Uma linguística aplicada indisciplinar na prática

Por Maria Vitória Gomes Cardoso

Em 2024 completa 18 anos desde que a obra Por uma linguística aplicada indisciplinar, do renomado linguista brasileiro Luiz Paulo da Moita Lopes, foi publicada pela primeira vez. Procurando desenvolver um trabalho acadêmico mais socialmente responsável e responsivo, ideológico e interdisciplinar, o pesquisador é um dos nomes ligados à história da Linguística Aplicada no Brasil e seus trabalhos revolucionaram a área. Por conta disso o livro Oficina de linguística aplicada indisciplinar  foi pensado, desenvolvido e publicado.

Os organizadores do livro, Branca Falabella Fabrício e Rodrigo Borba, também foram responsáveis pela organização do primeiro volume inaugural da Revista Indisciplina em Linguística Aplicada – Rila, o periódico do Pipgla, material que foi uma primeira homenagem ao pesquisador Luiz Paulo da Moita Lopes. Em Oficina de linguística aplicada indisciplinar, Fabrício e Borba reuniram investigações de ex-orientandos(as) a fim de elaborar um material que possibilitasse uma visão panorâmica das obras e do percurso intelectual de Moita Lopes. Branca Falabella Fabrício é professora associada do Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UFRJ com Doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Rodrigo Borba é professor e atual coordenador do Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde orienta pesquisas de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado. 

Oficina de linguística aplicada indisciplinar agrupa um rico e diversificado conjunto de pesquisadores que trabalham com tradições de pesquisa bastante heterogêneas, como estudos semiótico, sociolinguística, estudos narrativos, hipermidialidade, dialogismo bakhtiniano e estudos discursivos. Além dos organizadores do livro, que escreveram a Apresentação e a Introdução, temos também Pedro de Moraes Garcez, que assinou o Prefácio, Branca Telles Ribeiro, que escreveu o Posfácio, e Beth Brait, autora dos livros Bakhtin, dialogismo e construção do sentido e Ironia em perspectiva polifônica, que fez a Nota prévia da obra. Além disso, o título também é composto por artigos de grandes pesquisadores de diferentes áreas: Alastair Pennycook, Ben Rampton, Célia M. Magalhães, Inês Signorini, Fabiana Biondo, José Luiz Fiorin, Kanavillil Rajagopalan, Liliana Cabral Bastos, Maria Eugênia Lammoglia Duarte, Marilda C. Cavalcanti, Ana Cecília Cossi Bizon e Roxane Rojo. Ao todo, além de Nota prévia, Apresentação, Prefácio, Introdução e Posfácio, o livro conta com dez excelentes artigos científicos.

Na obra, há também uma excelente contextualização de Beth Brait sobre a história da Linguística Aplicada, que se iniciou nos Estados Unidos, nos anos 1940, e surgiu no Brasil, na década de 1960. Através dessa breve contextualização, dos outros textos introdutórios e dos artigos que trazem pontos mais específicos e extremamente interessantes, o leitor é capaz de entender a área como uma que se volta para as questões da linguagem, de qualquer natureza, nas práticas sociais. 

Sobre a relevância de Moita Lopes para a área, Kanavillil Rajagopalan ressalta em seu capítulo “A disciplina chamada Linguística Aplicada e as contribuições de Luiz Paulo da Moita Lopes”: 

Acredito que, no cenário da Linguística Aplicada, o professor e pesquisador Luiz Paulo da Moita Lopes teve, ao longo de todos estes anos, um papel de suma importância, tanto no desenvolvimento do campo quanto no seu reconhecimento enquanto uma área de investigação muito relevante para o país, assim como, no meu modo de entender, um papel de grande destaque na empreitada de dar-lhe uma orientação fortemente crítica no sentido mais autêntico desse termo.

A Nota prévia de Beth Brait também ressalta o propósito central da Linguística Aplicada, que, parafraseando Moita Lopes, é “a problematização da vida social, na intenção de compreender as práticas sociais nas quais a linguagem tem papel crucial, de forma híbrida, ética e responsiva”. Essa abordagem é claramente evidente nas investigações presentes na obra, que exploram uma série de temas relevantes, tais como a imigração haitiana, a necropolítica persistente nas favelas, a construção da identidade em livros ilustrados brasileiros, a (des)construção de categorias identitárias das mulheres na internet e outros assuntos que têm uma relação vital com a linguagem.

No capítulo “(Des)construções das categorias identitárias mulher ‘de verdade’ e mulher feminista em página do Instagram”, por exemplo, Inês Signorini e Fabiana Biondo verificam, em discussões da página Quebrando o Tabu, do Instagram, como e por que as categorias identitárias mulher “de verdade” e mulher feminista são ressignificadas pelos participantes em suas interações assíncronas como categorias que se excluem, isto é, mulher “de verdade” não seria uma categoria compatível com a de mulher feminista, e vice-versa. Essa pesquisa é exemplar de uma linguística aplicada indisciplinar, que está voltada para as práticas sociais, para a relevância social da temática e para a relação com a linguagem. Trata-se de uma área crítica e transgressiva e isso é observado em artigos como esse de Signorini e Biondo. 

Oficina de linguística aplicada indisciplinar é, portanto, uma obra extremamente importante para a área, que dá continuidade à Linguística Aplicada que Moita Lopes defende. Trata-se de uma homenagem muito bem-feita ao pesquisador e é um material fundamental para todos aqueles que já estudam ou que estão sendo introduzidos a uma linguística aplicada indisciplinar.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Oficina de linguística aplicada indisciplinar

Organização: Branca Falabella Fabrício, Rodrigo Borba

ISBN: 9788526816152

Edição: 1a

Ano: 2023

Páginas: 336

Dimensões: 16 x 23 cm

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