de Mariza Vieira da Silva; e Materialidades discursivas, de Bernard Conein, Jean-Jacques Courtine, Françoise Gadet e Michel Pêcheux. Conheça as obras a seguir: 

1. As evidências do discurso neoliberal na mídia 

A obra As evidências do discurso neoliberal na mídia, de Thierry Gilbert, apresenta uma pesquisa teoricamente consistente e amplamente documentada sobre os meios de comunicação e suas intervenções políticas. Ao analisar a influência desses meios na construção da memória através da repetição e da difusão de discursos, o autor debate a naturalização de uma forma político-econômica pautada na exploração do trabalho e no lucro financeiro.

Thierry Gilbert é professor titular da Universidade da Picardia “Jules Verne” e pesquisador do Centro de Pesquisa em Ação Pública e Política – Epistemologia e Ciências Sociais, com foco no discurso neoliberal e em seus processos de naturalização. 

O prefácio da obra é assinado por Mónica Graciela Zoppi Fontana, professora titular do Departamento de Linguística do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL/Unicamp), cuja trajetória nas áreas de análise do discurso, semântica da enunciação e políticas linguísticas enriquece ainda mais a publicação. 

2. Raízes e interpretação: ensaios transdisciplinares sobre literatura e ciências humanas

Raízes e interpretação: ensaios transdisciplinares sobre literatura e ciências humanas, de Ana Iris Díaz Martínez e Miguel Alvarado Borgoño, dedica-se à compreensão das culturas chilena e cubana a partir de estudos em diferentes áreas, como filosofia, sociologia, antropologia, linguística e literatura. Reunidos em formato de coletânea, os ensaios refletem sobre a construção do conhecimento e da identidade, revisitando conceitos e obras das nações estudadas. 

Ana Iris Díaz Martínez é professora do Departamento de Linguística e Literatura da Faculdade de Humanidades da Universidade Central “Marta Abreu” de Las Villas, Cuba, e atua nas áreas de linguística, história e literatura. Já Miguel Alvarado Borgoño é antropólogo pela Universidade do Chile, mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e doutor pela Universidade de Göttingen, na Alemanha. É autor de dezenas de obras, entre elas Aculturações: o vazio da cultura ou o delírio da identidade, também publicada pela Editora da Unicamp.

3. Usos do esquecimento: conferências proferidas no Colóquio de Royaumont 

A obra Usos do esquecimento: conferências proferidas no Colóquio de Royaumont, de Yosef Yerushalmi, Nicole Loraux e Hans Mommsen, reúne textos apresentados no colóquio realizado em Royaumont, em 1987, a fim de refletir sobre o conceito e os desdobramentos do esquecimento. Os ensaios evidenciam a impossibilidade de neutralidade nos processos de esquecimento e discutem questões como “Do que ou de quem pode o esquecimento ser álibi?”, “Por que vivemos ainda hoje sob uma herança política que desempenha papel central no esquecimento coletivo e institucional por meio da anistia?” e “É paradoxal considerar o esquecimento como inseparável da transmissão cultural, tanto na filosofia como na arte?”. 

Yosef Yerushalmi foi professor de História, Cultura e Sociedade Judaica na Universidade Columbia, EUA; Nicole Loraux foi historiadora e diretora do Departamento de História e Antropologia da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris; e Hans Mommsen foi historiador, reconhecido por seus estudos na história social alemã e por sua interpretação funcionalista do Terceiro Reich.

4. Estrutura e totalidade

Em Estrutura e totalidade, Patrick Sériot apresenta uma pesquisa sobre a epistemologia histórica do surgimento da ideia de “estrutura” no Círculo Linguístico de Praga, marco fundamental do estruturalismo. A obra analisa aspectos históricos e de origem ainda pouco conhecidos no mundo francófono, buscando reconstituir uma parte frequentemente ignorada dessa trajetória intelectual.

Patrick Sériot é um linguista franco-suíço, com trabalhos voltados à análise do discurso político na União Soviética. Atualmente, é especialista em história e epistemologia do discurso sobre a língua na Rússia e na União Soviética.

5. História da alfabetização no Brasil: sentidos e sujeitos da escolarização

A obra História da alfabetização no Brasil: sentidos e sujeitos da escolarização, de Mariza Vieira da Silva, reúne textos de diferentes autores e épocas em torno do debate sobre alfabetização e analfabetismo. A partir desse conjunto, a autora analisa a construção e a circulação de sentidos, observando marcas linguísticas, processos de elaboração da memória, movimentos de paráfrase e polissemia, entre outros aspectos. O livro busca elucidar os atos simbólicos e políticos envolvidos nesses processos, bem como a potência da escrita, seja como instrumento de coerção, seja, paradoxalmente, de libertação.

Mariza Vieira da Silva é doutora em Linguística pela Unicamp, na área de análise do discurso, e pesquisadora da relação entre linguagem, educação e sociedade no processo de escolarização do português. Realizou estágios pós-doutorais como integrante do projeto internacional “História das Ideias Linguísticas no Brasil”, na Escola Normal Superior de Letras e Ciências Humanas de Lyon, na França. 

6. Materialidades discursivas

Materialidades discursivas, de Bernard Conein, Jean-Jacques Courtine, Françoise Gadet e Michel Pêcheux, aborda questões relativas à língua, à história e ao inconsciente a partir de uma (re)organização transdisciplinar de saberes. A obra destaca-se pela articulação entre diferentes campos do conhecimento e por sua influência na comunidade acadêmica e nas pesquisas em análise do discurso. 

Bernard Conein é sociólogo, especialista em etnometodologia e cognição social; Jean-Jacques Courtine, formado em linguística, dedica-se à história da cultura, com foco em expressões faciais e corporais; Françoise Gadet é especialista em sociolinguística e francofonia, atuando no estudo sintático e discursivo das produções orais e de variedades marginais e periféricas do francês; já Michel Pêcheux foi filósofo e um dos principais fundadores da análise do discurso. 

A obra conta com tradução e introdução de Eni Orlandi, linguista e pesquisadora de referência na área da análise do discurso no Brasil.

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Ao reunir estudos contemporâneos nacionais e internacionais dedicados à construção teórica e crítica da linguagem e às reflexões sobre seu funcionamento histórico-social, a Coleção A Espessura da Linguagem articula linguística, discurso, história, filosofia e ciências humanas a partir de uma abordagem transdisciplinar. Com seis títulos de ampla diversidade temática, a coleção propõe reflexões sobre os impactos da linguagem na constituição das identidades, da cultura e da memória, bem como em sua relação com o Estado, as instituições e as políticas públicas e linguísticas. 

Conheça os livros da Coleção A Espessura da Linguagem e outros títulos do catálogo da Editora da Unicamp dedicados aos estudos da linguagem e às ciências humanas.

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