Juventudes e velhices: a imagem da saúde ao longo do tempo

Ana Alice Kohler

Entre todos os dilemas e incógnitas pelos quais o ser humano vive cercado, a forma como ele lida com o tempo parece ser uma das questões mais aterradoras. Foi tentando conviver em harmonia com a inevitabilidade da passagem do tempo que a humanidade criou períodos do dia, estações do ano, horas e semanas. Nesse sentido, a vida das pessoas viu-se dividida e classificada em fases, construídas culturalmente e imbuídas de significados específicos. A juventude e a velhice fazem parte desse sistema de organização da vida humana e ganharam diferentes características ao longo dos séculos. É partindo dessa premissa que Edivaldo Góis Junior expõe sua pesquisa em Juventudes e velhices: uma história de práticas saudáveis de educação física. Ao estudar as práticas físicas desenvolvidas por jovens e idosos ao longo do século XX, o autor pretende responder à pergunta: “Quais as relações entre a educação física e os comportamentos considerados saudáveis para jovens e idosos?”. Para isso, ele realiza uma investigação histórica, por meio de fontes como jornais e periódicos, restrita ao período que se estende da década de 1930 até a década de 1980, na cidade de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Edivaldo Góis Junior é graduado em Educação Física pela Universidade Estadual Paulista, mestre e doutor pela Universidade Gama Filho e professor da disciplina de História da Educação Física na Unicamp. Além disso, é membro de diversos grupos de pesquisa na área, editor das revistas Conexões e Resgate e editor associado da Revista Pró-Posições. Foi também coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Unicamp e coordenador associado do Centro de Memória da Unicamp – CMU.

Em Juventudes e velhices, ele propõe a tese de que “as representações sobre velhice não substituíram completamente os objetivos de uma educação das juventudes como discursos que justificavam as ‘práticas de educação física’. Pelo contrário, essas representações coexistiram e se sobrepuseram em uma história recente”. O livro é dividido em quatro capítulos que exploram o tema sob perspectivas diversas e em diferentes épocas. Na Introdução, Góis Junior explica os motivos por trás da sua escolha pelo recorte temporal do século XX e pelo limite espacial da cidade de São Paulo e do Rio de Janeiro: “seria também importante uma delimitação geográfica mais precisa que impedisse uma generalização das interpretações para um contexto nacional e permitisse, em alguns pontos, uma análise em escala microssocial”. 

Após delimitar seu escopo de estudo, o autor aborda a relação entre as práticas de educação física e as representações das juventudes e velhices na década de 1930, tema do primeiro capítulo da obra, “Juventudes e velhices em face das ‘práticas de educação física’ na década de 1930”. O texto trata das representações construídas por periódicos, médicos e jornalistas da época acerca do corpo jovem e saudável. Assim, Góis Junior identifica como o projeto de institucionalização da Educação Física estava atrelado às imagens de “juventude saudável”, “juventude informal e esportista” e “juventude cívica”. Desse modo, a formalização das práticas de educação física em ambiente escolar, por exemplo, fez parte da criação desses ideais de juventude ligados ao projeto nacional de higienização do povo. A velhice, nesse contexto, passa a ser enxergada como uma condição que pede por “dietas, cremes, remédios, massagens, pílulas e, ainda de forma secundária, ginásticas” que eram divulgadas pelos jornais das capitais como promessas de rejuvenescimento. Na década de 1930, o autor identifica uma forte relação entre um projeto nacional de juventude e uma responsabilização individual pelo envelhecimento. Assim, era dever do Estado promover a saúde dos jovens, por meio das práticas de educação física nas escolas, e papel do indivíduo idoso de participar do mercado consumidor que promovia o rejuvenescimento.

O segundo capítulo da obra, “Juventudes e esportes em meio aos conflitos políticos nos anos de 1960 e 1970”, pretende identificar como se dava a relação entre as práticas de educação física e a juventude que, na época, polarizava-se fortemente entre jovens conservadores e jovens progressistas. Assim, no capítulo, o autor tenta lidar com a continuidade de certas formas de representação da juventude que já estavam presentes na década de 1930 e com a criação de novas particularidades referentes ao cenário político da época. Para isso, são abordados os impactos da Guerra Fria nos esportes e em como eles eram retratados na imprensa, com destaque para os periódicos O Pasquim e Movimento.

O terceiro capítulo, nesse sentido, funciona como um complemento do anterior, já que trata de “Velhices, saúde, aposentadoria e cuidados de si nas décadas de 1960 e 1970”. Góis Junior trata, portanto, nessa parte, das representações das velhices que surgiram na segunda metade do século XX, em que o esporte e as práticas de educação física passaram a ser promovidos para todas as idades. Nesse contexto, a luta pelos direitos dos idosos e a questão da produtividade capitalista entram em jogo como fatores importantes para o entendimento da construção das imagens sobre velhice da época. Mais uma vez, a individualização da saúde surge como característica importante relacionada ao processo de envelhecimento nas capitais.

Por fim, o quarto capítulo da obra, “O envelhecimento que enaltece a juventude e a juventude que administra o envelhecimento nos anos de 1980”, traz novas perspectivas sobre o dilema. O “envelhecimento ativo” ganha destaque, para o autor, em meio a contradições e complexidades envolvendo a redemocratização, o papel do profissional de Educação Física, os direitos coletivos e a individualização dos corpos. Assim, não apenas as juventudes e as velhices ganham representações diversas, mas o próprio esporte e a atividade física são vistos ora como fórmula para a saúde, ora como “ópio do povo”.

Juventudes e velhices apresenta, ainda, algumas Considerações finais acerca do que foi tratado, como forma de trazer uma conclusão para a pesquisa desenvolvida ao longo da obra. Os diferentes tipos de texto analisados, nesse sentido, são responsáveis por enriquecer o conteúdo do livro, que traz trechos da grande imprensa, de periódicos informativos e de publicações acadêmicas. Assim, o leitor tem acesso a imagens, gráficos, dados e reproduções das épocas estudadas, os quais permitem uma leitura mais aprofundada das análises feitas por Góis Junior. 

De maneira geral, a obra fomenta, além da pesquisa historiográfica acerca das práticas de educação física, um debate que trata das etapas da vida humana e de suas constituições simbólicas, suas dimensões materiais e suas perspectivas éticas. Afinal, a juventude e a velhice fazem parte de um ciclo que prevê e se encerra na morte, tão evitada nos dias atuais: 

Precisaríamos discutir e refletir sobre as crenças da humanidade no domínio da natureza dos corpos, com o objetivo final de vencer a morte e conquistar a imortalidade, a que aludem hoje os pesquisadores de tecnologia. Como imaginar uma sociedade sem a morte? Quais seriam as consequências de uma tecnologia que impedisse a morte humana em um cenário no qual milhões de pessoas nem sequer têm acesso à água? Quem seriam as pessoas que venceriam a morte? Seria o caso de uma nova eugenia? As desigualdades sociais não seriam um desafio mais relevante nas contingências da vida?

Para saber mais sobre Juventudes e velhices, acesse nosso site!

Juventudes e velhices: uma história de práticas saudáveis de educação física

Autor: Edivaldo Góis Junior

ISBN: 9788526816398

Edição: 1ª

Ano: 2024

Páginas: 328

Dimensões: 16 x 23 cm

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