Os diálogos de Cícero sobre “o verdadeiro bem”

Maria Eduarda Peloggia Lunardelli 

Nascido em Arpino, ao sul de Roma, em 3 de janeiro de 106 a.C., Marcos Túlio Cícero consagrou-se como um dos mais influentes oradores da cultura ocidental. Sua formação sólida – fundamentada nos grandes poetas, historiadores e filósofos gregos – e seu intenso anseio pelo conhecimento permitiram que desenvolvesse uma habilidade para o diálogo e uma inteligência pouco comuns para a época. Fluente em latim e profundamente familiarizado com a cultura e a política romanas, exerceu funções como advogado, escritor, filósofo, político e orador, despertando a atenção da elite de Roma. Em 63 a.C., foi nomeado cônsul da República Romana, período no qual desenvolveu algumas de suas ideias mais marcantes e duradouras. 

Como republicano, Cícero permanece como referência para a formação de nações republicanas modernas, como os Estados Unidos. Fundadores como John Adams e Thomas Jefferson o citaram como figura indispensável para o pensamento político do país, reconhecendo nele um dos grandes formuladores da tradição do direito público, cujos princípios influenciaram diretamente a Declaração de Independência.

No campo humanista, Cícero também ocupa posição central. A redescoberta de suas cartas por Francesco Petrarca, no século XIV, foi decisiva para o início do Renascimento, movimento que moldaria profundamente a cultura ocidental. Seus textos resistiram ao tempo, inspirando transformações intelectuais subsequentes, como as do Iluminismo, influenciando diretamente pensadores como David Hume, John Locke e Montesquieu. Além disso, contribuiu para a formação das línguas latinas, especialmente pela criação de um vocabulário filosófico rigoroso e de inúmeros neologismos. 

Pensando na relevância de sua obra e na necessidade de ampliar o acesso aos seus textos mais importantes, a Editora da Unicamp criou a Série Ciceroniana, em parceria com a Edufu. A série apresenta edições bilíngues (latim-português) das principais reflexões ciceronianas – sobre os deveres, as leis e “o verdadeiro bem”. Todas contam com tradução de Bruno Fregni Bassetto (1935-2019), filósofo e tradutor brasileiro especializado em filologia românica. Como observa José R. Seabra Filho no prefácio de Os limites dos bens e dos males, “os leitores não encontrarão apenas divulgação de temas gregos, mas sim análises, desenvolvimentos, comentários – sempre algo mais que simples traduções, e algo mais de sabor ‘Roma’”. 

EmOs limites dos bens e dos males, Cíceroorganiza cinco livros, estruturados em forma de diálogo, para responder à pergunta: o que é que seria “sumo bem” ou “o verdadeiro bem”? Para isso, contrapõe três correntes teóricas da filosofia grega antiga – o epicurismo, o estoicismo e, apresentadas de forma praticamente unificada, o peripatético-academicismo –, mostrando como cada uma compreende o “sumo bem” antes de explicar, refutar, analisar e criticar, colocando-as também frente a frente para propor um diálogo mais aprofundado e eficiente. 

A edição reúne os cinco livros completos, acompanhados de texto introdutório assinado pelo professor José R. Seabra Filho, da Universidade de São Paulo, que contextualiza a obra e o pensamento ciceroniano, além de um índice remissivo ao final. 

No primeiro livro, Cícero discorre sobre o epicurismo, ressaltando a ideia de que o prazer está na ausência de dor e na eliminação dos medos por meio do conhecimento, explorando a física, a lógica e, sobretudo, a moral epicurista. O livro II apresenta suas críticas a essa corrente, identificando contradições e fragilidades nos argumentos expostos. Já os livros III e IV trazem diálogos imaginados entre Cícero e Catão de Útica acerca da moral estoica, segundo a qual o supremo bem reside na retidão das ações, na moralidade e na sabedoria – acima dos bens materiais. Por fim, o quinto livro apresenta o diálogo entre Marco Pisão, Tito Pompônio (conhecido posteriormente como Ático), Cícero, seu irmão Quinto e seu primo Lúcio sobre a moral da filosofia peripatética, exposta por Pisão.

Assim,Os limites dos bens e dos males apresenta intrigantes e movimentados diálogos que explicam, analisam e confrontam diferentes correntes filosóficas, tornando a obra leitura essencial para estudiosos de filosofia e de letras, especialmente pela constante reflexão sobre as línguas latina e grega. Como afirma Seabra Filho, “para apreensão de pontos essenciais das antigas escolas gregas, estão aí à disposição do estudioso os tratados ciceronianos: não há outro caminho que lhe possa proporcionar o substancial necessário de conhecimento da filosofia ocidental”.  

Para conhecer mais sobre o livro, acesse nosso site!

Os limites dos bens e dos males

Autor: Marcos Túlio Cícero

Tradutor: Bruno Fregni Bassetto

ISBN: 9788526817852

Edição: 2ª

Ano: 2025

Páginas: 584

Dimensões: 14 x 21 cm

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