
Maria Eduarda Peloggia Lunardelli
Pintora, ilustradora, desenhista, gravadora, professora e teórica da arte, Fayga Ostrower consolidou-se como uma das figuras brasileiras mais emblemáticas e influentes do século XX. Nascida em 14 de setembro de 1920, na cidade de Lodz (Polônia), Fayga Perla Krakowski (nome de solteira) cresceu em uma família judaica que vivia em Wuppertal (Alemanha). Com a ascensão do nazismo, a família precisou migrar para a Bélgica e, em 1934, para o Brasil, onde a artista se enraizou pessoal e culturalmente, naturalizando-se brasileira.
Ao chegar ao Rio de Janeiro, com apenas 14 anos, Fayga deparou-se com um ambiente em plena efervescência cultural, impulsionado pela promessa de prosperidade social e econômica da Era Vargas e pela promulgação da Constituição de 1934. Esse contato com uma capital vibrante e intelectual, aliado ao casamento com o historiador Heinz Ostrower, em 1942, intensificou seu interesse pela arte, levando-a a cursar Artes Gráficas na Fundação Getúlio Vargas, em 1947. Nesse período, estudou com grandes nomes do cenário artístico, como Axl Leskoschek, de quem recebeu aulas de xilogravura (técnica de impressão em madeira que produz imagens em alto-relevo), e Carlos Oswald, com quem aprendeu a gravura em metal.
Mesmo antes de se especializar em gravura, Fayga já era reconhecida: em 1943, recebeu menção honrosa em pintura no Salão Paulista de Belas Artes. Ao longo dos anos, consolidou espaço no mundo artístico, revolucionando as técnicas de pintura e gravura em um contexto em que a participação feminina ainda era rara. Suas exposições conquistaram público, críticos e artistas em diversos países, rendendo-lhe prêmios como o Grande Prêmio Nacional de Gravura da Bienal de São Paulo (1953) e o Grande Prêmio Internacional da Bienal de Veneza (1958), marcos que consolidaram sua carreira internacional.
Além da produção artística, Fayga desempenhou papel fundamental no meio acadêmico e intelectual. Foi professora no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, ministrando aulas de composição e análise crítica, e atuou em cursos de pós-graduação em universidades brasileiras, além de lecionar na Escola Slade de Belas Artes (Londres) e na Faculdade Spelman (Atlanta). Sua contribuição se estendeu ainda à escrita de artigos, ensaios e livros que difundiram a dimensão teórica da arte.
Entre suas várias publicações, a Editora da Unicamp reúne três obras de destaque: Acasos e criação artística (2013), Universos da arte (2013) e Fayga Ostrower – Cadernos de desenho (2011). Nessas obras, a artista reflete sobre os processos criativos, a experiência do desenho e a linguagem visual em diferentes momentos de sua trajetória.

Publicado em 2013 pela Editora da Unicamp, Acasos e criação artística apresenta as reflexões de Fayga Ostrower sobre o papel do acaso e das experiências de vida no processo criativo, relacionando arte e sobrevivência humana.
A autora parte da ideia de que a arte constitui uma força vital profundamente ligada à humanidade, capaz de transformar instantes banais e aparentemente insignificantes em obras repletas de significado. O livro mostra como a criação artística pode ressignificar dores e sofrimentos, transcendendo limites humanos e atribuindo dignidade às experiências singulares.
Ostrower discute ainda a inspiração intuitiva: seria ela fruto do acaso? Para responder, estabelece a relação entre acasos, vivências e significados. Relata, por exemplo, como uma mancha cintilante, observada ao limpar instrumentos de gravura, tornou-se inspiração para trabalhos futuros. Assim, conclui que o acaso só se torna matéria-prima artística quando há sensibilidade por parte do observador.
Nesse sentido, o processo criativo não é apenas dar sentido ao que parece insignificante, mas também elevar as experiências a um patamar mais digno, permitindo ao indivíduo adaptar-se ao mundo por meio da arte. O livro convida, portanto, a cultivar a sensibilidade para perceber a beleza oculta nos pequenos acasos da vida.

Também publicado em 2013, Universos da arte analisa a própria obra de Fayga Ostrower a partir dos princípios da linguagem visual, mostrando como o artista é influenciado – mas não determinado – pelo contexto histórico.
A obra nasceu de um desafio pessoal da autora: ensinar teoria e história da arte a operários. Dessa experiência, resultou um livro teórico e, ao mesmo tempo, acessível, voltado à democratização da linguagem visual. Ostrower combina conceitos (teoria), aplicações (prática) e análises de obras contextualizadas (história), criando uma obra ricamente ilustrada, com mais de 300 imagens, que ensina a “gramática” da arte e demonstra sua importância para a prática artística.
O livro defende que o artista é produto de seu tempo e do contexto em que vive, mas possui liberdade para manipular os elementos visuais e criar uma experiência própria. A grandeza de cada obra, portanto, reside na forma única com que cada artista utiliza cores, linhas e formas para interpretar sensivelmente a realidade de sua época.

Integrante da Coleção Cadernos de Desenho da Editora da Unicamp, Fayga Ostrower – Cadernos de desenho (2011) reúne registros pouco conhecidos da artista, revelando a intimidade de seu processo criativo.
O livro apresenta gravuras e desenhos rápidos e espontâneos, que expõem a natureza imediata da expressão artística de Fayga e sua composição singular. Com isso, oferece ao leitor um olhar privilegiado sobre como a artista transformava momentos cotidianos e acasos em arte.
Os livros de Fayga Ostrower não apenas inspiram, mas também ampliam a compreensão sobre os processos de criação artística, unindo teoria e prática. São leituras prazerosas e indispensáveis para quem deseja explorar esse universo, além de estimular o desenvolvimento e o aprimoramento do potencial criativo individual.
Para além dessas obras, o catálogo da Editora da Unicamp reúne um vasto acervo de livros sobre arte que, assim como os de Ostrower, aprofundam o conhecimento e oferecem novas perspectivas sobre as múltiplas formas de expressão artística.