Coletivo em cena: o sujeito político e a emancipação pela ótica da dramaturgia

Por Leo Pereira Muniz

Alteridade, teatro afrocentrado, coletividade e política são algumas das temáticas que estruturam Dramaturgias radicais – do personagem político ordinário à imaginação emancipatória, novo livro de Marcos Fábio de Faria, publicado pela Editora da Unicamp. A obra investiga a relação entre dois conceitos fundamentais: o de “personagem político ordinário” e o de “imaginação emancipatória”, tendo a dramaturgia como eixo analítico e ponto de partida para a elaboração de sua tese. 

Ao recorrer a textos de Augusto Boal e ao Teatro do Oprimido como práticas de denúncia e protesto na arte nacional, ao legado brechtiano de dramaturgia e aos estudos de Walter Benjamin, Faria articula referências diversas sem perder de vista seu foco principal: o teatro brasileiro. É nesse diálogo que o autor estrutura uma reflexão sobre o teatro como dimensão política, sobre a força revolucionária do coletivo e sobre a análise das alteridades e subalternidades a partir das perspectivas do “eu”, do “nós” e do “outro”.

Marcos Fábio de Faria é escritor, dramaturgo – integrante do Grupo dos Dez –, artista, pesquisador, professor, ativista, curador e editor no Laboratório Aquilombô, iniciativa dedicada a reunir e valorizar obras negras de diversas convergências artísticas. Sua trajetória volta-se à composição do teatro político, à construção do teatro dissidente, com destaque para a dramaturgia afrocentrada, o conceito de personagem político e a teoria e a crítica literária. Entre suas principais obras, destacam-se Detetives-Cabalistas (2019), A casa fechada (2023), Afroapocalíptico (2023) e o texto “Madame Satã – um musical brasileiro” (2018), que integra a obra Teatro Negro

Em Dramaturgias radicais, Faria estabelece conexões entre os conceitos de “personagem político ordinário” e “imaginação emancipatória”, aproximando-os de uma perspectiva marxista sobre “radicalismo” e de uma visão coletivista da revolução. Para o autor, o teatro é, inevitavelmente, uma instituição política – seja em sua atuação positiva, seja na negativa. A partir disso, defende a centralidade da coletividade nos processos de emancipação, expressa tanto na criação quanto na prática teatral. 

A divisão do livro em subtemas evidencia a densidade teórica da obra. O autor percorre o histórico da política brasileira enquanto processo colonial e escravista, trata da semântica de “político” e “ordinário” e, a partir dela, formula o conceito de “personagem político ordinário” e sua inscrição na dramaturgia. Explora, ainda, a elaboração da “imaginação emancipatória” – suas formações, práticas e caráter intrinsecamente coletivo –, bem como reflexões sobre pobreza, massa, divisão de classes e o papel do sujeito ordinário na engrenagem do sistema. Para Faria, todo corpo é político, e sua ação deve ser examinada sob uma perspectiva ontológica e tautológica: o que significa, afinal, exercer o “político”?

Pensando nisso, o autor propõe uma concepção contemporânea do “fazer teatro”, compreendendo a radicalidade e a revolução como possibilidades inscritas no teatro alterno e de protesto – um teatro que transpassa o texto e se afirma como movimento político protagonizado por sujeitos cotidianos. Para que tal movimento aconteça, o autor defende o afastamento do individualismo liberal e reafirma o papel do coletivo, como expressa no trecho: 

[…] imaginar uma emancipação individual é replicar o desejo opressor que, por exemplo, marca o protótipo do homem masculino – a figura típica da heteronormatividade branca e compulsória – como modelo de todas as conquistas de direitos, embora ele seja mais um protótipo do gozo de privilégios. O conceito de “direitos democráticos”, sobretudo na produção de informações artísticas, não pode ser pensado tendo como finalidade a ilusão liberal, como desejam alguns movimentos que apelam para as identidades individuais como solução. O que se deve levar em conta como desejo hegemônico são as lutas coletivas pela democracia plena, que se alimentam da radicalidade, quando essa é capaz de articular as vivências ordinárias.

Com um repertório teórico que inclui Walter Benjamin, Augusto Boal, Hannah Arendt, Florestan Fernandes, Judith Butler e Frantz Fanon, Dramaturgias radicais oferece reflexões essenciais para aqueles que buscam compreender a perspectiva política da arte e do teatro, o papel do coletivo como força revolucionária, a concepção do texto teatral como instrumento de denúncia e o diálogo com referências fundamentais da dramaturgia nacional. 

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Dramaturgias radicais – do personagem político ordinário à imaginação emancipatória

Autor: Marcos Fábio de Faria

ISBN: 9788526817326

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 264

Dimensões: 16 x 23 cm

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