Rafaela Neres Poiani
Pensando nas teorias distintas sobre o signo de Saussure e Bakhtin/Volóchinov, optamos por adotar aqui a versão mais moderna e amplamente difundida nos Estudos da Linguagem, referente ao Círculo Bakhtiniano. Contextualmente, a visão saussuriana parte de uma conjuntura positivista do Oeste Europeu, em que o signo é pensado de forma dicotômica (langue-língua e parole-fala) e como aquilo que deve se ocupar do estável. Contrário a essa concepção, Mikhail Bakhtin, em Marxismo e filosofia da linguagem, entende a língua situada em um constante processo de mudanças, não estática e composta por um sistema de signos com valor ideológico. Sobre o valor ideológico, vejamos o que dizem Silva e Seidel (2018):
O signo para Bakhtin/Volóchinov é ideológico, pois possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo (um objeto ou um acontecimento), refratando e refletindo outra realidade que não a sua. Dessa forma, o signo linguístico, por apresentar essas características, é um signo ideológico – diz respeito a uma realidade outra que não a sua própria (ou seja, a realidade material fônica), mas sim a algum fenômeno da natureza ou da consciência social (p. 185).
Baseando-se no conceito adotado por Bakhtin/Volóchinov, a Editora da Unicamp publicou o livro Sob os signos da violência, da área de Crítica e Teoria Literária, em que o fenômeno da consciência social apresentada pelos organizadores Andre Rezende Benatti, Rosana Cristina Zanelatto Santos e Wellington Furtado Ramos é a “violência”. Nesse sentido, a coletânea busca analisar uma série de narrativas criadas a partir da primeira década do século XXI, na América Latina, em relação aos diferentes tipos de representações da(s) violência(s); por exemplo, a opressão sofrida pela classe feminina e os regimes autoritários. Os capítulos, de tom majoritariamente ensaístico, contam com escolhas teórico-metodológicas diversas e são assinados por vários autores, entre eles, Fernando Bogado; Lívia Santos de Souza; Natalia Lorena Ferreri; Jordana Cristina Blos Veiga Xavier; Camilla Guedes Tiburcio Pazim e Adriana Lins Precioso; Altamir Botoso; Elcio Loureiro Cornelsen e Milena Mulatti Magri. Mesmo advindos de contextos distintos, os textos analisados têm em comum “as marcas dos mecanismos de opressão e de hierarquização que submetem culturas, povos e subjetividades aos domínios mortíferos da colonização econômica e cultural”, conforme ratificado em “À guisa de apresentação” da obra:
Entendemos a arte latino-americana produzida no século XXI como uma espécie de síntese estética de todo um processo formativo do imaginário da América Latina. O objetivo central do volume é apresentar a análise dessas narrativas, criadas especialmente a partir da primeira década do século XXI, tomando como base a problemática do violento processo histórico pelo qual a porção sul do continente americano passou, deslocando o olhar de modelos, conceitos e espaços narrativos que nos eram/são familiares dentro das estruturas narrativas, a fim de pensar a possibilidade de novas formas de composição.
Andre Rezende Benatti é doutor em Letras Neolatinas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS); tem experiência em literaturas estrangeiras modernas, desenvolvendo pesquisas relativas às temáticas da violência, cultura e modernidade na literatura latino-americana e espanhola, especialmente na obra de Josefina Plá. Também publicou O lugar do abjeto, do perverso e do animal na historiografia e no cânone literário (2019) e Escrituras da violência na literatura latino-americana (2021). Rosana Cristina Zanelatto Santos tem doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), estágio pós-doutoral na Universidade de Brasília (UnB) e é professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS); atua principalmente nos seguintes temas: literatura brasileira, teoria da literatura, ficção e história, violência e horror. Também é organizadora da obra O lugar do abjeto, do perverso e do animal na historiografia e no cânone literário (2019). Wellington Furtado Ramos é doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e também é professor da UFMS; tem interesse nos seguintes temas: literatura e psicanálise, literatura e morte, tempo, repetição e pulsão de morte. Publicou, entre outros, Por uma história da literatura brasileira contemporânea de 1975 a 2021 (2023).
A obra busca analisar as representações da violência nos objetos artísticos, especialmente literários, para além ou para aquém de um suposto caráter mimético. O livro reúne dez capítulos escritos por diversos autores, pertencentes a várias instituições, entre elas, Universidade de Buenos Aires, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Estadual Paulista (Unesp). Além dos textos escritos pelos organizadores, como o Prefácio – Dor, forma e beleza: sob os signos da violência (assinado por Wellington Ramos), “A memória repactuada nas narrativas literárias: a busca de K.” (de Rosana Santos) e “Da literatura violenta: uma perspectiva sobre as narrativas latino-americanas contemporâneas” (escrito por Andre Benatti), o compilado conta com textos de outros nove autores.
Sob os signos da violência apresenta uma pluralidade de gêneros textuais e temáticas analisados, entre eles, contos, romance, ficção científica, relato pós-ditatorial, fantasia e memória biográfica. Entre os contextos, encontram-se, a título de exemplo, os de literatura colombiana (Gabriel García Márquez), argentina (Félix Bruzzone, Mariana Eva Perez, Pola Oloixarac e Leonardo Oyola), brasileira (Conceição Evaristo, João Gilberto Noll), cubano-americana (Cristina García) e equatoriana (María Fernanda Ampuero).
Se você é da área de Linguagens ou mesmo de Sociologia, Sob os signos da violência é um rico material que carrega uma completa e heterogênea análise sobre as narrativas latino-americanas, acerca dos diferentes tipos e representações da violência. Para saber mais sobre o livro, visite nosso site!
Adicionalmente, 1968: o diálogo é a violência – Movimento estudantil e ditadura militar no Brasil é outra publicação da Editora da Unicamp que pode interessar aos leitores, sobretudo aos estudiosos de Ciências Sociais, uma vez que ela analisa o movimento estudantil ocorrido durante o ano de 1968, no Brasil, e a construção detalhada e rigorosa de quatro momentos desse ano é redigida com base em uma questão central: a violência, linha interpretativa do trabalho.

Organização: Andre Rezende Benatti, Rosana Cristina Zanelatto Santos, Wellington Furtado Ramos
ISBN: 9788526816411
Edição: 1ª
Ano: 2024
Páginas: 248
Dimensões: 14 x 21 cm