Por Maria Vitória Gomes Cardoso
Entretanto, como uma matéria de história, a filosofia precisa sempre ser interessante. Ela é a melhor representante do desenvolvimento mental de cada época. Até mesmo quanto à nossa época é assim, se pensarmos o que realmente é nossa filosofia.
É assim que Charles Sanders Peirce define a filosofia em uma resenha que escreveu em 1871 sobre George Berkeley. Percebe-se a importância que Peirce emprega à filosofia e ao seu estudo, sendo ela a principal representante dos pensamentos de uma determinada sociedade, segundo o autor. Escritos da Série Cognitiva, publicado pela Editora da Unicamp em parceria com a Editora da Universidade Federal de Uberlândia, reúne alguns artigos de Peirce que ele escreveu ainda jovem, com menos de 30 anos, mas que já mostram grandes preocupações filosóficas do autor. Nesses textos estão presentes a gênese de temas centrais da filosofia de Peirce e eles foram reunidos a partir do rótulo de Série Cognitiva, pois há neles uma devoção ao estudo dos tipos de raciocínio. O livro foi publicado em versão bilíngue; portanto, traz tanto a redação original como a tradução feita por Cassiano Terra Rodrigues.
Charles Sanders Peirce (1839-1914) foi um filósofo, linguista e matemático estadunidense. Seus trabalhos apresentam importantes contribuições à lógica, à matemática, à filosofia e, principalmente, à semiótica. O filósofo licenciou-se em ciências e doutorou-se em química em Harvard. Nessa mesma universidade e na Universidade Johns Hopkins, ensinou filosofia. Foi o fundador do pragmatismo e da ciência dos signos, a semiótica. Por conta da grande relevância que o estudioso teve em diversos campos de pesquisa, surgiu a necessidade de existir uma obra que organizasse, em língua portuguesa, alguns de seus primeiros escritos. Escritos da Série Cognitiva vem, portanto, para romper essa lacuna, sendo uma obra bastante completa e muito bem organizada.
O livro contém, primeiramente, um excelente Prefácio escrito por Lucia Santaella, que é uma das principais divulgadoras da semiótica e do pensamento de Charles Peirce no Brasil, tendo mais de 40 livros publicados. Logo após há, além dos Agradecimentos, uma Introdução e Nota da edição, escritas pelo tradutor da obra, Cassiano Terra Rodrigues, que é pesquisador colaborador do Centro de Estudos de Pragmatismo da PUC-SP, do GT Semiótica e Pragmatismo da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof) e da Rede Brasileira de Pesquisa em Semiótica Peirciana. Além disso, o tradutor também é sócio-fundador da Sociedade Latino-Americana Peirce. A grandiosidade de seu currículo mostra-se presente em Escritos da Série Cognitiva, pois o pesquisador, além de introduzir e traduzir os seis artigos de Peirce, também escreve um Ensaio de leitura excelente no final da obra, que auxilia bastante no entendimento dos textos do autor estadunidense, além das esclarecedoras Notas da tradução, que está logo após a Bibliografia.
Os seis escritos de Peirce, reunidos no livro, são muito interessantes e o próprio autor tinha consciência da importância dessa Série Cognitiva, como ficou conhecida. São textos que estão inter-relacionados e que trazem as principais teses do autor. O primeiro escrito desse volume recebeu o título de “Sobre uma nova lista de categorias” e foi publicado em 1867. Os três escritos seguintes foram publicados em 1868 e 1869, registrados e pensados como partes de um conjunto só. O quinto texto dessa coletânea é a famosa resenha das Obras de Berkeley, reeditadas em 1871. Já o sexto e último texto incluído foi escrito em 1877, é inédito em língua portuguesa e contém apenas três páginas porque se trata de um manuscrito provavelmente planejado para apresentação oral.
Um dos aspectos mais interessantes da obra de Peirce é quando, por exemplo, ele comenta, no quinto escrito dessa edição, sobre a autoconsciência e como ela se dá na infância. Para o autor, a autoconsciência é o conhecimento que temos de nós mesmos, assim, para uma criança, somente o que ela enxerga, toca e ouve existe efetivamente, pois este é todo o conhecimento que ela tem de si mesma. Conforme vai crescendo, contudo, ela começa a descobrir que também pode adquirir conhecimento através das pessoas a sua volta. Então, por exemplo, se antes ela só iria descobrir que fogo queima se o tocasse, à medida que cresce, se um adulto diz que está muito quente, ela saberá que não deve tocar, pois irá se queimar se o fizer.
Outro ponto interessante da filosofia do autor está presente no seu segundo escrito, intitulado “Questões concernentes a certas faculdades reivindicadas para o homem”. Nesse artigo, o filósofo chegou a quatro conclusões intrigantes. A primeira é a de que não possuímos nenhum poder de introspecção, pois todo conhecimento interno que temos surgiu de algum fato externo; a segunda é a de que não temos nenhum poder de intuição e por isso toda cognição é determinada por cognições prévias; a terceira é a de que é impossível pensar sem signos, ou seja, todo pensamento tem de ser interpretado em outro, tudo sobre o quanto refletimos tem passado; e a última conclusão é a de que não temos nenhuma concepção do absolutamente incognoscível, ou seja, daquilo que não podemos conhecer.
Confere-se, portanto, que se trata de um livro com questões muito interessantes e importantes do campo da filosofia, que até esse momento era de difícil acesso no Brasil. Essa edição, além dos textos de Peirce em versão bilíngue, traz notas de rodapé, textos auxiliares e notas de tradução que contribuem ainda mais para o entendimento desse material tão importante para os estudos filosóficos.
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Autor: Charles Sanders Peirce
ISBN: 9788526816107
Edição: 1a
Ano: 2024
Páginas: 480
Dimensões: 15 x 21 cm