
Victor Shimabukuro Pastor
Talvez existam poucas atividades tão mágicas quanto a tradução. Escreveu certa vez um prêmio Nobel de Literatura que, enquanto os autores são responsáveis pela formação das literaturas nacionais, são os tradutores que as tornam universais. Se tomarmos o romance como um dos principais objetos estéticos para a observação de formas culturais, torna-se fácil compreendermos a força da tradução: ao criar pontes, ela torna inteligíveis realidades e contextos muitas vezes distantes entre si. Mesmo que frequentemente invisibilizada, é na tradução que encontramos um dos espaços mais fecundos para a aproximação e a compreensão de diferentes culturas – e, com isso em mente, não é difícil perceber o quão relevante um volume bilíngue se mostra para aqueles interessados nesse tipo de diálogo.
Ferramenta preciosa para estudiosos interessados nos pares linguísticos que a compõem, projetos editoriais bilíngues são especialmente ricos para o entrelaçamento entre diferentes línguas e culturas. Do ponto de vista textual, a proximidade com o material traduzido – possibilitada, por exemplo, pelo cotejo entre as duas versões do texto – revela-se primordial para o estudo da tradução e da própria língua. Sua riqueza, contudo, não se esgota aí. Retomando a ideia da literatura como campo privilegiado para a observação de formações culturais, percebe-se como esse mesmo objeto pode servir de veículo para aproximar contextos históricos e culturais distintos, por meio da representação e da imersão nessas diferentes realidades.
É a partir dessa compreensão sobre o poder de uma obra bilíngue que a Editora da Unicamp, em parceria com o Instituto Confúcio da Unicamp, estruturou a Série Clássicos da Literatura Chinesa e Brasileira. Com uma proposta editorial diferenciada, a Série busca estreitar os laços entre culturas e tradições literárias geograficamente distantes, por meio de traduções cuidadosas de obras seminais, clássicas e monumentais, apresentadas lado a lado com seus textos originais. Como destaca Bruno De Conti, ex-diretor brasileiro do Instituto Confúcio, “a proposta é preparar os leitores para uma nova ordem cultural, valorizando também tradições não ocidentais”.
Um dos aspectos mais relevantes do projeto, no entanto, não está apenas na revisitação desses clássicos, mas nas apresentações que abrem cada volume. Nos prefácios da Série, elaborados por pesquisadores de renome, o leitor encontra valiosa contextualização histórica, cultural e literária das obras. Paulo Franchetti assina o texto introdutório do volume de Machado de Assis, enquanto Gao Qinxiang e Fan Xing apresentam a obra de Lu Xun. Interessantes mesmo para leitores já familiarizados com esses autores, tais textos revelam sua maior força para aqueles que entram em contato com essas obras e contextos nacionais pela primeira vez, ao oferecer um panorama amplo do ambiente histórico e cultural de sua produção, facilitando a leitura e a compreensão de estudantes, pesquisadores e demais interessados nesse par de idiomas e culturas.
Nesse sentido, a Série apresenta uma tripla importância: didática, ao servir de instrumento para estudantes lusófonos de mandarim e chineses que estudam a língua portuguesa; cultural, ao promover a aproximação entre as culturas brasileira e chinesa; e acadêmica, ao oferecer material de interesse para pesquisadores e docentes das áreas de literatura, tradução e estudos culturais.
A seguir, conheça as obras que compõem a Série Clássicos da Literatura Chinesa e Brasileira:
- Flores matinais colhidas ao entardecer, de Lu Xun

Traduzido pela primeira vez para o português por Ping Fang Yu, pedagoga e mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Flores matinais colhidas ao entardecer reúne memórias da infância e da juventude de Lu Xun. Na introdução do volume, Fan Xing – professora associada da Universidade de Pequim e doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp – descreve o autor como “um escritor teimoso, pensador paradoxal e revolucionário pessimista”.
Pioneiro no uso do chinês vernáculo, Lu Xun apresenta, nessa coletânea, dez textos em prosa frequentemente compreendidos como reminiscências, acompanhados de prefácio e posfácio escritos pelo próprio autor. As seções de apresentação e introdução, assinadas, respectivamente, por Gao Qinxiang e Fan Xing, oferecem ampla contextualização do período histórico, da trajetória do autor e de possíveis linhas interpretativas dos textos, configurando-se como partes fundamentais para o leitor estrangeiro que se aproxima, pela primeira vez, da história e da cultura chinesas.
2. O Alienista, de Machado de Assis

De autoria de Joaquim Maria Machado de Assis, O Alienista figura entre as narrativas mais célebres do maior escritor da literatura brasileira. A obra aborda os limites da loucura – tanto em relação à sua compreensão pela medicina da época quanto em sua dimensão humana – e constrói uma crítica mordaz à sociedade de seu tempo.
Traduzido por Min Xuefei, especialista em literatura lusófona e professora da Universidade de Pequim, o livro compõe o segundo volume da Série. Sua escolha se justifica, entre outros aspectos, pela proximidade temática com a obra de Lu Xun, sobretudo no que diz respeito à crítica social e às transformações históricas observadas em seus respectivos contextos nacionais. Em consonância com a proposta de aproximação cultural da Série, o livro conta com uma apresentação de Paulo Franchetti, que contextualiza o autor, o período histórico e os principais temas da narrativa – um apoio essencial para leitores não familiarizados com a história brasileira.
Para além de seu caráter inédito, a escolha das duas obras que inauguram a Série Clássicos da Literatura Chinesa e Brasileira revela-se especialmente instigante por tratar de temas comuns, como a loucura, a crítica social e as profundas transformações históricas vividas por China e Brasil em seus respectivos períodos de produção. Se, de um lado, Lu Xun – considerado o “inaugurador da ficção moderna chinesa” – abre esse ambicioso projeto, nada mais apropriado do que Machado de Assis, responsável por inaugurar o realismo na literatura brasileira, figurar como seu primeiro representante nacional.
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