Acesso à cultura: teatros e artistas com deficiência visual

Rafaela Neres Poiani

É fato que a arte se encontra presente entre os humanos desde os tempos mais remotos. Segundo Biesdorf e Wandscheer (2011), “para o homem pré-histórico, era fundamental representar suas crenças, seus anseios, valores, hábitos, costumes e suas necessidades por meio das representações artísticas”. Ainda hoje, a arte continua sendo parte importante da vida do ser humano, por diversas razões, entre elas a possibilidade de entendermos melhor a sociedade em que vivemos e de inclusive modificá-la, ou mesmo como um respiro em meio à loucura da lógica capitalista caótica. Dado seu significativo papel social, há um espaço na Constituição Federal de 1988 que visa assegurar o acesso à cultura: “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”. 

Contudo, os direitos previstos na norma brasileira não são exatamente garantidos à população, especialmente quando se trata de pessoas com deficiência (PcD), que são aquelas que mais sofrem as mais diversas formas de invisibilização. De acordo com uma pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) em 2022, existem 18,6 milhões de brasileiros com deficiência; dados do último Censo Demográfico de 2010 apontam para 6,6 milhões de cidadãos com deficiência visual severa (pessoas que declararam ter grande dificuldade de enxergar ou que não conseguiam enxergar de modo algum), sendo que 506,3 mil eram cegos. Além disso, o primeiro estudo citado indica que PcD têm menor acesso à educação, ao trabalho e à renda, e, não obstante, à arte.

Para tratar das questões envolvidas na acessibilidade cultural, a Editora da Unicamp publicou o livro Teatros e artistas com deficiência visual, escrito por Lucas de Almeida Pinheiro. A obra apresenta possibilidades criativas no campo da dramaturgia, em relação à sua produção, fruição e formação de seus integrantes. Lucas de Almeida Pinheiro é doutor em Artes da Cena pela Unicamp e professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Pinheiro desenvolve pesquisas na área de Poéticas e Linguagens da Cena, investigando as relações entre cena-deficiência-criação via acessibilidade poética, e tem experiência na área pedagógica e artística, com ênfase em interpretação teatral, direção, iluminação e produção.

Na recente publicação, o autor expõe provocações e proposições poéticas e epistêmicas de artistas cegos no teatro brasileiro, revelando os diversificados caminhos por eles percorridos. Para isso, foram analisadas as obras e abordagens de 13 grupos de teatro nacionais, localizados, em sua maioria, nas regiões Sul e Sudeste do país: Teatro Cego (SP); Teatro dos Sentidos (RJ); Sensus (SP); Noz Cego (BA); Coletivo Grão – Arte e Cidadania (SP); Arteiros (online); Coletivo Desvio Padrão (SP); Projeto Teatralizando/IPC (PR); Cia. Fluctissonante (PR); Cia. Pé de Ator (SP); Má Companhia (RS); grupo teatral Benjamin Constant (RJ); Corpo Tátil (RJ). Na Introdução, o autor declara o objetivo do seu trabalho:

Na pluralidade, na diversidade e na individualidade que perfazem a existência humana e suas formas de se relacionar e produzir arte, este material se propõe a ser um convite ao alargamento de perspectivas. Um convite para que nossas concepções sobre o que é o teatro, sobre como o criar e sobre quem o pode fazer e experienciar sejam revistas; um convite para rediscutir a questão da acessibilidade como uma questão que também é poética, dada por escolhas estéticas que, por si só, são políticas. Não se trata, portanto, de realizar uma tentativa de padronização ou normatização, mas apontar como alguns grupos e artistas nacionais desenvolveram suas estratégias para tornar suas cenas acessíveis a quem não pode vê-la.

O livro é dividido em três eixos temáticos que, embora autônomos, se complementam, sendo eles “Os sentidos”, “As palavras” e “A mimese”. No primeiro, o leitor encontrará quatro poéticas que se orientam pela não vidência e pela multissensorialidade: valendo-se de vendas ou imersões na escuridão total, os grupos discutidos ao longo dessa seção recorrem a dispositivos que suprimem temporariamente a percepção visual do público – quando este a possui; e um exemplo é o Teatro Cego, agrupamento que ancora as discussões desse núcleo temático. 

Em “As palavras”, o foco das discussões é o Coletivo Grão, que utiliza materiais sonoros, sobretudo vocais, com uso de recursos descritivos e narrativos, os quais tornam as dimensões visíveis da cena poeticamente acessíveis. Ainda, interseccionado à audiodescrição, a “audionarração” é um dispositivo dramatúrgico que esses artistas destacam em suas composições cênicas. 

No último eixo, Pinheiro traz o relato de dois grupos teatrais cariocas: Benjamin Constant e Corpo Tátil, os quais desenvolvem trabalhos voltados à elaboração de personagens, sua construção e sua caracterização. Nesse sentido, as crianças que faziam parte do grupo teatral Benjamin Constant, eram instigadas a aguçar a memória e imaginação, expressando as características dos personagens através do corpo e da voz, com movimentos e gestos físicos. Em casos mais complexos, como o da peça O Mágico de Oz, o personagem do Homem de Lata foi sendo pensado e construído com intermédio de um pequeno boneco articulado reciclando latas de metal, feito pela mãe de uma das crianças. Dessa forma, o grupo pôde explorar o objeto tatilmente, pensando no que seria um homem de lata, o que o compõe e suas possibilidades de movimento: qual é sua velocidade? Quais ângulos são possíveis de serem feitos? Quais sons são produzidos nesse movimento?, e muitos outros questionamentos faziam parte de pensar a construção desse personagem. 

Através de uma linguagem persuasiva e argumentativa, Teatros e artistas com deficiência visual chama a atenção para as efetivas políticas públicas e pedagógicas no Brasil, convocando todos à ação, tal qual um manifesto. Tendo em mente que a cegueira não é composta por um grupo homogêneo de pessoas, uma vez que cada uma vivencia essa condição sensorial de uma forma, a investigação busca apontar caminhos que possibilitem perceber a deficiência visual como uma característica humana que, em relação ao campo teatral, rasura suas lógicas visuocêntricas e capacitistas.

Além da dramaturgia, da pintura, da dança e da música, a escrita também se insere no universo das artes. Portanto, pensando na acessibilidade cultural voltada às PcD e, especificamente, no domínio das cenas, Teatros e artistas com deficiência visual pode servir como um instrumento provocador de reflexões e transformações não apenas para aqueles que estão inseridos no meio artístico, mas também para a sociedade como um todo. No livro Tópicos utópicos, a educadora Ana Mae Barbosa já dizia: “acredita-se que a arte não é apenas uma consequência de modificações culturais, porém o instrumento provocador de tais modificações”.

Adicionalmente, entre as várias obras de teatro que compõem o acervo da Editora da Unicamp, Entre o ouvido e a voz, publicada em 2022, dedica-se a um dos cinco sentidos humanos e pretende compreender a relação entre a audição e as vocalidades do ator contemporâneo. 

Para saber mais sobre o livro Teatros e artistas com deficiência visual, visite o nosso site!

Teatros e artistas com deficiência visual

Autor: Lucas de Almeida Pinheiro

ISBN: 9788526816381

Edição: 1ª

Ano: 2024

Páginas: 288

Dimensões: 23 x 16 cm

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