Uma solução para a saudade: cartas

Maria Eduarda Peloggia Lunardelli

[…] o poeta que luta, de armas na mão, por uma causa oportuna ou inoportuna, útil ou inútil, mostra ser claramente, indiscutivelmente, um idealista extremo – e que a sua poesia, a sua faculdade poética, assentam em bases de inabalável solidez, porque nasce de uma sôfrega sede de altura e de um profundo anseio de superar as inércias quotidianas, as covardias e as hesitações que nos diminuem.

Campineiro de nascença, Guilherme de Andrade de Almeida (1890-1969) foi uma figura de grande importância não apenas para o cenário cultural brasileiro, mas também para os âmbitos social e político do país. Filho do jurista e professor da antiga Academia do Largo do São Francisco – hoje Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – Estevam de Araújo de Almeida, Guilherme optou, em um primeiro momento, por seguir os passos do pai e exercer a advocacia. No entanto, tempos depois, abandonou a carreira jurídica e passou a se dedicar exclusivamente ao jornalismo, área na qual se encontrou, atuou intensamente e que lhe permitiu explorar a escrita também de forma literária. 

Seus primeiros contatos com a efervescente produção artística e cultural da década de 1910 ocorreram ainda durante a graduação. Contemporâneo de Oswald de Andrade (1890-1954) – poeta, ensaísta e dramaturgo brasileiro responsável pela escrita do Manifesto Antropofágico, um dos textos precursores do Modernismo brasileiro –, Guilherme desenvolveu com ele uma forte amizade e foi influenciado por sua obra. Em 1916, os dois escreveram e publicaram suas primeiras peças teatrais. No ano seguinte, Guilherme lançou seu primeiro livro de poesia, Nós, que fez sucesso especialmente entre o público feminino. 

Após esse início promissor no cenário literário, Guilherme construiu sua carreira por meio de publicações e colaborações em diversas revistas, jornais e rádios importantes da época, como Onze de Agosto, O Estadinho, Diário Nacional, Folha da Manhã e Folha da Noite. Foi também, junto com seu irmão Tácito de Almeida (1889-1940), um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, tendo participado especialmente da criação da renomada revista Klaxon, cuja capa foi de sua autoria. A contribuição do escritor ao Modernismo brasileiro foi reconhecida com sua eleição para a Cadeira 15 da Academia Brasileira de Letras, em 1930, e com o título de “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, em 1958.

Além da atuação cultural, Guilherme de Almeida também participou da Revolução Constitucionalista de 1932, sendo condecorado com a Medalha da Constituição. Durante o conflito, a maior dificuldade que enfrentou foi a separação de sua esposa, Belkiss Barrozo do Amaral (1901-1988), conhecida como Baby, com quem mantinha uma relação muito próxima. Para lidar com a distância e amenizar a saudade, o casal trocava correspondências frequentemente, apesar das limitações impostas pelo contexto da guerra. As cartas, além de manterem o vínculo amoroso, revelam aspectos valiosos da experiência pessoal do poeta e de sua obra. 

É a partir desse conjunto de correspondências que a ensaísta e professora Maria Eugenia da Gama Alves Boaventura Dias organizou o livro Cartas da trincheira: correspondência entre Guilherme de Almeida e sua musa (1932). Boaventura possui bacharelado e licenciatura em Letras pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), e mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) – este último em Letras Clássicas. É professora titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde desenvolve pesquisas sobre Modernismo brasileiro, Oswald de Andrade, literatura contemporânea, crítica textual e áreas afins. Entre suas publicações anteriores estão O filósofo da malta (2022), Couto de Barros (1896-1966): a elite nos bastidores do modernismo paulista (2022) e O salão e a selva – uma biografia ilustrada de Oswald de Andrade (1995). 

Sua obra mais recente, Cartas da trincheira, se ancora em estudos de arquivo, com base no Fundo Guilherme de Almeida do Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulalio (Cedae), do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. Ao todo, o livro apresenta 42 cartas trocadas entre Guilherme e Baby – 21 de cada um –, todas reproduzidas em versão transcrita e digitalizada, permitindo ao leitor acesso integral ao conteúdo. 

O livro, que traz uma introdução detalhada contextualizando a vida e a obra do poeta, reflete sobre o papel da correspondência amorosa em meio ao conflito, que resistia à censura do Correio Militar, aos atrasos na entrega das cartas e às dificuldades de comunicação por telefone. Além disso, apresenta importantes questões de gênero, sobretudo pelo destaque dado à personalidade marcante de Baby – uma mulher vinda da alta sociedade carioca e que não se submetia aos protocolos da época. A recusa em se transferir para a casa da sogra, por exemplo, evidencia uma postura de independência incomum para o período. 

Cartas da trincheira contribui de forma significativa para os estudos da epistolografia no século XX, especialmente no que diz respeito às cartas de amor e à escrita epistolar feminina no Brasil. A obra também revela aspectos do funcionamento das redes de amizade e de trabalho do poeta, de sua atuação em jornais e no rádio, além de trazer materiais inéditos, como trechos do diário pessoal de Guilherme de Almeida, escrito durante o conflito.

Para ter acesso a mais informações sobre a obra, visite nosso site!

Cartas da trincheira: correspondência entre Guilherme de Almeida e sua musa (1932)

Organizadora: Maria Eugenia Boaventura 

ISBN:  978-85-268-1731-9

Edição: 1a

Ano: 2025

Páginas: 136

Dimensões:14 x 21 cm

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