A metodologia de Max Weber

Por Sophie Galeotti

Max Weber viveu de 1862 a 1920. É um dos pais da sociologia, responsável pela estruturação de uma metodologia própria às ciências sociais. As suas teorias refletem o período da modernidade em que viveu: da formação do Estado alemão, da industrialização acelerada, da burocratização do mundo e de sua divisão por classes. Weber escreveu clássicos da sociologia; dezenas dos seus ensaios são abrangidos pelo livro Metodologia das ciências sociais

A obra, em sua 5a edição, foi publicada por meio de uma parceria entre a Editora da Unicamp e a Cortez Editora. A tradução, feita em 1973, é de Augustin Wernet, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Wernet estudou filosofia e história na Albert-Ludwigs-Universität Freiburg (Universidade de Freiburg), na Alemanha. 

Maurício Tragtenberg, sociólogo, historiador e ex-professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), assina a Introdução da obra. Tragtenberg viveu de 1929 a 1998, mas seu legado, como o de Weber, é eterno. Seu nome é de peso não só no cenário da sociologia brasileira, mas mundial.  

A obra é dividida em 12 blocos. Alguns são escritos de Weber comentando autores de sua época, como Wilhelm Roscher, Theodor Lipps e Eduard Meyer. Outros textos são focados em análises, como “O conceito de ação social” e “O papel do Estado”. No total, a obra reúne mais de meia centena de ensaios de Weber sobre lógica, metodologia das ciências sociais e culturais e sobre o que foi denominado, postumamente, “teoria da ciência”.

Gabriel Cohn, especialista em Max Weber e professor da USP, iniciou um Café Filosófico, evento cultural patrocinado pela CPFL Energia, destacando que, em um levantamento feito pela Associação Internacional de Sociologia, 100 especialistas puderam votar nos “10 livros do século”; Economia e sociedade, de Weber, foi o único a obter unanimidade de indicações entre os 95 opinantes. É essa a magnitude do autor no cenário das ciências sociais. 

Na Introdução, Maurício Tragtenberg nota que, em alemão, não existe a expressão “ciências sociais”; a tradução mais fiel seria algo como “enciclopédia de ciências do Estado” – o próprio Weber não gostava de ser identificado como sociólogo, mas como economista. O Estado era um tema muito debatido na Alemanha no século XIX e início do XX. O Estado-nação moderno alemão foi fundado apenas em 1871. Ou seja, ao longo da vida de Weber, o Estado ainda estava em processo de formação. 

É essa uma das peculiaridades das análises do sociólogo, principalmente se comparado a outro grande cientista social, Émile Durkheim, francês, cidadão de um Estado já estruturado. Nas palavras de Tragtenberg, “enquanto o romantismo francês realizava a crítica social, o romantismo alemão idealizava a razão do Estado”. Mesmo o iluminismo alemão foi diferente das Luzes francesas, pois “opõe-se à irreligião (…), conceitualiza a filosofia e sistematiza o misticismo”.

A nação alemã tinha duas características incontornáveis para que se tornasse um grandioso Estado: a riqueza – resultante da acelerada industrialização alemã – e a localização central na Europa. Porém, uma vez que as estruturas sociais ainda estavam se formando, o foco de análise de Weber desloca-se para os sujeitos: que grupo pode conduzir a Alemanha ao status de um grande Estado-nação? Weber não deposita essa potência nos trabalhadores, grandes proprietários ou empresários. Ele pensa na modalidade de ações dos múltiplos sujeitos que compõem a sociedade, atento aos rumos significativos que elas podem indicar. Tragtenberg nota que:

Em si mesmos, os processos da natureza e da história não têm significação maior. É o homem pensando e agindo com referência a valores que constitui o elemento determinante da valorização de certos fenômenos e de vários tipos de causalidade que imputamos aos acontecimentos. 

O foco na ação leva ao problema da burocracia – muito abordado no diálogo de Weber com as ideias de Wilhelm Dilthey. O aparato de estatutos legais bem definidos e organizados é fundamental à estruturação de uma sociedade; porém, a boa administração é uma instância limitada, pois não resolve os problemas políticos. A burocracia, por si só, é uma jaula de ferro para as ações humanas. A reflexão política está em outra instância, pois a política é o meio para a mudança. Ela desloca formas e fecunda novas concepções de organização social, e é por meio dela que são formuladas exigências que o corpo administrativo é incapaz de conceber.

Weber busca a direção da ação dos agentes, procurando as linhas percorridas por eles; o conjunto delas forma o tecido da vida social, a complexa teia que resulta da busca pelos objetivos de cada sujeito, cujos caminhos, inevitavelmente, se cruzam. Múltiplos agentes buscando os seus objetivos gerarão resultados que escapam de suas intenções, e certas ações podem ganhar persistência ao longo do tempo. Por esse enfoque, as ciências sociais se atêm ao mundo empírico, não ao ideal de valores. Tragtenberg nota que esse direcionamento de Weber impacta a sua visão sobre o fazer científico e o fazer político:

Isso terá implicações em sua visão sobre “neutralidade” e “compromisso”: na ciência, a primeira categoria seria a dominante; na esfera da ação política, a segunda categoria seria dominante. Assim, ética e ciência podem funcionar em campos relativamente autônomos, enquanto ética e política quase sempre implicam a cumplicidade do sujeito ativo.

  Weber não apenas analisou como o fator econômico influi nos fatores social, político e religioso, mas também como estes reagem ao econômico. Por exemplo, o racionalismo de uma nação irá, por extensão, influir na ação dos sujeitos. Mas, para Weber, as ações não são causais entre si; ou seja, não se faz uma coisa simplesmente em virtude de uma outra. Cada ação porta diferentes cargas de importância ao sujeito de acordo com diferentes contextos, e todas coexistem. Da mesma maneira que Hegel se declarava luterano mesmo sendo o filósofo da nova razão alemã, muitos empresários alemães aderiram à religião protestante, pois conciliavam-na com a ambição econômica. Um dos clássicos de Weber é o livro A ética protestante e o espírito do capitalismo.

  As ciências sociais devem, para Weber, pronunciar-se perante fatos concretos. A pesquisa que guia essas ciências deve ser objetiva; não cabe às ciências sociais definir os fins últimos, “elas definem o que é, não o que será. Ainda nas palavras de Tragtenberg, “Max Weber é um autor clássico, portanto, atual”. A obra Metodologia das ciências sociais é essencial a todos os sociólogos, além de interessar aos que buscam conhecer mais sobre a modernidade e a herança que nos deixou. Acesse o site da Editora da Unicamp para adquirir o seu exemplar.

Metodologia das ciências sociais

Autor: Max Weber

ISBN: 978-85-268-1229-1 9 (Editora da Unicamp); 978-85-249-2300-5 (Cortez Editora)

Edição: 5

Ano: 2015

Páginas: 688

Formato: 23 x 16 x 3,2 cm

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