Alto voa a fênix: perspectivas dos 250 anos da cidade de Campinas

Victor Shimabukuro Pastor 

“Diferentemente do urbano, que tem como referencial o abstrato e o geral, a cidade diz respeito ao concreto e ao particular”. A frase em destaque, do livro Campinas em perspectiva: memória e cultura de uma cidade paulista (1774-2024), publicado pela Editora da Unicamp, sintetiza bem o espírito da obra: pensar Campinas historicamente a partir de suas particularidades sociais e culturais. Desde o fim do século XX, observa-se uma tendência mundial de valorização do passado das cidades. Inserido nesse movimento, o livro surge como um desdobramento das atividades do Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e como um importante exercício de reflexão sobre a trajetória histórica, simbólica e social de Campinas. Em um contexto em que os avanços tecnológicos e a produção de conteúdos mediados por inteligências artificiais tornam cada vez mais incertos nossos referenciais, um volume que se ancora na materialidade de uma cidade com a relevância de Campinas ganha especial significado: o de nos reconectar ao espaço que habitamos e às diversas temporalidades que o entrelaçam. 

Organizado por André Luiz Paulilo e João Paulo Berto, o livro reúne uma coletânea de trabalhos que exploram, sob diferentes perspectivas, os múltiplos aspectos da história campineira. Paulilo é graduado em História, com mestrado e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), e atua como professor no Departamento de Filosofia e História da Educação da Faculdade de Educação da Unicamp. Berto, por sua vez, é bacharel e licenciado em História, com mestrado em História Cultural e doutorado em História da Arte pela Unicamp. É professor no curso de Arquitetura e Urbanismo das Faculdades Integradas Einstein de Limeira (SP) e arquivista no Centro de Memória da Unicamp.

É necessário reconhecer, primeiramente, que cada lugar é, ao mesmo tempo e em cada momento histórico, o ponto de interseção de processos sociais que se desenvolvem em diversas escalas. Alguns desses processos são puramente singulares e podem ser explicados em nível das realidades locais. Outros, entretanto, só podem ser compreendidos se ampliarmos a escala de análise para níveis hierárquicos superiores, sejam eles a região, o Estado-nação ou mesmo o planeta.

A citação de Mauricio Abreu, presente em Escritos sobre espaço e história (2014), ilustra muito bem o que, às luzes do aniversário de 250 anos de Campinas, Campinas em perspectiva propõe: um olhar caleidoscópico sobre dois séculos e meio de história. A coletânea articula reflexões sobre diferentes aspectos e momentos da história de Campinas, compondo um retrato plural de sua formação e das transformações que se deram na cidade ao longo do tempo.

Com especial atenção ao período de 1870 a 1970 – marcado pela transição do rural para o urbano e, mais especificamente, pelas instituições e práticas que asseguraram essa passagem –, mas sem deixar de lado outras cronologias da cidade, a coletânea organiza-se em seis grandes eixos temáticos que procuram abraçar o caráter multidisciplinar do projeto.

No primeiro deles, “Economia e política”, acompanhamos, ao longo de cinco artigos, a cronologia da economia cafeeira e o desenvolvimento industrial na cidade, os reflexos da crise monárquica na experiência política campineira e os conflitos sociais atrelados à escravidão. Em seguida, em “Cultura e educação”, encontramos trabalhos que dialogam com uma miríade de temas vinculados a esses campos, como a música oitocentista, as iniciativas educacionais no contexto do Império e a atuação do grupo Vanguarda nos anos 1960. 

Na terceira seção, “Espaço Urbano”, três trabalhos detalham o desenvolvimento arquitetônico da cidade, sua mobilidade urbana e as transformações de sua paisagem, enquanto a quarta, “Serviços urbanos”, trata de episódios centrados em espaços específicos, como os cemitérios, as escolas, o matadouro municipal e a Santa Casa de Misericórdia, popularmente conhecida como Santa Casa de Campinas. O quinto eixo, “Sociabilidades urbanas e associativismo”, aborda casos que representam o desenvolvimento das relações interpessoais na cidade durante o período, como os movimentos sociais em Campinas, a criação das associações de homens de cor e as dinâmicas migratórias. 

Por fim, no sexto e último eixo, “Memória e patrimônio”, encontramos textos que tratam dos diversos monumentos espalhados pela cidade, do tombamento da Vila Industrial como patrimônio ambiental urbano e da salvaguarda do jongo na Casa Fazenda Roseira.

Quanto às motivações para a publicação desta coletânea, Paulilo e Berto as deixam expressas de forma muito clara: “A organização desta publicação foi animada pela ideia de convidar os leitores e as leitoras a refletir a respeito das muitas mudanças do espaço habitado, vivido e sentido desde os fins do século XVIII”. A citação evidencia a intenção dos organizadores de aproximar o leitor do espaço em que vive. Em um mundo que se desagrega cada vez mais e em um tempo presente em que tudo parece passível de dúvida, saber que, no espaço onde hoje há uma farmácia franqueada, já existiu um botequim frequentado por estudantes de uma universidade ou outra pode enraizar o sujeito ansioso e devolver-lhe a sensação de pertencimento, tão rara na contemporaneidade. Nesse sentido, Campinas em perspectiva: memória e cultura de uma cidade paulista (1774-2024) realiza o importantíssimo trabalho de não apenas nos levar a questionar e tensionar nossa relação com o espaço e as memórias que fundam a cidade, mas de também nos enraizar em uma materialidade na qual ainda possamos nos reconhecer.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Campinas em perspectiva: memória e cultura de uma cidade paulista (1774-2024)

Organização: André Luiz Paulilo e João Paulo Berto

ISBN: 9788526817388

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 664

Dimensões: 16 x 23 cm

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