A intromissão das mídias eletroacústicas em solo brasileiro, uma análise do grupo Música Nova

Por Gabriel de Lima

As discussões acerca da identidade brasileira, da sua formação e de seus possíveis desdobramentos em nível nacional, ocorrem desde a Independência (1822), passando por modificações, ao longo desses dois últimos séculos, na sua rota ideológica e nos tópicos considerados como principais. Discursar e refletir sobre o brasileiro – sobre as suas práticas culturais e sociais – não é algo que se manteve restrito apenas ao campo das ideias, mas foi e continua a ser um objeto frequente nas artes em geral. Nesse sentido, das vertentes nacionalistas surgidas nos anos 1920, houve uma sucessão de gerações e gerações de artistas nacionais ou residentes no Brasil que mantiveram uma dialética com esse passado ufanista.

Na música, as definições e o estilo que demarcavam a produção nacional – fortemente europeizada – foram repensados sobretudo por Heitor Villa-Lobos, Mário de Andrade e Hans-Joachim Koellreutter, que era um dos líderes do grupo Música Viva (1939-1948). O grupo criou um espaço de experimentações com as vanguardas europeias e, mais tarde, “até fins dos anos [19]50, alguns compositores de São Paulo, depois conhecidos pelo nome Grupo Música Nova, resolveram retomar os ideais do Manifesto Música Viva, de Koellreutter”. Sobre isso, a professora e pesquisadora Denise Hortência Lopes Garcia buscou analisar toda essa trama musical brasileira em seu estudo O grupo Música Nova e a música eletroacústica, publicado pela Editora da Unicamp.

A princípio, o livro apenas toma o “Manifesto Música Nova” como uma contextualização dos assuntos tratados, pois, segundo a autora, o estudo pretende “verificar, por meio das obras, o que de fato os compositores desenvolveram concretamente no âmbito das mídias eletroacústicas”, além de traçar o contexto histórico e artístico envolvido e o diálogo do movimento com outros ocorridos anteriormente, tanto no Brasil quanto no exterior. Com isso, pode-se denotar que a origem da música eletroacústica está relacionada com a iniciativa desses musicistas em internacionalizar a produção artística brasileira, tomando os “movimentos musicais internacionais do pós-guerra” como possível fonte de inspiração para o cenário cultural nacional. 

A pesquisadora também frisa que, antes de se estabelecerem na posição de contestação, “quase todos os compositores do grupo Música Nova também se iniciaram com o nacionalismo”, salientando novamente a importância dessa estética ufanista. Ao estarem justamente em uma virada de chave na trajetória musical brasileira, durante os anos de 1950, os compositores participantes desse movimento – Rogério Duprat, Willy Correa de Oliveira, Damiano Cozzella e Gilberto Mendes – não rejeitaram aqueles que os precederam, mas procuraram repensar as práticas musicais que já tinham sido desenvolvidas. Assim, O grupo Música Nova e a música eletroacústica destaca como as “linguagens musicais tomaram novos caminhos experimentais, com a adoção de elementos aleatórios, com o uso de recursos eletroacústicos, com o teatro musical, com explorações sonoras, com o happening, trazendo para o Brasil a vanguarda pós-guerra”.

No Prefácio à obra, Carole Gubernikoff – docente na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) – discursa sobre as principais indagações e contribuições que o estudo de Garcia traz à musicologia brasileira. Colegas “na Escola de Comunicação e Arte da USP na década de 1970”, Gubernikoff expõe como a formação acadêmica da autora tornou-a em uma das mais notáveis teóricas da música eletroacústica produzida em solo nacional. Além dos textos introdutórios, o livro é estruturado em cinco capítulos, que contextualizam e reveem o movimento e os nomes influentes dessa estética vanguardista – já citados antes. A obra comporta também listas e tabelas de composições e de obras musicais, auxiliando os leitores na compreensão das teorizações propostas pela estudiosa brasileira.

Acerca de seu percurso enquanto acadêmica, Denise Hortência Lopes Garcia é compositora e professora de Composição e Análise Musical no Instituto de Artes da Unicamp, sendo doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Como pesquisadora de carreira, Garcia indica em seus “Agradecimentos” que a presente obra é fruto de projetos científicos elaborados por ela, com o apoio da Fapesp. Outrossim, a colaboração de outros intelectuais faz-se preponderante na concepção da obra – como, por exemplo, Carla Delgado de Souza, que, em Gilberto Mendes: entre a vida e a arte, “procura compreender como esse compositor enfrentou alguns dilemas estéticos e relacionou-se com instâncias políticas e de poder dentro do campo musical”.

Por mais que a autora dedique alguns capítulos do livro aos estudos de caso, colocando cada idealizador do “Manifesto Música Nova” em evidência, Garcia tenta se desvencilhar dos “estudos biográficos dos compositores”, que compõem a maior parte da bibliografia sobre esse movimento musical. As motivações para isso são várias, sendo mencionadas reiteradamente nos textos de apoio à obra, mas pode-se, ao menos, destacar uma: apontar e focalizar a ligação do grupo e dos ideais que fundamentam a estética da Música Nova com as mídias eletroacústicas – consideradas, até então, estranhas e passíveis a críticas em território brasileiro. Dado curioso é a participação desses musicistas – Mendes, Oliveira e Cozzella – na formação de cursos de graduação e pós-graduação em Música nas principais universidades paulistas, como a USP e a Unicamp.

Após essas considerações, fica evidente a importância acadêmica do livro O grupo Música Nova e a música eletroacústica, que revisita um momento crucial no trajeto histórico da música brasileira: os primeiros usos nacionais da tecnologia eletroacústica em composições musicais. Ademais, pode-se afirmar que o caminho galgado pelos intelectuais brasileiros, seja na constituição de uma identidade nacional, seja na eleição de elementos que fariam parte da cultura brasileira, moldou e continua a influenciar todas as gerações que se sucederam – tanto partidárias quanto opositoras –, assim como fica subentendido pela autora em seu estudo. Ressaltando a iniciativa pioneira desse movimento artístico “na integração da mídia eletroacústica na linguagem da música experimental”, a obra destina-se sobretudo aos especialistas e entusiastas por musicologia brasileira.

Para saber mais sobre o livro, visite o nosso site!

O grupo Música Nova e a música eletroacústica

Autora: Denise Hortência Lopes Garcia

ISBN: 9788526815735

Edição: 1a

Ano: 2022

Páginas: 240

Dimensões: 16 x 23 cm

Deixe um comentário