E quem sabe o que é a honestidade? Cícero e o agir corretamente

Victor Shimabukuro Pastor

Com a invenção da imprensa por Gutenberg em 1448, o primeiro livro impresso foi a Bíblia Sagrada, o segundo foi a Ars Minor de Donato e o terceiro, o De Officiis, evidente sinal de sua importância filosófica e literária ainda naquele tempo, a qual se tornou mais forte nos séculos seguintes.

O excerto acima, retirado das linhas finais do prefácio escrito por Bruno Fregni Bassetto para a nova edição de De Officiis, ou Os deveres, de Marcos Túlio Cícero, pode ser considerado uma das maiores demonstrações da força dessa obra. Tida por muitos como sua obra filosófica mais importante, a sobrevivência do De Officiis é notável. Não apenas pela escolha de sua impressão em 1448, mas também pelos mais de 700 manuscritos encontrados em bibliotecas, livrarias e mosteiros ao redor do mundo, que atestam sua relevância ao longo dos séculos. 

Marcos Túlio Cícero, um dos maiores oradores e escritores da República Romana, foi também advogado, político e filósofo. Nascido em uma família rica, foi educado na tradição grega, o que o tornou fluente tanto em grego quanto em latim. Defensor do sistema republicano, escreveu essa obra aos 62 anos, em um momento em que lutava contra Júlio César e a implementação do império. Apesar da morte do ditador, Cícero não encontrou paz e foi assassinado por ordem de Marco Antônio, tornando-se um mártir da República. Uma das últimas produções desse importante pensador romano, a tradução de Os deveres para o português foi feita por Bruno Fregni Bassetto, filólogo, tradutor e ex-professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), para compor a Série Ciceroniana da Editora da Unicamp, em parceria com a Edufu.

Escrito em três livros – que podemos considerar como capítulos – Os deveres é um tratado filosófico redigido por Cícero em forma de carta a seu filho, que estudava filosofia e retórica em Atenas. No cerne da obra, Cícero questiona: como definir a ação correta para cada situação? Para isso, utiliza um par conceitual central – honestidade e utilidade – que deve guiar o comportamento adequado em cada contexto. Como bem resume o tradutor, trata-se de “uma espécie de sociologia universal e prática para uma convivência harmônica da humanidade”. A obra segue de perto a filosofia estoica, principalmente a de Panécio, com algumas diferenças notáveis no terceiro livro, onde Cícero expressa claramente seu posicionamento.

No primeiro livro, o autor explora o conceito de honestidade, fundamento essencial dos deveres. Indissociável dos direitos e agregando todas as virtudes, para Cícero a honestidade se mostra como indispensável em todos os relacionamentos humanos, através dela que se encontra o caminho para uma vida tranquila. Para ilustrar suas ideias, utiliza diversos exemplos históricos, tanto de situações que considera como erros quanto como acertos.

O segundo livro introduz o conceito que, junto da honestidade, estrutura os nortes da convivência defendida por Cícero: a utilidade. Cícero questiona: pode algo desonesto ser tido como útil? Argumenta, então, que frequentemente os dois conceitos são tratados como mutuamente exclusivos, com o honesto sendo visto como inútil e o útil como desonesto. A resolução para essa tensão aparece no terceiro livro, quando ele afirma: “Portanto, que se fixe o seguinte: o que for desonesto, sequer tentes conseguir mesmo quando o julgares útil; realmente é calamitoso o simples fato de considerares útil o que é desonesto”.

Por fim, o terceiro livro aborda a relação entre honestidade, direito e utilidade, questionando se algo pode ser realmente útil ou proveitoso sem ser, ao mesmo tempo, honesto e justo. Sua conclusão é clara e resume bem a ideia central do autor: “A utilidade ou os benefícios auferidos em qualquer atividade só serão justos, se tiverem a característica da honestidade. Caso tenham qualquer traço de injustiça, são iníquos e, portanto, devem ser rejeitados”.

Ao longo dos séculos, Os deveres conquistou numerosos admiradores e comentadores, como Petrarca, Erasmo, Voltaire, Locke e Hume. Sua influência sobre o pensamento ocidental é profunda, impactando diversas eras e momentos da história do Ocidente. 

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Os deveres

Autor: Marcos Túlio Cícero

Tradução e Prefácio: Bruno Fregni Bassetto

ISBN: 9788526817920

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 496

Dimensões: 14 x 21 cm

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