Por Ana Alice Kohler
Foi Émile Zola, grande representante do naturalismo francês, que escreveu certa vez: “Os governos suspeitam da literatura porque é uma força que lhes escapa”. A arte da palavra, nesse sentido, ganha contornos maiores que a fruição estética geralmente associada à leitura. A literatura é, portanto, também uma expressão cultural que pode servir como resistência e ativismo, como forma de reivindicação do bem-estar social e do progresso da condição humana. Um grande exemplo dessa manifestação do literário aparece na literatura africana, ou “literaturas africanas”, como são chamadas as produções dos diversos países desse continente.
A literatura africana, ao contrário do que muitos acreditam, possui um longo e vasto passado. Desde a Antiguidade, civilizações que ocupavam o Egito e a Etiópia, por exemplo, produziam narrativas orais e escritas. Infelizmente, grande parte desse acervo cultural foi perdido com a colonização, que teve início efetivo no continente africano, no século XIX. O imperialismo europeu, nesse sentido, foi responsável por uma grande transformação na literatura africana: a imposição do sistema linguístico do outro. A divisão e a ocupação do continente ocorreram de forma artificial e arbitrária, dando início ao desmantelamento das sociedades já estabelecidas em detrimento da formação de Estados coloniais. Assim, as culturas africanas, suas línguas e suas literaturas foram suprimidas diante do colonizador.
A partir desse momento, a literatura africana, principalmente a lusófona, foi dividida em três fases: o período colonial, a pré-independência e o momento pós-independência.
Período colonial
Durante o primeiro estágio, ainda sob o domínio do colonizador, a produção cultural era voltada para os valores estéticos daqueles que exerciam o poder, os europeus. Assim, eram comuns elementos da cultura clássica europeia, o que se destaca na poesia pelo rigor formal. As temáticas próprias de cada povo africano, entretanto, faziam-se presentes nas produções, em uma disputa entre os valores dos nativos e os dos colonizadores, com predomínio para o uso da língua e do registro escrito do europeu.
Pré-independência
Já o segundo período, a pré-independência, refletiu o movimento de luta pela afirmação da identidade cultural do povo africano diante do colonizador. Isso se deu por meio da representação da realidade social com todas as suas falhas e injustiças. Além disso, iniciou-se um processo de revalorização da cultura negra, que pretendia reivindicar os elementos populares, como o folclore. Assim, a literatura africana desse período propagou o pensamento anticolonialista responsável por incentivar o povo na busca pela sua independência, agindo como “a força que escapa” aos governos, como dito por Zola.
Pós-independência
Na segunda metade do século XX, a maior parte dos países africanos viu-se livre do domínio direto das potências europeias. A partir desse momento, a literatura africana voltou-se para a cultura ancestral como guia para a sua produção, inclusive na incorporação da oralidade e dos idiomas nativos na escrita. Outras questões, como as de raça, gênero e migração, tomaram o centro do debate literário e passaram a ser abordadas a partir de novas formas, mais experimentais. É nesse período que a literatura africana começou a ser reconhecida mundialmente, e seus escritores passaram a ganhar destaque.
Em matéria de reconhecimento, alguns autores africanos destacaram-se ao longo dos anos. Wole Soyinka, por exemplo, foi o primeiro escritor da África a receber o Nobel de Literatura em 1986. Dramaturgo, poeta e ativista, sua obra mais conhecida é O leão e a joia, peça que trata dos conflitos entre tradição e modernismo. Já, no Brasil, o autor mais conhecido, atualmente, é certamente Mia Couto, moçambicano que escreveu Terra sonâmbula, romance adaptado para o cinema em 2007. Também de Moçambique, Paulina Chiziane ficou conhecida por seu romance Niketche: uma história de poligamia, que aborda a questão feminina de forma realista, mas poética. Cada dia mais, novos autores africanos ganham espaço no debate literário internacional.
No Brasil, o estudo das obras literárias africanas, entretanto, deveria ser ainda mais intenso, considerando os fortes laços históricos entre o continente e a população do país. Nesse sentido, a lei n. 10.639/03, de 9 de janeiro de 2003, foi instituída com o intuito de garantir que as histórias africana e afro-brasileira sejam parte essencial da educação básica no país. Especificamente, a lei obriga que seja aplicado, nos estabelecimentos de ensino públicos e privados, o ensino da história e da cultura afro-brasileira, principalmente em aulas de artes, literatura e história. Além disso, foi a partir dessa lei que o 20 de Novembro foi instituído como Dia da Consciência Negra nos calendários escolares.
A importância da literatura africana no Brasil, além de reconhecida pela lei, deve-se principalmente pela relação do país com a África, que se deu forçosamente com a escravização de milhões de africanos. Assim, a população afro-brasileira carrega uma herança que pode ser valorizada e redescoberta por meio da literatura. Além disso, o ambiente literário brasileiro em muito pode ganhar com o estudo dos temas, técnicas e procedimentos literários africanos, distintos dos europeus e americanos, que são normalmente tidos como modelos. A leitura de obras de autores africanos, portanto, é mais do que essencial.
Pensando nisso, a Editora da Unicamp recomenda nove livros essenciais para quem busca aprofundar-se no assunto. Todas as obras tratam de questões da cultura africana e estão disponíveis em nosso catálogo. Conheça-as!
Organizado por Lucilene Reginaldo e Roquinaldo Ferreira, África, margens e oceanos faz parte de uma crescente produção africanista brasileira e é voltado para a “história social e o protagonismo de atores africanos”. A obra, que compõe a Coleção Várias Histórias da Editora da Unicamp, trata, portanto, não apenas da história africana, mas também de sua historiografia, aquela produzida no Brasil e também em outros centros de pesquisa do mundo.
Lucilene Reginaldo é professora no Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas, onde leciona na área de Estudos Africanos, e é especialista em Teoria e Metodologia da História, História da Bahia e História de Angola e do Congo, século XVIII. Já Roquinaldo Ferreira é professor na Universidade da Pensilvânia e especialista em História do Tráfico Atlântico e na relação Angola-Brasil. Já lecionou na Universidade da Virgínia e na Universidade Brown, tendo sido o primeiro brasileiro negro a ocupar uma cadeira de professor na Ivy League.
África, margens e oceanos trata ainda dos horizontes a serem expandidos no estudo africanista, “notadamente as conexões do Índico com a África, as Américas e a Ásia”. Nesse sentido, apresenta um panorama geral do tema, mas também convida o leitor a buscar novas perspectivas. Por fim, a obra ainda trata da questão do ensino da história africana no Brasil, sua relação com a academia e com as políticas públicas de combate ao racismo.
Breve dicionário das literaturas africanas, organizado por Fernanda Gallo, apresenta ao leitor 19 verbetes escritos por especialistas da história, da antropologia e da própria literatura. A obra propõe, nesse sentido, esclarecer questões e ideias comuns no estudo da africanidade, que não para de crescer no Brasil e no mundo.
Fernanda Gallo é mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia e doutora em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas, onde atua como pesquisadora no pós-doutorado em Teoria e História Literária.
Na Apresentação do livro, Fernanda Gallo evidencia a relevância atual da literatura africana no cenário mundial, revelada pelas premiações que vem conquistando nos últimos anos, como o Nobel de Literatura de Abdulrazak Gurnah e o Prêmio Camões de Paulina Chiziane. Nesse sentido, a obra permite ao leitor entrar em contato com os principais temas dessa área tão importante para a literatura contemporânea.
Literaturas africanas comparadas – Paradigmas críticos e representações em contraponto, de Elena Brugioni, realiza um percurso teórico em torno dos “paradigmas críticos e dos repertórios bibliográficos que pautam os estudos pós-coloniais”. O livro, que é dividido em duas partes, reúne textos que são resultados de extensas pesquisas da autora ao longo do andamento do projeto “A estética do Índico: ‘Geografias transnacionais do imaginário’ em narrativas visuais e literárias na(s) África(s) contemporânea(s)” e de seu pós-doutorado.
Elena Brugioni leciona na área de Literatura Comparada (Literaturas Africanas e Teoria Pós-Colonial) no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas e é cocoordenadora do Kaliban – Centro de Pesquisa em Estudos Pós-Coloniais e Literatura Mundial (CNPq) da Unicamp. Seus interesses de pesquisa permeiam as “cartografias literárias e os paradigmas críticos do estudo das literaturas africanas contemporâneas e das narrativas visuais em perspetiva pós-colonial comparada”.
Em Literaturas africanas comparadas, a autora traz reflexões desenvolvidas ao longo de seus anos como pesquisadora pela necessidade de sistematizar o conhecimento para que ele seja trabalhado em sala de aula. A obra, portanto, também almeja tornar acessível, principalmente aos estudantes, um suporte didático para os estudos na área da Literatura Africana Comparada.
A luta da África por sua arte – História de um malogro pós-colonial, de Bénédicte Savoy, foi traduzido para o português por Felipe Vale da Silva e faz parte da Coleção Espaços da Memória da Editora da Unicamp. A obra trata de uma história esquecida da geopolítica mundial: a luta pela devolução da arte africana a seu continente. A temática, que parece nova, teve seu auge nas décadas de 1970 e 1980, em que a sociedade, com o apoio de instâncias midiáticas e políticas africanas e europeias, reivindicou uma restituição ordenada e justa do material cultural que havia sido surrupiado do continente africano durante a colonização.
A autora do livro, Bénédicte Savoy, é professora de História da Arte na Universidade Técnica de Berlim e especialista no estudo da proveniência de arte e arte saqueada. Já lecionou na Collège de France e coproduziu, em 2018, um importante relatório acerca da restituição do patrimônio cultural africano a pedido da Presidência da República Francesa.
Em A luta da África por sua arte, Savoy trata dos acontecimentos mais relevantes do debate a partir de documentos que contam a história de uma reivindicação que não obteve resultados. A obra evidencia ainda o malogro que é compartilhado pelos dois lados da disputa, já que a recusa de devolução ficará para sempre marcada na história da civilização europeia.
Legados: a Coleção de Arte Africana Cerqueira Leite, organizado por Lisy-Marta Heloísa Leuba Salum e Renato Araújo da Silva, reflete sobre a arte africana de suportes variados a partir de “aspectos culturais, sociais, históricos, geográficos e linguísticos das sociedades e dos grupos estudados”, de forma a questionar a universalização do modelo europeu de arte.
Lisy-Marta Heloísa Leuba Salum é graduada em Educação Artística pela Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), fez mestrado e doutorado em Antropologia Social na Universidade de São Paulo e é docente da área de Etnologia Africana no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. Já Renato Araújo da Silva é pesquisador da Associação Museu Afro Brasil, e seus estudos dão ênfase às joias africanas e afro-brasileiras, além da filosofia antiga.
Em Legados, os autores não se limitam apenas a uma descrição do acervo destacado pelo título, mas aprofundam-se em questões relacionadas à concepção de arte para as civilizações africanas, especialmente em relação ao imbricamento entre arte e vida. Nesse sentido, a obra pode oferecer ao leitor uma mudança de perspectivas transformadora.
Organizado por Charlotte Galves, Helder Garmes e Fernando Rosa Ribeiro, África-Brasil: caminhos da língua portuguesa traz textos de conferências e de mesas-redondas que se deram em novembro de 2006, no colóquio Caminhos da Língua Portuguesa: África-Brasil, por ocasião dos 40 anos da Universidade Estadual de Campinas. Durante o evento, foram abordadas diversas temáticas que originaram o livro, como o processo de apropriação da língua portuguesa pelos colonizados ao longo dos séculos, o papel da literatura africana lusófona para as identidades nacionais pós-coloniais e a influência mútua entre os idiomas africanos e o português.
Charlotte Galves graduou-se em Letras Clássicas pela Sorbonne e especializou-se, ainda na França, em Língua Portuguesa. Já, no Brasil, foi diretora do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp entre 2003 e 2007. Helder Garmes possui graduação e mestrado pela Unicamp e doutorado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo, onde é livre-docente atualmente. Fernando Rosa Ribeiro é formado em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília, mestre em Antropologia pela mesma instituição e doutor pela Universidade de Utrecht nos Países Baixos. Atualmente, é professor adjunto de Estudos Africanos no Departamento de História da Unicamp.
África-Brasil: caminhos da língua portuguesa apresenta um panorama diverso e interdisciplinar acerca das relações entre a língua portuguesa e os povos e espaços em que penetrou e pelos quais foi penetrada, e em muito contribui para os estudos das línguas e das literaturas africanas.
Cafundó: a África no Brasil trata de uma comunidade rural negra situada nas proximidades de São Paulo que conserva, desde os tempos da escravidão, uma “língua secreta”. A sobrevivência do agrupamento só é possível, nesse sentido, por meio da utilização dessa língua de léxico banto, estruturalizante da pequena sociedade. O livro é resultado dos estudos de Carlos Vogt e Peter Fry acerca do Cafundó e explora o poder da linguagem nessas condições.
Carlos Vogt é formado em Letras pela Universidade de São Paulo, linguista e poeta. Em 1986, foi nomeado como professor titular de semântica argumentativa na Unicamp, da qual chegou a ser reitor entre 1990 e 1994. Já Peter Fry é um antropólogo nascido na Inglaterra e naturalizado no Brasil, onde lecionou na Unicamp e tornou-se professor no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Desenvolve pesquisas acerca da política e religião africanas, relações raciais, línguas africanas no Brasil, entre outros temas.
Cafundó: a África no Brasil trata de um “Cafundó” muito diferente daquele definido pelo dicionário: “lugar ermo e afastado, de difícil acesso, um fim de mundo”. A obra explora, pelo contrário, a forma de sobrevivência de uma língua e, por consequência, de uma sociedade diante das tentativas de sua aniquilação.
O livro Da África para o Atlântico, de Mikael Parkvall, trata da influência dos africanismos nas línguas crioulas do Atlântico. Tomando como referência mais de 150 línguas e famílias linguísticas africanas, a obra pretende confirmar os achados estruturais da influência africana no crioulo atlântico pela análise histórica dos contatos entre as culturas em jogo.
Mikael Parkvall é um linguista sueco internacionalmente conhecido por suas posições sobre os conceitos de crioulo e semicrioulo. Ele é professor do Departamento de Linguística da Universidade de Estocolmo e sua pesquisa trata principalmente da análise estrutural da língua crioula.
Da África para o Atlântico é referência nos estudos do crioulo, apresenta perspectivas sólidas e pontos-chave para a compreensão acerca do contato linguístico e em muito contribui para o aprofundamento dos debates acerca da literatura africana.
Antologia lírica angolana: roteiro mínimo, organizado por Francisco Soares, sendo o primeiro livro desse organizador publicado no Brasil, destina-se àqueles que desejam ter um primeiro contato com a poesia angolana. A obra reúne e organiza o trabalho de escritores representativos da produção poética de Angola, oferecendo um panorama geral de cada época e autor até 1975.
Francisco Manuel Antunes Soares já foi professor de Teoria Literária em diversas universidades de Angola, do Brasil e de Portugal, tendo como principal tema de sua pesquisa as literaturas lusófonas dos três países. É, atualmente, professor de Literatura Angolana e de Teoria Crítica da Literatura na Universidade Metodista de Angola.
Antologia lírica angolana é essencial para quem deseja entrar em contato direto com a literatura africana de língua portuguesa, representada, no volume, pela poesia. Além da produção poética em si, o livro também oferece um estudo acerca do sistema literário angolano, por meio de contextualizações e explicações fundamentais para a compreensão completa da poesia reunida.
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Cada um dos livros apresentados traz uma perspectiva acerca da literatura africana e auxilia na compreensão do tema de forma diversa. Assim, o estudo acerca da cultura africana pode ser desenvolvido em diferentes áreas do conhecimento, que se complementam mutuamente. A Antropologia, por exemplo, é central para o entendimento das culturas, e a Editora da Unicamp possui um vasto catálogo de livros da área. Para saber mais, acesse nosso site e confira!