Ordens para uma propriedade rural produtiva: o Tratado de agricultura de Paládio

Victor Shimabukuro Pastor

Sempre que um livro tão antigo se preserva em sua integralidade, torna-se instigante refletir sobre os motivos de sua conservação. Embora existam casos em que um pesquisador encontra, quase por acaso, um volume completo durante uma visita a um arquivo, na maioria das situações a sobrevivência de uma obra se explica por uma razão bastante objetiva: em algum momento do passado, ela foi considerada importante o suficiente para ser copiada e armazenada – um processo que, na Antiguidade e na Idade Média, estava longe de ser simples ou barato. No caso do Tratado de agricultura, essa questão ultrapassa o mero juízo de valor, pois sua permanência está diretamente ligada à sua utilidade. Prova disso é o expressivo número de códices copiados e datados em diferentes momentos da Idade Média europeia – do século IX ao XIV, são conhecidas mais de cem cópias da obra.

A autoria do Tratado de agricultura é atribuída a Rutílio Tauro Emiliano Paládio, possivelmente membro do alto senado romano, proprietário de terras na cidade de Roma e na ilha da Sardenha e detentor de amplo conhecimento prático das questões agrícolas. A obra sistematiza ações necessárias e recomendáveis para que o trabalho no campo resulte em uma propriedade produtiva e lucrativa. Composta de 15 livros, encerra uma longa tradição da tratadística romana dedicada à agropecuária. Inédita em língua portuguesa, a edição apresenta tradução de Matheus Trevizam – também responsável técnico pela tradução de outras obras relacionadas ao período publicadas pela Editora da Unicamp, como Poesia didática e Prosa técnica –, bacharel e licenciado em Letras pelo IEL-Unicamp, mestre e doutor em Linguística pela mesma instituição e atualmente professor titular de Língua e Literatura Latina na Faculdade de Letras da UFMG.

Sua finalidade seria, no entender de Fitch, antes de mais nada levar a eficaz fructus (“produtividade”) das terras, identificando-se ele com 12 livros concebidos à maneira dos meses de um “calendário civil”. Ou seja, faz-se aqui menção explícita a datas (Calendas, Nonas e Idos, entre outras), não apenas a estações ou surgimentos de astros, por vezes empregados pelo homem antigo a fim de orientar-se no tempo. Dito diferentemente, o livro II descreve as tarefas necessárias em janeiro; o livro III, as de fevereiro, e assim sucessivamente.

Esse excerto da introdução do tratado, também escrita por Matheus Trevizam, permite compreender a organização geral da obra. O livro I apresenta uma visão ampla da labuta camponesa, abordando temas como o solo, a água e as edificações rurais. Nos 12 livros seguintes, as atividades e os assuntos ligados ao universo agropecuário são distribuídos mês a mês, com indicações precisas do momento adequado para sua execução ao longo do ano. Destaca-se a inovação dessa organização no interior da tradição tratadística romana: embora outros autores tenham recorrido a certas formas de cronologia, é apenas em Paládio que se observa o uso exclusivo de um tempo social, civil e politicamente construído, em contraste com referências baseadas em marcos astrológicos. 

Além da cronologia, a organização interna da obra constitui outro diferencial relevante. Observa-se, nesse aspecto, a presença de verdadeiros índices no início de cada livro e a opção por tratar os temas segundo uma ordem recorrente ao longo do conjunto da obra, conferindo maior sistematicidade às atividades descritas. Os dois últimos livros abordam questões mais específicas: o livro XIV reúne prescrições de caráter veterinário, voltadas ao cuidado com rebanhos e manadas, enquanto o livro XV dedica-se à prática da enxertia arbórea. Este último distingue-se ainda pela forma, estruturando-se como um poema didático – recurso recorrente na tradição tratadística da época.

Outro traço singular do Tratado de agricultura reside em sua linguagem. Em contraste com outros textos técnicos romanos, o latim empregado por Paládio, embora erudito, caracterizava-se pela clareza vocabular e pela limpidez do fraseado, qualidades que contribuíram decisivamente para a longevidade da obra. Ainda que a delimitação formal de um tratado possa suscitar debates, não há dúvidas quanto à inventividade do texto. Pelo conteúdo, pela forma e pela linguagem, trata-se de um exemplar raro e de grande relevância histórica. Seu detalhismo permite vislumbrar um momento específico de transição entre o mundo clássico e o medieval, oferecendo também subsídios para a compreensão do contexto material e comercial da sociedade romana. O projeto editorial bilíngue coroa essa edição ao articular o interesse filológico a uma obra de elevado valor histórico e cultural.

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Tratado de agricultura

Autor: Rutílio Tauro Emiliano Paládio

Tradução: Matheus Trevizam

ISBN: 9788526817999

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 512

Dimensões: 16 x 23 cm

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