Por Ana Carolina Pereira
O conceito de infância no Ocidente surgiu na transição do século XVII para o XVIII; antes disso, as crianças não tinham uma identidade própria, sendo tratadas como pequenos adultos, e também não eram compreendidas como indivíduos vulneráveis. O reconhecimento da importância desse período para a vida do ser humano se solidificou ao longo dos séculos, e, atualmente, a infância é considerada uma das mais importantes fases de seu desenvolvimento, na medida em que, juntamente com a adolescência, ela molda o indivíduo. As crianças passaram a ser vistas como o futuro da sociedade, principalmente porque trazem renovação e novos modos de pensar o mundo.
Nesse sentido, colocando a infância no centro das atenções, a Editora da Unicamp lançou o livro A aula como produção de conhecimentos, organizado por Ana Lúcia Goulart de Faria, Eduardo Pereira Batista e Rosali Rauta Siller. A obra é fruto das discussões desenvolvidas na disciplina “Sociologia da Infância”, ministrada pelas professoras Ana Lúcia Goulart de Faria e Adriana Alves da Silva, no segundo semestre de 2021, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Unicamp. Os textos que compõem o livro foram produzidos pelos professores que participaram da disciplina, não somente da Unicamp, mas também de diferentes universidades brasileiras, convidados a contribuir com os debates propostos.
A disciplina “Sociologia da Infância” foi concebida em um momento de crescentes ataques à ciência e às universidades, principalmente públicas, no contexto da pandemia em 2021. Segundo os organizadores do livro, “as universidades públicas têm sofrido diversos ataques desde o golpe de 2016”, o que tornou a profissão de professor perigosa e um ato de resistência. Foi nesse contexto que as professoras Ana Lúcia e Adriana decidiram ofertar a matéria, a fim de proporcionar um ambiente, mesmo que on-line devido à pandemia, de “pesquisadores, pesquisadoras e estudantes para resistir alegremente contra o ódio das forças reacionárias que atacam abertamente o trabalho intelectual e a experiência de pensamento nas universidades públicas”. Cada um dos nove capítulos do livro foi escrito por professores de diferentes campos dentro da área da educação tendo como fio condutor a ideia de discutir “as infâncias, as crianças e suas historicidades, e os discursos e as práticas das instituições de educação das infâncias”. Nesse recorte, os organizadores apontam que o itinerário proposto para a disciplina
“foi balizado por alguns temas delimitados pelo campo ampliado da Sociologia da Infância: a criança como sujeito de direitos, capaz de estabelecer múltiplas relações, criadora e criatura da história e da cultura; as relações entre as pessoas adultas e as crianças e entre crianças e crianças na produção das culturas infantis; a abordagem interseccional dos marcadores sociais de gênero, raça, classe social, etnia, idade e deficiência; e as novas configurações da realidade social nas atuais modificações da gestão do tempo cotidiano e da produção de mundos de morte no atual contexto da pandemia no Brasil”.
Em A aula como produção de conhecimentos, a escolha de colocar a infância no centro das atenções é, segundo os organizadores, “um desvio fundamental”, pois leva a pensar as crianças “não apenas pelo futuro adulto ou pela futura adulta que elas se tornarão, mas pelo presente que modificam e em que vivem”. Tal desvio indica a força criadora que a imaginação e as culturas infantis criadas pelas próprias crianças têm – essas que residem no modo como elas experienciam o tempo sem as amarras da vida do trabalho dos adultos. Além disso, os pesquisadores afiançam que o livro “não se limita à tomada da infância como objeto, mas refere-se ainda às abordagens e às escolhas pelas quais as infâncias se observam”. Segundo eles, a discussão levantada, tanto na obra quanto na disciplina “Sociologia da Infância”, refere-se às crianças “inseridas em contextos que escapam ao controle total ou que dão origem às novas relações”.
Na obra, os capítulos, embora se conectem entre si, podem ser lidos separadamente. Eles trazem abordagens teóricas, mas também discutem situações concretas e diferentes tipos de infâncias, como aquelas da criança indígena, da criança que está inserida na luta de classes, na luta pela opressão de raça, classe e gênero, etnia, idade e deficiência e da criança deficiente. Nesse recorte, cada criança tem uma vivência única, mas todas elas compartilham pontos em comum que caracterizam a infância, e é nesse campo que as discussões se desenvolveram por meio da disciplina que gerou a obra A aula como produção de conhecimentos. Essas discussões foram realizadas não apenas mediante a exposição de um professor sobre o tema, mas através da participação de professoras e professores convidados, e a partir de diferentes perspectivas teóricas, contando também com “uma exposição dos/as alunos/as que problematizavam o mesmo tema a partir de suas próprias leituras e questões”. A troca de conhecimentos entre docentes e discentes fomentou o debate da disciplina e permitiu criar “um lugar de encontro potencialmente emancipador e formativo.”
Segundo Paulo Freire, a experiência do pensamento é “um fazer permanente que se refaz constantemente na ação”, e esse preceito norteia o livro A aula como produção de conhecimentos. Com uma linguagem clara, a obra convida o leitor a pensar o passado à luz do presente no que diz respeito à infância e a seus desdobramentos na sociedade. Como bem colocam os organizadores do livro, no contexto político de ataques a tudo que toca o trabalho intelectual, que norteou a narrativa do governo passado, “pensar e dar visibilidade ao pensado se torna uma modalidade de ação”; dessa forma, “publicar é uma forma de resistência, um ato político revolucionário”. A aula como produção de conhecimentos é, pois, leitura fundamental para pesquisadores e futuros pesquisadores da área da educação e também para todos os interessados no debate sobre infância, educação e sociedade.
Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

A aula como produção de conhecimentos
Organizadores: Ana Lúcia Goulart de Faria, Eduardo Pereira Batista, Rosali Rauta Siller
ISBN: 9788526815810
Edição: 1a
Ano: 2022
Páginas: 304
Dimensões: 14 x 21 cm