Unir moderno e antigo: a proposta de método de estudos de Giambattista Vico

Ana Alice Kohler

Giambattista Vico foi um dos principais filósofos italianos da Idade Moderna. Professor de retórica na Universidade de Nápoles, produziu uma extensa obra filosófica que abrange áreas como os estudos históricos e a linguística. Considerado por muitos como seu texto filosófico inaugural, De nostri temporis studiorum ratione acaba de ser publicado pela primeira vez em língua portuguesa, na edição bilíngue intitulada O método de estudos de nosso tempo, da Editora da Unicamp. O texto, redigido originalmente em 1709, foi estudado e traduzido do latim por Vladimir Chaves dos Santos, que já havia participado da edição bilíngue de outra obra de Giambattista Vico, Epistolário. Ambas fazem parte da Série Multilíngues da Coleção Fausto Castilho de Filosofia, que reúne traduções robustas de grandes obras da filosofia mundial.

Vladimir Chaves dos Santos realizou sua graduação, mestrado e doutorado em Filosofia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde pesquisou os conceitos de “engenho” e “invenção” na obra de Giambattista Vico. Em 2015, realizou pós-doutorado na Universidade de Nápoles Federico II (Itália). Atualmente, é professor adjunto na Universidade Estadual de Maringá (UEM), na qual desenvolve estudos acerca da filosofia de Giambattista Vico, da tradição da retórica, da filosofia de Francis Bacon e de temas ligados à filosofia da história, principalmente na Antiguidade.

A Coleção Fausto Castilho de Filosofia, desenvolvida em parceria com a Fundação Fausto Castilho, possui duas séries: a Série Estudos e a Série Multilíngues. A segunda, da qual faz parte O método de estudos de nosso tempo, tem como objetivo concretizar a ideia metodológica de seu fundador, “ler no original, expressar-se em vernáculo”. Desse modo, a série propõe o estudo do texto original aliado ao cultivo da língua portuguesa como possibilidade do fazer filosófico. Assim, são publicados “textos fundamentais da história da filosofia no idioma em que foram compostos, acompanhados de sua tradução para nossa língua”. As edições ainda possuem textos complementares que servem como guias para o estudo de temas teóricos tão complexos, como é o caso da obra de Giambattista Vico.

O texto original de O método de estudos de nosso tempo foi escrito a partir de uma palestra didática ministrada por Vico em 1708 aos calouros da Universidade de Nápoles, na qual tratou da pedagogia da época e da necessidade de modernizá-la por meio do “resgate de saberes antigos”. Por esse motivo, a obra trata de temas como os métodos e os objetivos da educação na Modernidade e na Antiguidade, o valor metodológico do Método Geométrico e o papel da poesia e da teologia cristã na educação. A edição da Editora da Unicamp conta com cópias anastáticas do original, concedidas pelo professor Fabrizio Lomonaco em nome do Departamento de Humanidades da Universidade de Nápoles Federico II. Assim, o leitor encontra uma reprodução do texto escrito por Giambattista Vico em latim – na qual é possível verificar até mesmo a tipologia utilizada na época – e, logo em seguida, a tradução correspondente em língua portuguesa, que segue a mesma forma empregada no original.

Além do texto de De nostri temporis studiorum ratione e de sua tradução, o livro ainda conta com um prefácio explicativo escrito por Fabrizio Lomonaco, historiador da filosofia italiana, e uma apresentação da tradução, em que Vladimir Chaves dos Santos expõe como se deu o processo de verter uma obra tão antiga do latim para o português. A partir desses textos introdutórios, o leitor tem acesso à dedicatória escrita por Vico e aos demais 15 capítulos da obra, que abordam temas como as “inconveniências do Método Geométrico importado à Física” e as “inconveniências das artes redigidas acerca de assuntos da prudência”.

Em seu prefácio, Fabrizio Lomonaco explica a origem da escrita de O método de estudos de nosso tempo. Segundo o estudioso, “era costume abrir o ano letivo com uma oração pública, e o professor de retórica Giambattista Vico proferiu sete dessas preleções de 1699 a 1708”. A palestra concedida pelo professor em 18 de outubro de 1708, entretanto, destacou-se das demais: além da presença ilustre do cardeal e vice-rei Grimani, aquela era a oportunidade de Vico expressar suas ideias “em uma nova e delicada situação político-cultural, marcada pela queda do domínio espanhol e pela ascensão do governo austríaco”. Dessa forma, o filósofo aborda questões complexas acerca da epistemologia da época, propondo um “confronto crítico” entre os métodos antigos e modernos de saber, para que seja possível sanar as “inconveniências” de um com as vantagens do outro.

Em O método de estudos de nosso tempo, Giambattista Vico demonstra como o “método analítico e dedutivo”, quando aplicado à física, por exemplo, e transferido da geometria, pressupõe a redução do ser humano a um “sujeito-pensamento, isolado do mundo exterior, fechado na presunção mentalista de decidir sobre a natureza das coisas”. Para Vico, essa noção, de inspiração platônica, parte do princípio de que o mundo humano, como o natural, só pode ser compreendido por meio de formulações matemáticas, método que deixaria lacunas enormes no conhecimento humano. Ele propõe, dessa maneira, que a retórica deve ser recuperada do arcabouço da pedagogia da Antiguidade como chave para “orientar as emoções e as paixões humanas a fins morais”.

A palestra de Giambattista Vico, nesse sentido, teoriza uma prática de estudos voltada à valorização de uma “eloquência civil”, que deve se aliar ao direito e à política na educação dos jovens “para as ações, reabilitando a vida social numa perspectiva histórico-temporal claramente sacrificada pela filosofia do cogito”. Para Lomonaco, fica evidente nas formulações de Vico acerca do direito e da política, por exemplo, o contexto histórico em que se encontravam “esgotadas as esperanças de uma reforma constitucional geral favorável à aristocracia”: nascia uma monarquia nacional que possuía uma política “anticurialista e antibaronial”, respondendo às “necessidades emergentes de uma economia mercantil mais dinâmica e produtiva”. 

O método de estudos de nosso tempo apresenta um material valioso para quem busca se aprofundar na história da filosofia do século XVIII por meio de textos originais da época. Além disso, a obra ainda pode ser estudada por entusiastas do latim, que encontrarão no livro uma tradução atenta e acessível do texto escrito por Vico há mais de 300 anos. Para saber mais sobre a obra, acesse nosso site!

O método de estudos de nosso tempo

Autor: Giambattista Vico

ISBN: 9788526817562

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 304

Dimensões: 16 x 23 cm

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