Por Ana Carolina dos Santos Pereira
Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) caracterizou o surto da covid-19 como uma pandemia, mas o primeiro caso da doença no Brasil já havia aparecido em fevereiro, no estado de São Paulo. A partir desse dia, foram quase três anos de pandemia, com mortes diárias no Brasil e no mundo. A doença impôs desafios para a população brasileira e a má gestão do presidente em exercício na época muito dificultou o enfrentamento da pandemia. Escolas e universidades suspenderam as aulas e muitas empresas permitiram que seus funcionários trabalhassem em casa, o que fez com que o movimento de pessoas nas ruas diminuísse e que muitas pessoas ficassem em isolamento social. Em 17 de janeiro de 2021, foi vacinada contra a covid-19 a primeira pessoa no Brasil, a enfermeira Mônica Calazans, que estava na linha de frente nos hospitais. A vacina deu esperança para a população e, em 5 de maio de 2023, quase três anos após o início da pandemia, a OMS anunciou o fim desta.
As medidas para o enfrentamento da pandemia dividiram opiniões em todo o mundo. No Brasil, Jair Bolsonaro, presidente na época, contrariou todas as recomendações da OMS e da ciência de modo geral, indo contra a quarentena e o uso de máscaras, e até atrasando a compra de vacinas para a população. Por isso, muito se discutiu e ainda se discute sobre a política adotada pelo governo brasileiro na pandemia, e a proposta do livro O vírus bandido: linguagem e política na pandemia é debater a linguagem e as metáforas sobre a covid-19 utilizadas no Brasil pandêmico, abordando o conflito ideológico e identitário entre progressistas e conservadores. Heronides Moura, autor da obra, também analisa o motivo de Bolsonaro manter um grande número de apoiadores e mesmo ele boicotando as medidas de contenção da doença, e contrapõe o uso do termo “necropolítica” utilizado, por muitos estudiosos, para caracterizar a política desse governo. Moura é doutor em Linguística pela Unicamp e pós-doutor pela Sorbonne Nouvelle, França. O autor já publicou outras obras na área da Linguística e atua como professor titular na Universidade Federal de Santa Catarina.
O vírus bandido: linguagem e política na pandemia inicia-se apontando os inúmeros problemas que o governo Bolsonaro causou no sistema de saúde brasileiro e que foram encontrados pelo novo governo Lula, o qual assumiu em janeiro de 2023. O autor cita os principais problemas do SUS, como a queda nos índices do programa nacional de vacinação – que “foram declinando ano a ano durante o governo passado” –, o aumento da taxa de mortalidade materna durante o parto, o fechamento do departamento de HIV/aids – causado por motivações ideológicas do governo Bolsonaro –, a crise de saúde pública em relação à população indígena e o aumento da desnutrição infantil. Moura aponta como a falta de uma articulação nacional de combate à doença facilitou a disseminação do novo coronavírus e como as regiões que adotaram medidas sanitárias mais rígidas tiveram um número menor de mortes em relação às regiões que adotaram medidas mais brandas.
Segundo o autor, “Bolsonaro estabeleceu uma cisão entre seu governo e os cientistas, prejudicando gravemente a implementação de programas de combate à pandemia”. No entanto, Moura afirma que “a situação poderia ter sido ainda pior caso os discursos contra a vacina e contra a ciência tivessem dominado completamente a linguagem e a política dos tempos de pandemia”, e isso é abordado na obra. Assim, para amparar a análise, o autor usou dados do corpus MCM (Metáforas sobre o Coronavírus na Mídia), elaborado por Alice Ribeiro Dionizio na tese de doutorado dela orientada por Heronides Moura, e também exemplos de outras pesquisas, todos reais. A pesquisa apresentada no livro mostra o importante papel que a linguagem teve na percepção da pandemia pelas pessoas e como ela funcionou no conflito político e identitário do período no Brasil.
Em O vírus bandido: linguagem e política na pandemia, o autor mostra que a covid-19 era representada como algo a ser combatido, “um bandido que ameaçava o Brasil”, e isso impediu que o discurso contra a vacina fosse hegemônico, mesmo sendo propagado pelo próprio presidente em exercício na época. Segundo Moura, “é muito difícil para um líder político fazer a comunidade aceitar uma posição de inércia e de recusa, quando o corpo social se sente ameaçado por um agente externo poderoso e letal”, o que pode ajudar a explicar o motivo de o discurso negacionista não ter tido sucesso e muitos bolsonaristas terem se vacinado, mesmo que o líder deles falasse para não o fazer. Nesse sentido, apenas uma parcela dos eleitores de Bolsonaro embarcaram completamente na ideologia negacionista e o uso da linguagem, nesse caso, é um importante meio para se entender como se constrói o imaginário político. Com a intenção de mostrar, no livro, a construção por meio da linguagem desse imaginário, o autor indica ainda: “O estudo das metáforas sobre a covid-19 me levou a conclusões sobre a ação de Bolsonaro que não são, talvez, as mais comuns no campo da esquerda”.
Por mais avesso que eu seja às ideias do ex-presidente da República, não concordo com a interpretação de que ele tenha simplesmente posto em prática, no Brasil, a necropolítica. Segundo a definição de Mbembe, o soberano, na necropolítica, exerce o poder de “ditar quem pode viver e quem deve morrer”. Com base nesse conceito, pode-se apressadamente concluir que Bolsonaro agiu de acordo com os ditames da necropolítica e condenou milhares de brasileiros a uma morte infame. Não vejo lógica nessa explicação, pois, nesse caso, o ex-presidente estaria condenando à morte os seus próprios partidários, ou seja, os negacionistas da vacina. Paradoxalmente, ele deixaria os esquerdistas sobreviverem (pois, afinal, a vacina terminou sendo disponibilizada para todos) e provocaria a morte em massa dos conservadores que não tomassem a vacina.
Questionando o uso de necropolítica para descrever o governo Bolsonaro, Moura traz outras explicações para a ação negacionista do ex-presidente e de seus eleitores, como a “radicalização da identidade do ‘povo’”. Assim, O vírus bandido: linguagem e política na pandemia fomenta diversas discussões sobre política com base na linguagem e, segundo o autor, esse estudo “nos permite entender o processo político de uma forma que pode, talvez, superar as dicotomias e simplificações do discurso ideológico”. A obra é uma importante leitura para aqueles que querem compreender o discurso político durante a pandemia, mas também para os entusiastas dos estudos linguísticos. A leitura é fluida devido à escrita clara e didática do autor. O livro é um estudo de extrema relevância para o atual cenário pós-pandemia do Brasil, em que é necessário compreender o passado para reconstruir o que foi destruído ou quase destruído pelos negacionistas da ciência que estavam governando o país.
Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

O vírus bandido: linguagem e política na pandemia
Autor: Heronides Moura
ISBN: 9788526815964
Edição: 1a
Ano: 2023
Páginas: 200
Dimensões: 14 x 21 cm