
Por Maria Vitória Gomes Cardoso
O cinema já está presente na sociedade há um tempo relativamente longo, visto que, em 1895, os irmãos Louis e Auguste Lumière projetaram um filme, pela primeira vez, em um café em Paris. Desde essa época, o cinema ganhou força ao redor do mundo e tornou-se uma das principais atividades de lazer da sociedade urbana. Entretanto, para o cinema ser considerado uma forma significativa de arte e comunicação, demorou algum tempo e exigiu esforços de estudiosos da área. Até hoje, vários estudos de diferentes áreas acadêmicas são publicados a fim de investigar melhor o cinema e o audiovisual, em geral.
Roger Odin é um dos estudiosos contemporâneos que se dedicam a estudar essa arte e, sendo linguista de formação, ele faz isso a partir da semiopragmática. Em seu livro, Os espaços de comunicação: introdução à semiopragmática, ele busca desenvolver o conceito de espaços de comunicação por meio de exemplos de produções de textos, filmes e documentos audiovisuais ou visuais, em contextos extremamente diversos. A obra foi traduzida por Marcius Freire e publicada pela Editora da Unicamp a partir da obra original Espaces de communication: introdutivo à la sémio-pragmatique. Roger Odin é professor emérito de Ciências da Comunicação na Universidade de Paris 3, Sorbonne Nouvelle, onde dirigiu o Instituto de Pesquisa em Cinema e Audiovisual de 1983 a 2003 e criou a revista Théorème.
A obra Os espaços de comunicação: introdução à semiopragmática estrutura-se em seis capítulos, fora a Introdução e a Conclusão. Na Introdução, Odin comenta sobre a dificuldade dos teóricos em se situar perante as áreas da imanência e da pragmática e, a partir desse ponto, ele ressalta a necessidade de uma articulação entre essas duas abordagens, por meio da semiopragmática. No capítulo 1, o enfoque é mais direcionado para a noção de espaços de comunicação e o papel da língua neles. A partir do capítulo 2, o autor traz inúmeros exemplos didáticos por meio de obras cinematográficas e, nesse capítulo, discorre sobre a competência comunicacional discursiva. No capítulo 3, o pesquisador analisa os valores artísticos e estéticos e a relação deles com os espaços de comunicação. Já, nos capítulos 4 e 5, ele mostra como a noção de espaço de comunicação pode permitir uma análise contextual a partir do exemplo da memória familiar e dos filmes amadores feitos em família como registro pessoal. No capítulo 5 ainda, o autor também mobiliza o conceito de espaço de comunicação para evidenciar o que acontece quando uma obra migra de seu espaço de produção original para um outro. Por fim, no capítulo 6, é questionada a diferença entre a análise textual tradicional (imanentista) e a análise textual na perspectiva da semiopragmática. “A análise em termos de espaço da comunicação enriquece o modelo semiopragmático tal como ele foi proposto até aqui: comunicar significa produzir sentido, afetos, relações e, mais amplamente, efeitos.”
Segundo Odin, teóricos que estudam a linguagem e a comunicação buscam se situar em relação a dois grandes paradigmas: o imanentista e o pragmático. O primeiro paradigma considera o texto como um material que possui características estruturais e um sentido intrínseco a ele, e não há, nessa abordagem, referências àquilo que lhe é exterior. Já o segundo considera que o texto só possui sentido a partir de seu contexto, seja seu contexto de produção, seja o de recepção. A semiopragmática, por outro lado, vem como uma articulação entre esses dois paradigmas ao não invalidar a abordagem imanentista e reconhecer suas contribuições para a área, inserindo-a em na perspectiva pragmática contextual.
Em 2012, Roger Odin veio para o Brasil e ministrou a palestra “Por que a semiopragmática? Uma introdução” na Unicamp. Na época, o autor veio a convite do Centro de Pesquisa de Cinema Documentário (Cepecidoc), do Programa de Pós-Graduação em Multimeios do Instituto de Artes (IA), já que seu campo de pesquisa se desenvolve a partir da semiopragmática do cinema e do audiovisual, bem como do estudo do cinema e do vídeo amador. Na obra traduzida e publicada pela Editora da Unicamp 11 anos depois, o leitor conseguirá aprofundar os assuntos abordados por Odin em suas palestras, pois ele aborda a relação dos espaços de comunicação no cinema, assim como os vídeos amadores que são feitos com o objetivo de gravar momentos em família, no âmbito da arte.
Nesse livro, é possível observar, portanto, o trabalho de Odin com o estudo do cinema e do audiovisual, a partir de sua primeira formação, a linguística. Nos capítulos finais do livro, isso se mostra mais evidente, já que são neles que o autor trabalha o espaço da comunicação na memória familiar, analisando filmes caseiros feitos por membros da família. No penúltimo capítulo, ainda, ele evidencia as modificações que acontecem quando uma produção migra para fora de seu contexto original, a partir da noção de espaços de comunicação. Aqui o autor ainda faz uso do exemplo do filme de família, já que este por vezes migra para outro contexto de comunicação por seu valor documental.
Os espaços de comunicação: introdução à semiopragmática, portanto, mostra-se indispensável tanto para os estudiosos da linguagem que procuram compreender melhor a área da semiopragmática, quanto para os do campo do cinema e do audiovisual, já que estes são os principais objetos de pesquisa do autor e é a partir deles que a obra exemplifica a questão dos espaços de comunicação na semiopragmática.
Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Os espaços de comunicação: introdução à semiopragmática
Autor: Roger Odin
ISBN: 9788526816022
Edição: 1a
Ano: 2023
Páginas: 192
Dimensões: 14 x 21 cm