Editora da Unicamp lança livro de divulgação científica

Obra mistura ciência com arte e cultura pop

Por Ana Carolina Pereira

Tubo de ensaios: uma mistura de ciência, arte e cultura popreúne artigos escritos pelo acadêmico brasileiro Daniel Martins de Barros, publicados na revista Galileu entre os anos de 2017 e 2019. Para a edição em formato de livro, o autor revisitou seus textos e incrementou-os pensando nos importantes acontecimentos recentes, como a pandemia da covid-19, a ascensão da ultradireita na política mundial e a Guerra da Ucrânia. A obra faz parte da coleção Meio de Cultura, que tem como objetivo discutir assuntos científicos a partir de uma linguagem acessível a todos.

Editora da Unicamp: Quais os principais desafios para a produção de um texto de divulgação científica?

Daniel Martins de Barros: A divulgação científica é tanto desafiadora como recompensadora. O desafio é traduzir a linguagem da ciência – que é extremamente técnica, recheada de jargões e marcada por um tipo raciocínio muito específico e rigoroso – para a linguagem comum do dia a dia, que é imprecisa, nada rigorosa e aberta a muitas interpretações. Além disso, é importante que, feita essa tradução, o leitor leigo compreenda a relevância daquele tema para sua vida prática, caso contrário pode até compreender, mas tem grande chance de não se interessar. A recompensa, por outro lado, é proporcional ao tamanho do desafio: quando uma pessoa que não é da área científica compreende um conceito, capta uma ideia, esse momento pode ser transformador para sua vida, mudando para sempre sua visão de mundo. Acredito que esse seja o sonho de todo autor nessa área.

Editora da Unicamp: Durante a organização dos textos para esse livro, como se deu o processo de revisitação dos artigos já publicados na revista Galileu e quais os critérios adotados para atualizá-los?

Daniel Martins de Barros: Voltar aos artigos escritos entre 3 e 5 anos atrás foi uma experiência muito interessante, porque, ao mesmo tempo em que parecia uma viagem ao passado, tinha impressão de que os artigos poderiam ter sido produzidos naquele mesmo dia – e que provavelmente ainda seriam relevantes por muitos anos. Há textos tratando de fake news, de hesitação vacinal, estresse no trabalho, vieses ideológicos – tudo isso escrito antes da pandemia. Atualizá-los foi um processo natural. Por exemplo: havia artigos que mereciam ser aprofundados em alguns pontos importantes, mas o tamanho original do texto na revista Galileu não permitia; nesses casos era evidente o caminho a seguir. Outros tocavam em temas que posteriormente se tornaram ainda mais relevantes – caso das vacinas, pós-verdade, polarização –, quando me pareceu bom fazer a ponte entre o texto original e o que vimos acontecer na sociedade.

Editora da Unicamp: Por que associar o conhecimento científico a elementos culturais e artísticos?

Daniel Martins de Barros: O uso das analogias e ilustrações a partir da arte e do universo pop ajuda a cumprir os dois grandes desafios da divulgação científica: explicar o conteúdo e mostrar a sua relevância. Quando traço o paralelo entre o comportamento dos pombos nos experimentos do psicólogo B. F. Skinner e o da personagem Marge Simpson diante de um caça-níqueis, fica fácil para o leitor compreender os mecanismos comportamentais e sua relevância para nosso dia a dia. Lembrar ao leitor os personagens da animação Divertidamente é uma forma perfeita de ilustrar algumas das emoções que sentimos e como elas influenciam nossas decisões. Esse jogo torna o texto mais agradável, interessante e, ao mesmo tempo, mais didático.

Editora da Unicamp: Em uma era de desinformação e de questionamento da ciência, de quais formas seu livro contribui para o desenvolvimento de um pensamento crítico?

Daniel Martins de Barros: Ao longo da minha jornada, fui aprendendo com outros divulgadores de ciência e com pesquisadores sobre o tema que não bastava divulgar resultados de pesquisas. É importante mostrar para as pessoas como o conhecimento científico é construído, qual o papel dos cientistas, a maneira pela qual ela se constituiu como a melhor ferramenta disponível para compensarmos os vieses e as limitações cognitivas que naturalmente apresentamos. Há textos tratando explicitamente de métodos científicos, como é importante duvidar de nossas hipóteses e tentar derrubá-las. E há textos mostrando caminhos para estabelecer pontes de diálogo entre pessoas que pensam de forma diferente, o que, nesse contexto, também é cada vez mais necessário.

Sobre a coleção Meio de Cultura, conversamos com Marcelo Knobel, coordenador da coleção.

Editora da Unicamp: Em 15 anos a coleção Meio de Cultura publicou quase 20 títulos e este (assim como o que o antecedeu, Um sabiá sujo) é apenas o quarto de um autor brasileiro. Isso significa uma mudança no rumo da coleção?

Marcelo Knobel: Desde o início da coleção, buscamos autores fora do eixo anglo-saxão, que tragam textos importantes e interessantes de divulgação científica para um público amplo. Publicamos diversos autores argentinos, mexicanos, italianos, e queremos sem dúvida ampliar a publicação de autores e autoras brasileiros em breve.

Editora da Unicamp: Anos atrás, revistas como Superinteressante, Globo Ciência ou a própria Galileu eram os meios de adquirir conhecimentos científicos por parte da população não familiarizada com o assunto. Na sua opinião, essas publicações eram mais confiáveis do que os inúmeros sites existentes hoje, que falam de tudo um pouco?

Marcelo Knobel: Existem diversas maneiras de fazer divulgação científica, e o livro é um meio interessante que permite um aprofundamento maior nos temas tratados. Isso não significa que não existam livros de pseudociências, pelo contrário… As possibilidades abertas pela internet são infinitas, mas também, naturalmente, ampliam-se as possibilidades de sites mal-intencionados ou negacionistas, por exemplo. O importante, na minha opinião, é ter sempre uma leitura crítica sobre o que está sendo divulgado, para poder avaliar o que tem algum fundamento ou não.

Tubo de ensaios: uma mistura de ciência, arte e cultura pop

Autor: Daniel Martins de Barros

ISBN: 978-85-268-1595-7

Edição: 1a

Ano: 2023

Páginas: 168

Dimensões: 14 x 21 cm

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