Três obras fundamentais de Simon Schwartzman para entender a ciência, a política e a educação no Brasil e na América Latina

Maria Eduarda Peloggia Lunardelli

Em 3 de julho de 1939, nascia, na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, um dos homens que viriam a inovar os estudos sobre a sociedade brasileira por meio de uma visão capaz de abordar diferentes perspectivas, de modo a expor todo o potencial grandioso que o país tem para se transformar. Simon Schwartzman, filho de imigrantes judeus, desde jovem demonstrou interesse por questões socioculturais e políticas, o que o levou a participar ativamente de atividades dessa natureza promovidas pela ala “progressista” da comunidade judaica da qual fazia parte, resultando também em seu ingresso em uma célula da União da Juventude Comunista. 

A escolha da área de sua formação acadêmica foi fortemente influenciada por seus interesses políticos, que o encaminharam ao curso de Sociologia e Política da Faculdade de Ciências Econômicas (Face) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1958, proporcionando-lhe contato com novas visões de mundo e com outros nomes que também viriam a se destacar academicamente. Ao concluir a graduação em 1961, mudou-se para Santiago, no Chile, para dar continuidade aos estudos com um mestrado em Sociologia na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). A partir desse momento, seja por conta das perseguições políticas que sofria no Brasil, seja pela constante busca por novos conhecimentos, Schwartzman seguiria viajando, atuando politicamente, pesquisando e lecionando por todo o mundo, com passagens por universidades renomadas na Noruega, na Argentina, na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos – onde realizou seu doutorado na Universidade da Califórnia, em Berkeley – e em muitos outros países. 

Diante de sua notória importância acadêmica, além de criar um novo campo de pesquisa dentro da sociologia – a organização nacional da ciência e tecnologia, tema que viria a ser o foco de seus estudos –, Schwartzman exerceu vários cargos de liderança em instituições renomadas, como a presidência da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), entre 1990 e 1991, e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 1994 a 1998, sendo hoje membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Além disso, sua participação ativa na busca pela compreensão das situações sociais, políticas, educacionais e científicas do Brasil contemporâneo ganhou grande reconhecimento ao receber, em 1996, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico do governo brasileiro.

Portanto, Simon Schwartzman se consolidou como uma das figuras mais importantes para a sociologia brasileira, não apenas por apresentar uma trajetória acadêmica de grande rigor e excelência, mas principalmente pelo engajamento político, que direcionou seus estudos a buscar o entendimento dos desafios estruturais que o Brasil apresenta, como a ineficiência estatal, a educação precária e de baixa efetividade e as alarmantes desigualdades sociais. Assim, procurou analisar os problemas da atualidade a partir de suas origens, indo ao cerne das questões para que fosse possível pensar medidas plausíveis e efetivas para solucioná-los e, dessa forma, impulsionar o país a se desenvolver plenamente, desfrutando de todo o seu potencial. 

Pensando, então, em destacar e manter vivas as discussões levantadas pelo sociólogo, a Editora da Unicamp selecionou três obras escritas e organizadas por ele que abordam alguns dos pilares de suas pesquisas: o autoritarismo, a educação superior e a comunidade científica. Dessa forma, o leitor interessado em compreender mais amplamente temas que hoje estão em alta e que ditam os rumos tanto do Brasil quanto dos demais países da América Latina tem acesso a panoramas completos e detalhados. Confira:

  1. Bases do autoritarismo brasileiro

Dada a relevância do livro para a compreensão das raízes históricas do modelo político brasileiro atual,  Bases do autoritarismo brasileiro, publicado pela primeira vez em 1982, foi relançado em 2015 pela Editora da Unicamp. 

Por meio de uma revisitação às origens do Estado brasileiro, Schwartzman destaca diversos elementos fundamentais para o entendimento do autoritarismo e das dificuldades enfrentadas no processo de redemocratização dos países latino-americanos. Faz, portanto, uma releitura e uma reorganização de abordagens teóricas disponíveis sobre política, economia e sociedade para analisar as estruturas que foram responsáveis por proporcionar a alternância entre sistemas autoritários e princípios frágeis de uma democracia e, dessa forma, ressalta que a redemocratização é a primeira e fundamental etapa para a consolidação de uma democracia brasileira. 

  1. A educação superior na América Latina e os desafios do século XXI 

Organizada por Simon Schwartzman e publicada pela Editora da Unicamp, em 2015, a obra A educação superior na América Latina e os desafios do século XXI fornece um panorama completo sobre a situação da educação superior na América Latina, apresentando dados de 1960 até os dias de hoje. 

O título reúne textos de diversos autores, de diferentes nacionalidades, criando um mosaico no qual cada peça, cada ensaio, dialoga, debate, complementa e enriquece as demais análises do livro, resultando em uma obra que expõe com clareza a trajetória do ensino superior na região. A partir dessa visão, fica evidente a situação em que a educação se encontra nesses países, apontando as principais semelhanças e diferenças entre eles, além de estabelecer paralelos com as realidades de países como Estados Unidos e Coreia do Sul. É, portanto, por meio da compreensão e do estudo desse panorama que A educação superior na América Latina e os desafios do século XXI apresenta possibilidades reais de aprimorar o processo de formação superior nos países latino-americanos. 

  1. Um espaço para a ciência: a formação da comunidade científica no Brasil

Publicado pela primeira vez em 2001 e relançado pela Editora da Unicamp em 2015, Um espaço para a ciência: a formação da comunidade científica no Brasil é uma obra pioneira nos estudos sobre o desenvolvimento da ciência e da pesquisa no Brasil.

Ao abranger um período que vai das expedições naturalistas e das instituições coloniais, como a Academia Científica do Rio de Janeiro, criada em 1772, até a consolidação de uma comunidade científica brasileira em meados do século XX, Schwartzman analisa as origens da ciência no Brasil, o papel que o Estado exerceu sobre ela com a criação do Instituto Oswaldo Cruz e das universidades públicas, por exemplo, e a forma como ocorreu a emergência da comunidade científica. Dessa maneira, Um espaço para a ciência: a formação da comunidade científica no Brasil fornece uma ampla base para a compreensão das dificuldades e dos obstáculos que a ciência enfrenta hoje no país, sendo também um bom modelo a ser seguido por outras nações. 

O contato com esses títulos proporcionará ao leitor um panorama integral sobre as dinâmicas de produção e disseminação de conhecimento no Brasil e nos demais países latino-americanos atualmente, destacando o funcionamento dos sistemas políticos, educacionais e científicos que estruturam a sociedade dessas nações. Dessa forma, as obras de Simon Schwartzman se consolidam como ferramentas teóricas que auxiliam o entendimento dos problemas, fragilidades e potencialidades do Brasil e da América Latina para que possam  progredir e se aprimorar cada vez mais.

Gostou dessas recomendações? O catálogo da Editora da Unicamp conta também com uma ampla seção de livros essenciais para os estudos na área de sociologia que, assim como as obras de Schwartzman, contribuirão para aprofundar e enriquecer o entendimento sobre a sociedade brasileira. 

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