A dádiva do saber: por uma popularização do conhecimento científico

Por Gabriel de Lima

Desde os tempos imemoriais, o ser humano questiona-se sobre sua própria existência e sua condição no planeta Terra. A curiosidade humana impulsiona a busca por diversos saberes e incrementa a produção de pesquisas voltadas à divulgação científica, permitindo até a associação de informações técnicas a elementos culturais popularizados em uma determinada época e lugar. Nesse sentido, por que não escolher, por exemplo, um episódio de “Os Simpsons” para falar sobre o processo de gamificação das ações humanas – que “utiliza deliberadamente a lógica dos jogos para estimular as pessoas” –, sobretudo no século vigente? Por que não relacionar a desinformação provinda de fakes news à psicologia humana que tem “o medo [como] a mais lucrativa das emoções”, além de resvalar na questão da cobertura vacinal no Brasil?

A possiblidade de falar acerca de tudo, estando sempre respaldado por ótimas referências bibliográficas, é a força motriz daquele que se incumbe de popularizar o conhecimento científico. A partir dessa proposição, o acadêmico brasileiro Daniel Martins de Barros reuniu alguns de seus textos publicados na revista Galileu, entre os anos de 2017 e 2019, no livro Tubo de ensaios: uma mistura de ciência, arte e cultura pop, lançamento da Editora da Unicamp. Sendo breves em extensão, os artigos foram relidos pelo autor e incrementados a partir de questões que surgiram nestes últimos quatros anos – como a pandemia de covid-19, a ascensão da ultradireita na política mundial e a guerra entre Rússia e Ucrânia.

A obra faz parte da coleção Meio de Cultura, que é coordenada pelo pesquisador Marcelo Knobel e que “traz textos que, em linguagem acessível a todos, apresentam os caminhos e descaminhos da ciência e da tecnologia”. Entretanto, os textos ensaísticos de Barros possuem algumas particularidades próprias do meio no qual foram publicados originalmente: a revista impressa. O autor, como evidencia no próprio título do livro, não se restringiu aos conteúdos puramente científicos, mas teve autonomia para “misturar artistas, cientistas e universo pop dessa forma [o que] só seria mesmo possível numa revista”.

A impressão inicial de uma liberdade temática, que poderia guiar todos os capítulos do livro, mostra ser, na verdade, uma sequência de associações racionais feitas pelo autor e que sempre são respaldadas pelo discurso científico – que é invocado pela citação de dados e fontes confiáveis no decorrer dos textos e na seção “Referências”. Mesmo abordando assuntos diversos, os 30 ensaios contidos no volume possuem algumas similaridades, como seu formato e seus possíveis receptores – um público leitor abrangente formado tanto por especialistas quanto por leigos. Com isso, a instigante escrita de Barros pretende desvendar alguns dos principais “enigmas e polêmicas da ciência e da tecnologia na sociedade”, tendo a preocupação constante de manter uma linguagem clara e compreensível.

Assinando também a “Apresentação” do livro, na qual relata brevemente sua trajetória de propagador dos saberes científicos, Daniel Martins de Barros arremata esse texto inicial com a declaração de existir uma “beleza de tornar esse conhecimento possível para todos”. Outrossim, na seção “Complementando”, localizada no final de cada capítulo, o autor produziu “textos inéditos aprofundando, expandindo e atualizando os textos originais” que, pelo tempo transcorrido da publicação original, precisaram receber alguns retoques, em face da visão de que a ciência é um organismo vivo e está em constantes transformações.

Tendo sua formação acadêmica se dado na Universidade de São Paulo (USP), Daniel Martins de Barros tem doutorado em Ciências e bacharelado em Filosofia, e é coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense (Nufor) da Faculdade de Medicina da USP. O encanto pela ciência, segundo Barros, é uma paixão nutrida desde a infância, primeiro como leitor de revistas científicas e, posteriormente, como correspondente dessas publicações. Isso se evidencia em Tubo de ensaios: uma mistura de ciência, arte e cultura pop, haja vista a preocupação do autor com o fato de que seu raciocínio, desenvolvido no decorrer dos capítulos, “não é só uma especulação – é um fato cientificamente comprovado”, inclusive pelas referências citadas no livro.

Entre afirmações e passagens elucidativas – normalmente, de dados científicos –, a obra de Barros, assim como toda “a coleção Meio de Cultura, procura despertar o encanto pelo conhecimento, pela curiosidade, pela beleza e pelos mistérios do universo e da humanidade”. Os ensaios, em sua maioria, resvalam na relação do ser humano com o mundo e consigo próprio, mesmo abordando assuntos variados e que não estão diretamente envolvidos com esse tópico. Ademais, o autor invoca alguns termos técnicos – alguns, inclusive, constam nos títulos dos capítulos – que são debatidos e esclarecidos de forma inteligível, como o texto “A ciência como arma contra a pós-verdade”, que discute essa expressão filosófica muito pertinente na contemporaneidade, e “O bit é limpo, mas a coin é suja”, que discorre sobre as problemáticas das criptomoedas.

Ao “apresentar o conhecimento científico de forma agradável, mostrando como ele pode ser compreendido e como tem impactos diretos em nossa vida”, Tubo de ensaios: uma mistura de ciência, arte e cultura pop destina-se a todos os que compartilham a paixão pelo saber, sobretudo em um tempo no qual o papel da ciência vem sendo descabidamente questionado. Demonstrando como esses saberes de natureza racional adentram outras esferas da sociedade, o autor reafirma a necessidade de estudos mais amplos que possam alcançar diversos públicos. Em suma, a presente publicação indica como os elementos culturais e até aqueles que integram o dito “mundo pop” se mostram interseccionados também por “essa musa inspiradora que é a ciência”.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

Tubo de ensaios: uma mistura de ciência, arte e cultura pop

Autor: Daniel Martins de Barros

ISBN: 978-85-268-1595-7

Edição: 1a

Ano: 2023

Páginas: 168

Dimensões: 14 x 21 cm

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