‘Seletânea’ traz a poesia enxuta e inovadora de Emily Dickinson

Por : Mellory Ferraz

Se por um lado a vida da norte-americana Emily Dickinson [1830-1886] pode ser encarada como pacata e desprovida de grandes aventuras, descobertas e incidentes, já que morou sempre na mesma região, com as mesmas pessoas, na pequena Amherst, em Massachusetts, por outro não se pode negar a singularidade que distingue sua obra literária. Com um conteúdo que expressa muito bem a densidade criativa que a caracteriza, o livro Não sou ninguém é uma “seletânea” de poemas da escritora, termo utilizado pelo próprio tradutor, o também poeta Augusto de Campos.

 Na realidade, esta é a segunda edição publicada pela Editora da Unicamp. Revista e ampliada, contém não apenas os poemas que haviam sido traduzidos e publicados em 2007, mas apresenta outros que não estavam na primeira edição. Ao se deparar com a publicação de uma nova seleção de poemas de Dickinson e também com a difusão de seus manuscritos na internet (no portal Emily Dickinson Archive), em 2013, Augusto de Campos revisita os textos traduzidos anteriormente e traduz os novos poemas.

 A obra apresenta poemas curtos, concisos e chamativos, característicos de Dickinson. Isto porque a escritora possuía um léxico certeiro, repleto de intensidade, utilizando palavras que, com pouco, dizem muito. Sua escrita peculiar leva os críticos literários a relacionar a sua obra a uma modernidade precoce, transparecendo, inclusive, a preferência pelo distanciamento de regras e modelos tradicionais – mesmo que, às vezes, os seguisse.

 Com uma linguagem substantiva, repleta do emprego da letra inicial maiúscula para destacá-la, o paradoxal predomina. Emily Dickinson lança mão da dicotomia sem amarras. É o que encontramos em exemplos de poemas que já constavam tanto na edição de 2007 (recordar x esquecer, feliz x chora), como na revista e ampliada (pouco x muito), respectivamente:

Se recordar fosse esquecer,
Eu não me lembraria.
Se esquecer, recordar,
Eu logo esqueceria.
Se quem perde é feliz
E contente é quem chora,
Que alegres são os dedos
Que colhem isto, Agora!

—– * —–

Pouco, mas muito,
Um, é perfeito –
A esse etéreo gueto
Não tem cada um todo o direito
De pertencer, secreto?

Se não bastasse todo o fluxo poético, acrescente a ele a criatividade do tradutor – Augusto de Campos é capaz de fazer o leitor repensar o papel do profissional que transforma o texto de outro idioma numa experiência mais acessível ao público de outra língua. Segundo Paulo Ottoni (A prática da diferença, também publicado pela Editora da Unicamp), “ao praticar a diferença entre as línguas, a tradução inevitavelmente evidencia também as suas semelhanças.

É entre diferença e semelhança que a tradução tem o papel de deflagrar a língua”. Isto resume o que encontramos nesta edição bilíngue: é o trabalho de dois poetas – Emily e Augusto –, lado a lado. São obras como esta que evidenciam a importância do tradutor que não se limita a verter o idioma do autor para outra língua.

 Leia a versão desta resenha publicada no Jornal da Unicamp.


Título:
 Emily Dickinson: Não sou ninguém
Autora: Emily Dickinson
Tradutor: Augusto de Campos
Edição: 2ª
Ano: 2015
Páginas: 192

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