Jornal da Unicamp publica entrevista sobre o livro “Fundamentação da metafísica da moral”

Jornal da Unicamp — Quais foram os maiores desafios encontrados durante o processo de tradução?

Osmyr Faria Gabbi Jr. — Existem vários, mas vou me deter em dois. O primeiro foi evitar usar termos em português que abram possibilidades de interpretação ausentes em alemão. Por exemplo, o termo Fakultät, que designa “faculdade” no sentido que se diz, em português, “faculdade de direito”, é traduzido, às vezes, como “capacidade”, no sentido de “capacidade mental”. O resultado dessa escolha é ler o Conflito das faculdades como um tratado sobre conflitos mentais. O segundo consistiu em tentar manter, em português, sentenças longas, devido ao hábito de Kant de seguir uma oração principal com várias subordinadas adjetivas, explicativas e restritivas.

JU — Como foi o processo de criação das notas que acompanham o livro?

Osmyr Faria Gabbi Jr. — As notas tinham o duplo objetivo de mostrar o encadeamento da obra estudada e, quando possível, contextualizar o parágrafo dentro do conjunto das outras obras de Kant e da filosofia. Sempre obedecendo à regra de que as obras anteriores, do próprio Kant ou de outros filósofos, elucidam a obra presente.

JU — A quem se destina essa obra?

Osmyr Faria Gabbi Jr. — Para além dos estudantes de filosofia e do público acadêmico, a obra destina-se a todo indivíduo que tem preocupações éticas. Nesse sentido, o livro é fundamental para entender, por exemplo, o motivo de não se poder dizer que, no conflito entre nazistas e não nazistas, há boas pessoas em ambos os lados.

JU — Quais contribuições o livro oferece para os estudos de filosofia hoje?

Osmyr Faria Gabbi Jr. — A doutrina de Kant sobre a moral é uma doutrina que pressupõe a racionalidade e a moralidade como duas faces de uma mesma moeda. Como o ser humano é capaz de ser racional sem ser moral, é inevitável que haja uma assimetria entre o moral e o imoral. Somos capazes de identificar a imoralidade sem sermos capazes de identificar o que é moral.

JU — Já que o título foi pensado como ferramenta didática, que cuidados foram tomados em sua apresentação? Houve adaptações específicas pensando no uso em sala de aula?

Osmyr Faria Gabbi Jr. — Acredito que os alunos de filosofia que estudam um determinado autor precisam conseguir ler a língua original em que a obra foi escrita. Portanto, como os três semestres [período em que ocorreu uma série de aulas sobre o texto de Kant, no Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, para as quais se elaboraram a tradução e as notas] foram dedicados à defesa dessa crença, optei por não realizar grandes alterações ou adaptações na tradução.

JU — Como você avalia o grau de dificuldade da obra? E qual é a importância desse texto para os estudos de graduação em filosofia?

Osmyr Faria Gabbi Jr. — A obra, desde que cercada dos devidos cuidados, não é de difícil compreensão. Quando o curso começou, havia uma expectativa, por parte dos alunos, de que essa obra de Kant ensinaria sobre o que é moral. Aprenderam que sabemos quando um ato é imoral, mas não quando ele é moral. Acredito que seja um aprendizado que deva ser levado para a vida prática.

Inovação didática

Alexandre Hahn *

Grundlegung zur Metaphysik der Sitten permanece, até hoje, como uma das obras mais influentes da filosofia moral. Longe de estar ultrapassada, a obra oferece um modelo rigoroso e universal para pensar os fundamentos da ética ao defender que a moralidade não pode depender de interesses subjetivos, mas deve estar baseada em princípios racionais a priori — isto é, em normas que todo ser racional poderia reconhecer como válidas, independentemente das circunstâncias. Em tempos marcados por crises de valores e dilemas morais cada vez mais complexos, as noções kantianas de autonomia da vontade e de dignidade da pessoa humana continuam a oferecer critérios sólidos para a deliberação ética.

A nova tradução da obra, realizada por Osmyr Faria Gabbi Jr., destaca-se não apenas pela precisão linguística, mas, sobretudo, pela inovação didática. Ao apresentar o texto original, a tradução e um comentário explicativo para cada parágrafo, essa edição constitui uma ferramenta pedagógica poderosa. E diferencia-se de outras traduções por permitir um diálogo constante com os conceitos centrais da filosofia kantiana, auxiliando na compreensão do vocabulário técnico e na contextualização sistemática da obra no interior do pensamento crítico. Trata-se, portanto, de uma contribuição significativa tanto para a pesquisa quanto para o ensino de filosofia no Brasil.

*Alexandre Hahn é professor da Universidade de Brasília (UnB)

Para ler o texto no site do Jornal da Unicamp, clique aqui.

Fundamentação da metafísica da moral

Autor: Immanuel Kant

Tradução: Osmyr Faria Gabbi Júnior

Edição: 1ª

Ano: 2025

Páginas: 320

Dimensões: 16 cm x 23 cm

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