Coleção Cadernos de Desenho: a intimidade artística revelada no traço

Por Victor Shimabukuro Pastor

Quando se conversa sobre o fazer arte, é comum chegar a uma discussão sobre processos criativos. Pensando na escrita, se debate sobre planejar ou não a narrativa, utilizar ou não clichês, adicionar ou não floreios na prosa, como desenvolver ideias, criar personagens… E mesmo após rodadas e rodadas de debates, a conclusão é sempre a mesma: o processo é individual. Dificilmente se ensina como se dá esse fazer, o ensinável está nas ferramentas que colaboram para seu processo. Isso não quer dizer, contudo, que não se possa analisá-los e estudá-los, nem que sejam irrelevantes para o campo ou para o estudioso e o interessado no assunto – existe algo na experiência individual que cativa e ilumina –, pois é a partir desses processos que se desenvolve o estilo e as temáticas mais íntimas de um artista. 

Escolho a palavra “artista”, e não “escritor”, por um motivo muito simples: esse processo não está limitado às letras – vale adicionar que estas também não são os melhores exemplos desses processos. Trata-se de algo generalizado, que tem como ápice as artes visuais.  

As esculturas de mármore, as pinturas a óleo e as gravuras em metal não passam de um produto final, resultado de uma infinidade de etapas e filtros. Esboços, experimentações a lápis e rabiscos – todas essas fases do intenso processo criativo podem ser simbolizadas por um objeto de especial importância: o caderno de desenho. No âmago desse processo, o caderno se mostra um elemento singular, reservando em suas páginas um espaço de criação único, privado dos olhos alheios. Quase como um jardim secreto, suas folhas abrem possibilidades que dificilmente se encontram em outros meios.

Excepcional em (e por) sua função dentro do processo criativo da arte visual, o caderno de desenho pode ser considerado o epítome desse espaço secreto. Diferentemente das artes vinculadas às letras – cuja gênese costuma nascer da introspecção –, no desenho tudo se desenvolve no rabiscar do papel, nos testes e experimentos incessantes. A origem da arte visual reside, portanto, no caderno de desenho. Como afirma Luise Weiss na abertura do caderno de Renina Katz (Editora da Unicamp, 2010):

Os diários de artistas marcam caminhos, trajetórias de pesquisas, desenhos, anotações gráficas e reflexões. O interesse especial que despertam é exatamente esta questão: os diários de artistas muitas vezes revelam os projetos no momento do surgimento, ideias iniciais ou simplesmente desenhos que podem dar origem a outros. Ou seja, os diários evocam nascentes de rios, o fluir de projetos e pensamentos através de desenhos e textos.

É nesse contexto que a Editora da Unicamp convida você a conhecer a Coleção Cadernos de Desenho e adentrar um campo de intimidades raramente observado.

Tendo em vista que é por meio desses desenhos, anotações e rabiscos que os artistas registram a essência de seu pensamento visual e constroem o desenvolvimento de suas obras, a Coleção nasce da proposta de revelar o que normalmente permanece oculto, trancafiado, nas páginas de seus cadernos de bolso ou guardado em seus ateliês. Ao tornar acessíveis esses registros iniciais, oferece ao público uma perspectiva inédita sobre os processos criativos de artistas já consagrados. 

A seguir, conheça cada um dos sete cadernos da Coleção:

  1. Eliseu Visconti

Eliseu D’Angelo Visconti nasceu na Itália em 1866, mas, ainda muito jovem, mudou-se para o Brasil com sua irmã. Artista declaradamente brasileiro, Eliseu realizou sua formação em instituições nacionais, como o Liceu de Artes e Ofícios e a Academia Imperial de Belas Artes. Em 1893, viajou à França graças ao Prêmio de Viagem à Europa, organizado pela Escola Nacional de Belas Artes, e assim se manteve, viajando entre Brasil e França, até 1920, quando se fixou com a família no Rio de Janeiro. Possui uma produção vasta e muito rica que atravessa diferentes movimentos artísticos, como o simbolismo, o impressionismo e a art nouveau. Seu caderno traz 70 desenhos produzidos entre 1904 e 1906, registrando, entre outras coisas, as viagens de Visconti entre Paris e o Rio de Janeiro.

  1. Tarsila do Amaral

Nascida em Capivari, no interior do estado de São Paulo, Tarsila do Amaral pode ser considerada uma das mais célebres artistas brasileiras. Com formação plural, Tarsila atravessa e é influenciada pelas vanguardas europeias, criando um estilo próprio e muito particular. Para além de sua busca por uma pintura tipicamente de “nosso país”, Tarsila demonstrou sua importância ao compor o notável Grupo dos Cinco (formado por ela, Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia), responsável por agitar o cenário cultural paulistano e encabeçar a Semana de Arte Moderna de 1922. 

  1. Marcello Grassmann

Sétimo filho dos nove nascidos do matrimônio entre a professora D. Elpídia de Lima Brito e Otto Grassmann, Marcello Grassmann foi um importante ilustrador, gravador e desenhista brasileiro. Com formação nada tradicional, Marcello iniciou seus estudos no Instituto Profissional Masculino, frequentando o curso de entalhe. Seguiu, depois, um caminho muito próprio, trabalhando e aprendendo junto de diferentes artistas e escultores, como Mário Cravo Júnior e Poty Lazzarotto. Seu caderno é formado por obras de seu acervo pessoal e contou com a participação ativa do artista em sua seleção. Com duas partes, denominadas “Os grifos ao espelho” e “Obsessões”, as páginas do caderno oferecem uma visão ampla da dramática percepção de mundo do artista e de seus principais temas.

  1. Renina Katz

Gravadora, desenhista e professora, Renina Katz foi um colosso em sua área de atuação – uma artista e docente de enorme importância. Sendo uma parte indissociável da outra, desenvolveu seu traço e trabalho artístico em paralelo à atividade docente. Sua passagem de um estilo mais voltado ao realismo figurativo para a abstração acabou por torná-la uma professora mais versátil; como disse Agnaldo Farias, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU/USP), instituição na qual Katz lecionou por 28 anos: Renina compreendia a forma como seus alunos se desenvolviam – ela formava pessoas. 

Seu caderno de apontamentos é espelho desse trajeto e contém, além de desenhos policromados feitos com lápis de cor, citações e ponderações que nos guiam para uma reflexão sobre uma atividade em construção, centrada no ofício artístico.

  1. Fayga Ostrower

Gravadora, pintora, desenhista, ilustradora, teórica da arte e professora, Fayga Ostrower chegou ao Brasil em 1934, vinda da Polônia, e teve sua formação artística no curso de Artes Gráficas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), onde estudou xilogravura com Axl Leskoschek e Carlos Oswald. Percorrendo fases mais figurativas e mais abstratas, a partir da década de 1970 dedicou-se à aquarela, na qual apresentou uma temática mais lírica. Com muito rigor técnico e apuro no uso das cores, seu caderno reúne traços rápidos, suficientes para indicar à memória da artista a que obra se referiam, além de desenhos concisos e simplificados. Cada gravura abre uma página, acompanhada de uma enigmática numeração correspondente.

  1. Iberê Camargo

Um dos grandes nomes da arte brasileira do século XX, Iberê Camargo iniciou sua formação artística em 1927, na Escola de Artes e Ofícios de Santa Maria. Em 1936, mudou-se para Porto Alegre, onde conheceu sua futura esposa, Maria Coussirat Camargo, figura importante no processo de salvaguarda de suas obras. Após viajar para a Europa em 1948, aprimorou sua formação. 

Com seleção feita em colaboração com a Fundação Iberê Camargo, seu caderno acompanha o desenvolvimento do artista e sua passagem por diferentes tradições, como a renascentista e a cubista – desde seus estudos iniciais até esboços de séries célebres como Ciclistas e Idiotas.

  1. Flávio de Carvalho

Figura singular e provocadora no cenário artístico brasileiro, Flávio de Carvalho destaca-se por sua postura experimental e por uma atuação que atravessou diferentes campos do conhecimento. Viveu e estudou na Inglaterra e, ao retornar ao Brasil, recusou a compartimentação tradicional das artes: engenheiro por formação, atuou também como arquiteto, teatrólogo, pintor, desenhista, escritor, filósofo e músico. Foi presença essencial na vanguarda cultural do país e facilitou a chegada de práticas libertárias à arte brasileira na década de 1950. 

O volume que leva seu nome reproduz 105 ilustrações que publicou para acompanhar os artigos da coluna “A moda e o novo homem” do Diário de S. Paulo, revelando seu interesse por etnografia, psicanálise, sociologia e biologia.

___________________________________

Diante desses sete volumes, talvez a pluralidade de formas com que esses cadernos se apresentam seja a maior prova de sua principal força e importância: para além de simples esboços e rabiscos, permitem compreender o processo criativo como algo vivo, inerente a cada artista – imperfeito, experimental e fundamento de toda obra. Além dessa função voltada ao processo criativo, os cadernos também agregam imenso valor histórico e documental, configurando-se como fontes às quais pesquisadores e estudantes das mais diversas áreas podem recorrer ao longo de seus percursos acadêmicos. 

Não apenas pela unicidade do projeto, que abre portas para a intimidade de grandes nomes da arte brasileira, mas também por ampliar nossa compreensão do que é arte e de como ela pode ser feita, a Coleção instiga o público a explorar, rabiscar, criar seus próprios cadernos e processos artísticos.

Acesse o nosso site e veja de perto essa constelação de trabalhos, gravuras, anotações e processos que revelam como nasce uma obra de arte.

Deixe um comentário