Aço em flor: a poética de Leminski entre o rigor e o acaso

Ana Alice Kohler

“Escrevo. E pronto. / Escrevo porque preciso, / preciso porque estou tonto.” É assim que se inicia o poema “Razão de ser”, de Paulo Leminski, uma revelação em versos do que há por trás da arte do poeta curitibano. A necessidade descrita pelo eu lírico, traduzida no anseio pela produção artística e pela própria vida, é justamente o que define seu trabalho aos olhos de Fabrício Marques, autor de Aço em flor: a poesia de Paulo Leminski. A obra, publicada pela Editora da Unicamp em coedição com a Editora UFMG, parte da dissertação de mestrado de Marques, apresentada em 1996, quando as pesquisas acerca da poética de Leminski eram escassas. O ensaio, publicado pela primeira vez em 2001, foi revisitado e ampliado em 2024, recebendo textos veiculados anteriormente em outros meios, além de um artigo completamente inédito.

Fabrício Marques formou-se em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Entre 2000 e 2011, coordenou o Laboratório de Jornalismo Impresso, no Centro Universitário de Belo Horizonte, que recebeu mais de 20 prêmios da área. Também como jornalista e crítico literário, colaborou com diversos periódicos importantes no Brasil, como a Folha de S. Paulo. Além disso, foi professor de jornalismo, curador de poesia brasileira e finalista dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom com seu livro de poemas A fera incompletude

Aço em flor é dividido em seis capítulos, além de apresentar textos adicionais que contextualizam a leitura da obra. O Prefácio, “Com quantos Paulos se faz um Leminski”, é o segundo texto do livro, e segue “Primeiras palavras”, uma breve introdução acerca da nova edição. Maria Esther Maciel é ensaísta, escritora, professora de Teoria da Literatura na UFMG e a responsável pelo Prefácio, em que detalha as formas de análise poética que serão encontradas pelo leitor no livro. A principal característica do estudo de Fabrício Marques é, segundo Maria Esther, o entendimento e a celebração da multiplicidade da poesia de Leminski. A autora elenca, nesse sentido, quatro “grandes linhas de força” nas quais o trabalho do poeta pode ser distribuído: concisão, informação, invenção e consciência semiótica. É a partir dessas tópicas que Fabrício Marques abordará a poesia de Leminski em Aço em flor.

O primeiro capítulo do livro, “O anarquiteto de desengenharias”, é também o que apresenta um texto completamente inédito: “A aventura radical de Paulo Leminski”, que encerra essa seção da obra. O capítulo inicia, entretanto, com uma transposição da notícia da morte de Leminski publicada no jornal O Estado do Paraná, em 1989. O trecho é carregado de sentimento, principalmente pela idade do poeta (apenas 44 anos), e torna-se ainda mais emocionante na proximidade do dia 24 de agosto de 2024, data em que Leminski completaria 80 anos. O autor, ao dar uma pequena biografia do poeta, evidencia não os fatos concretos e cronológicos da vida de Paulo Leminski, mas a sua poesia como meio de vazão de sua energia criadora. 

Para Fabrício Marques, o entusiasmo é a marca registrada do curitibano não apenas em seus versos, mas também em seus ensaios, romances, canções e em sua própria vida. Assim, o primeiro capítulo de Aço em flor contextualiza o leitor em meio ao enorme acervo de produções deixadas por Leminski, a história de como foram recebidas e o diálogo que estabelecem umas com as outras. O autor destaca, na tentativa de situar a produção do poeta no cenário da literatura brasileira, as relações dialógicas estabelecidas com o Simbolismo, o Modernismo, a Tropicália e a poesia oriental. Leminski apresenta, entretanto, um projeto pessoal de desconstrução das hierarquias e dos limites de cada sistema literário, que Fabrício resume da seguinte maneira:

Seu desejo de abolir as fronteiras, pela rarefação, entre prosa e poesia, legível e ilegível, informação e comunicação, não deixava de levar em consideração uma consciência dos limites da língua e da linguagem, limites estilísticos, semânticos e sintáticos, como escrevera no ensaio “Poesia: a paixão da linguagem”: “existe toda uma certa ilusão de liberdade, de expressão, mas é preciso ver no interior de quanta escravidão se dá essa liberdade”.

Por fim, Marques encerra o primeiro capítulo com “A aventura radical de Paulo Leminski”, em que expressa mais uma vez sua visão acerca da produção do poeta em contraponto com alguns lugares-comuns na análise de sua trajetória. Assim, o autor destaca o contexto de produção de Leminski, especialmente em relação à geração da qual fazia parte (a primeira do pós-guerra), e o lugar em que viveu quase toda a sua vida (a híbrida Curitiba, grande centro de imigração e intercâmbio entre culturas). Fabrício Marques ainda divide a trajetória do poeta em duas fases: “uma focada em sua formação e definição de rumos, que vai de 1963 a 1982; e a segunda, muito breve, mas muito intensa, que compreende o período de 1983 até sua morte, em 1989”. A partir dessa cisão, o autor relata os pormenores da produção de Leminski ao longo dos anos, destacando como os opostos são essenciais na poética do “bandido que sabia latim”.

“Faces de Leminski” é o título do segundo capítulo de Aço em flor, formado por textos que revelam diferentes aspectos acerca da poética do curitibano. Na primeira parte do capítulo, “A pluralidade de mundos possíveis”, Fabrício Marques apresenta a sua estratégia para “revelar as faces” da obra do autor, que funciona como um poliedro. São anunciadas, então, as cinco dimensões articuladas com a poesia ao longo do capítulo: o haicai, a Tropicália, a publicidade, a vanguarda concretista e a semiótica. O autor evidencia, entretanto, que não há independência entre elas, mas sim uma contaminação mútua que, a partir de suas tensões, constrói a poética de Leminski.

Assim, os próximos dois textos de “Faces de Leminski” debruçam-se sobre a forma do haicai, seu potencial de significação e sua incorporação na poesia do brasileiro. Já “Convergências com Torquato Neto e a Tropicália” trata, justamente, do “Leminski-tropicalista”, da influência das vanguardas na literatura e nas artes e da relação pessoal e poética entre o curitibano e o autor de “Geleia geral”. Além disso, Marques ainda trata detidamente sobre a influência do concretismo na percepção aguçada de Leminski acerca da materialidade da língua, aspecto que dialoga com as influências da semiótica e da linguística em sua poética. Por fim, o autor demonstra como o trabalho com a publicidade impregnou-se nos versos do poeta. Assim, elementos como a concisão, o jogo de palavras, as frases de efeito e o coloquialismo, tão presentes na linguagem publicitária, são facilmente identificáveis na poesia de Leminski.

Em “Uma vivência de despaisamento”, terceiro capítulo de Aço em flor, Fabrício Marques trata da poesia de Leminski não a partir de suas influências e confluências, como feito anteriormente, mas a partir de seu projeto poético. Segundo o autor, o poeta reivindica uma arte ciente de sua condição de “inutensílio”, seu poder de oposição à lógica utilitarista do lucro que impera na sociedade moderna. Leminski é consciente, entretanto, que há uma dissonância entre o poder inerente à linguagem e à poesia de nomear as coisas e o verdadeiro poder da lógica capitalista de comandar o mundo e a vida humana. Assim, Marques relaciona a posição do poeta no trabalho de Leminski com aquela do estrangeiro, do apátrida sempre à margem da lógica social, indesejado e essencialmente diferente dos demais. A poesia é, portanto, um “in-útil indispensável”, uma atitude de resistência que se manifesta em diversos planos e resiste, por vezes, a si mesma.

Já o quarto capítulo do livro, “Do rigor para o acaso”, aborda a poética de Leminski a partir da eterna contenda entre a racionalidade e a intuição. Para Fabrício Marques, o poeta expressa uma ideia de trabalho cauteloso com a linguagem na confecção de um poema, de forma que não existe inspiração divina, mas busca, através da linguagem, pelo resultado que se deseja atingir. A poesia de Leminski, entretanto, não descarta o acaso como fonte em que ele “banha, por assim dizer, seu fazer eminentemente crítico, de samurai, em doses de inesperado, de surpresa”. Segundo Marques, essas “doses de surpresa” podem ser entrevistas pela nomeação incomum de seus poemas e pelo arquissema (“palavras favoritas” que aparecem com frequência na obra de algum autor) “acaso”. Nesse sentido, o papel do poeta para Leminski é também o de um “brincador” do acaso, aquele que combina o impulso lúdico com as regras próprias do jogo, as regras poéticas.

O quinto capítulo, como evidenciado pelo seu título, “Do acaso para o rigor”, expande as ideias anunciadas anteriormente, mas dessa vez dando mais evidência ao segundo termo, “rigor”. Segundo o autor, a forma de Leminski está extremamente ligada à concisão e, mais do que isso, expressa, através da concisão, um pensamento próprio do poema. Assim, o autor relaciona a poesia do curitibano com o termo “logopeia”. Como cunhado por Ezra Pound, “logopeia” refere-se ao “emprego das palavras não apenas por seu significado direto, mas levando em conta, de maneira especial, os hábitos de uso, do contexto que esperamos encontrar com a palavra, seus concomitantes habituais, suas aceitações conhecidas e os jogos de ironia”. Dessa forma, Marques enxerga no fazer poético de Leminski uma utilização da linguagem que considera as imagens, os sons e os contextos carregados pelas palavras como produtores de sentido. Por fim, o autor ainda destaca a postura de guerreiro assumida pelo poeta em relação à linguagem, a presença ativa da paixão de um artista capaz de transformação. O rigor poético de Leminski, “por um lado, é pensamento conciso, por outro, se constrói nos rigores de uma atitude ATIVA, portanto crítica”.

O último capítulo de Aço em flor, “Paixão do rigor, jogos do acaso”, trata do poema que dá título ao livro. Para Marques, o poema “Aço em flor” “é uma espécie de carta de intenções do poeta para dizer de sua poesia”. Analisando sua estrutura fonética, lexical e métrica, o autor reflete acerca dos jogos de sentido produzidos pelo curitibano e estende essas conclusões para o restante de sua obra. A poética de Leminski é, portanto, a do aço em flor, do momento em que a faca (o rigor) penetra na “fraca carne” (o acaso). Momento esse que, se pudermos captar, “é provável que, no corte que a faca, caprichosa, faz na flor do texto, se possa ver com quanta intensidade ali se concentrou a poesia que ama a surpresa e a precisão, proeza do poeta que transforma as palavras num misto entre o óbvio e o nunca visto”.

Nos Apêndices do livro, o leitor ainda encontra uma versão completa da entrevista com Mario Cámara publicada, em 2009, no jornal O Tempo. O ensaísta argentino trata, na conversa, acerca da sua antologia, Leminskiana, sua visão acerca dos sentidos veiculados pelos versos de Leminski, sua repercussão e seu estudo. Por fim, além das referências, o livro ainda traz uma cronologia da vida e da obra do poeta, que contextualiza e acrescenta em muito na leitura.

Para saber mais sobre o livro, visite nosso site!

Aço em flor: a poesia de Paulo Leminski

Autor: Fabrício Marques

ISBN: 9788526816350

Edição: 1ª – Revista e ampliada

Ano: 2024

Páginas: 200

Dimensões: 14 x 21 cm

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