O vento comum, uma nova perspectiva sobre a “era das revoluções”

Maria Eduarda Peloggia Lunardelli

O vento comum é uma daquelas obras raras que transmitem não apenas novas evidências e novos argumentos, embora haja uma abundância de ambos, mas uma visão totalmente nova de um período histórico, neste caso, a era das revoluções, um dos momentos mais profundos da história mundial. A Revolução Haitiana, Wordsworth ficaria feliz em saber, “não morre”. Julius S. Scott segue o rastro do povo invicto que ele estuda, contando-nos uma nova história – de exultação e agonia, de amor e revolução. (Marcus Rediker)

Julius S. Scott (1955-2021) foi um grande historiador estadunidense, que se tornou mundialmente conhecido por seus estudos sobre a história caribenha, do Atlântico e sobre escravidão. Consagrado com o título de doutor pela Universidade Duke, em 1986, Scott por meio da sua dissertação, considerada a tese de língua inglesa mais lida e debatida no âmbito das ciências humanas e sociais durante o século XX, apresentou diversos estudos que deram origem, posteriormente, ao seu mais influente e notório projeto: o livro The Common Wind: Afro-American Currents in the Age of the Haitian Revolution. A obra, em 2025, ganhou uma edição em português, publicada pela Editora da Unicamp, intitulada O vento comum: correntes afro-americanas na era da Revolução Haitiana. Nela, o autor apresenta uma nova visão sobre a maneira como se consolidou o fluxo de informações nas colônias do Caribe, durante a era da Revolução Haitiana. 

A obra, composta por textos introdutórios, glossário de abreviaturas, mapa e cinco capítulos de desenvolvimento e conclusão, além de Epílogo, Bibliografia e Índice remissivo, apresenta, logo no princípio, um Prólogo escrito por um estudioso renomado na área, Marcus Rediker, que é professor, historiador e escritor estadunidense, conhecido também por seus estudos voltados para a história sociocultural, trabalhista e marítima do Atlântico. No texto, Rediker ressalta a importância e genialidade do livro, que se consolida no mundo acadêmico como um estudo criativo e extremamente rico em detalhes.

Scott estava fazendo história transnacional e atlântica muito antes de essa abordagem e esse campo terem se tornado novas tendências na escrita histórica. Dizer que ele estava à frente de seu tempo seria uma afirmação insuficiente. Muitas das frases que ele escreveu há mais de 30 anos parecem ter sido escritas ontem.

O vento comum contextualiza a situação sociopolítica e cultural do Caribe e do Atlântico de forma aprofundada, fornecendo detalhes, embasados em dados históricos, sobre como o Novo Mundo se tornou um ambiente fortemente inflamável para movimentos revolucionários. Nesse sentido, Scott atrela as visões revolucionárias aos pontos de vista e aos interesses daqueles que seriam prejudicados, as metrópoles europeias e os grandes proprietários de terras, caso informações do meio europeu, debates e pensamentos políticos e ideais abolicionistas se espalhassem rapidamente pelas colônias. 

Dessa forma, o entendimento sobre a origem do espírito revolucionário nos territórios caribenhos é feito, logo no primeiro capítulo, “‘A Caixa de Pandora’: o Caribe sem senhores de escravos no final do século XVIII”, através da metáfora da Caixa de Pandora. Ela, um objeto da mitologia grega que representa o princípio de todos os males da humanidade, é trazida para o contexto do livro no sentido de que, com o desenvolvimento econômico acelerado das colônias na região do caribe, essas áreas se tornaram extremamente atrativas para todos, tanto para europeus que buscavam enriquecer com as plantations como para pessoas de cor e negros sem senhores que estavam à procura de representatividade e oportunidades. Assim, com a promessa de uma vida melhor e uma vida em liberdade, o fluxo de pessoas que chegavam aos portos caribenhos era cada vez maior e, com isso, as redes de comunicação com o mundo ampliavam-se. 

Contudo, não apenas de promessas de liberdade e independência viviam os indivíduos das colônias. O segundo capítulo da obra discute a questão da implantação e manutenção de um regime escravocrata nas colônias, apontando que o desenvolvimento acelerado das plantations fazia com que o número de escravos também aumentasse, tornando-se um fator determinante para a fomentação de um mal-estar social e resultando em constantes conflitos. Com esses embates de interesses entre senhores de escravos e pessoas sem senhores, relacionado à chegada de inúmeras embarcações (por exemplo, de navios negreiros, de bucaneiros, piratas e outros fugitivos), a disseminação de ideias altamente voláteis sobre independência e liberdade intensificou-se drasticamente, fazendo com que o ambiente das colônias se tornasse cada vez mais favorável para a explosão de revoltas e revoluções. 

Em decorrência ao forte desenvolvimento da economia local, as colônias, como as de Saint-Domingue, Jamaica e Cuba, passaram também a ser fortes atrativos para o comércio marítimo. Portanto, com os novos fluxos de mercadorias, incentivados e facilitados pela criação de novos portos nas áreas costeiras, as chegadas e partidas das embarcações não apenas serviram como um forte disseminador das ideias antiescravagistas e revolucionárias, como também se tornaram um facilitador das fugas individuais e/ou coletivas de negros e pessoas de cor. Os três últimos capítulos, portanto, aprofundam as discussões acerca da disseminação de informações no cenário das colônias, das ampliações das rotas comerciais e do anseio por libertação.

Os brancos frequentemente chamavam os trabalhadores negros qualificados e não vinculados às plantations de insolentes, mas os escravos que buscavam no mar a forma de encontrar trabalho – ou fuga – apresentavam desafios específicos de controle, assim como os negros e pardos que chegavam em embarcações de colônias estrangeiras. Quer fossem fugitivos, como Tom King, ou marinheiros, como Equiano, muitos escravos tinham interesse em direcionar suas vidas para o mar e conhecer o mundo que existia para além do horizonte. O movimento de embarcações e marinheiros não só oferecia oportunidades para o desenvolvimento de talentos ou para a fuga, como também um meio de comunicação a distância que permitia que os afro-americanos interessados acompanhassem os acontecimentos em outras partes do mundo.

Diante disso, O vento comum apresenta e explica a forma com que os movimentos revolucionários, da década de 1790, foram fortemente orquestrados e executados por indivíduos envolvidos com o comércio marítimo que se firmava no local. Sejam trabalhadores de pequenas embarcações, que visavam ao comércio entre as colônias, ou de grandes barcos vindos do alto-mar, os “negros marinheiros” desempenharam um papel essencial na transmissão de informações, que serviam de atualização dos acontecimentos e ideias que circulavam nas metrópoles europeias, para os habitantes das colônias. Essas informações, em junção à disseminação de boatos e informações políticas, como correntes abolicionistas e ideais republicanos, instigaram cada vez mais a população caribenha, nutrindo o ambiente para a era das revoluções. 

Esse livro, portanto, mostra-se como uma leitura essencial para não somente aqueles que estudam as revoluções no Atlântico, o processo de transmissão de informações em meio ao sistema escravocrata, ou também os processos de independência das colônias do Caribe, mas também para todos os entusiastas dos estudos das ciências humanas e sociais, haja vista que a obra, apesar de ser uma tese de doutorado, apresenta uma linguagem clara e concisa, além de um fluxo narrativo rico em detalhes, mas de fácil compreensão.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site

O vento comum: correntes afro-americanas na era da Revolução Haitiana

Autor: Julius S. Scott

ISBN: 9788526816770

Edição: 1a

Ano: 2024

Páginas: 256

Dimensões: 16 x 23 cm

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