Obra de Gabriel de Foigny funde real e irreal

Por: Luis Fernando M. Costa

A terra austral conhecida é o relato de um viajante. Nascido no meio do oceano, Nicolas Sadeur é marcado, desde seu nascimento, por “uma tragédia que já dura 55 anos, com tantas e tão estranhas catástrofes que ninguém acreditaria” (p.69).

Publicada pela primeira vez em 1676, por Gabriel de Foigny, ex-franciscano convertido ao calvinismo, essa utopia literária formaliza o antagonismo do escritor à sua realidade, numa escrita que demarca uma reação à “vigilância constante dos ministros eclesiásticos e à intransigência da Igreja de Genebra” (p.27). Nela, junto à utopia construída por Francesco Patrizi da Cherso – A cidade feliz, também publicada pela Editora da Unicamp -, dialoga-se com as teorias políticas de sua época, sendo constituída, a própria utopia, por teorias e proposições.

Ana Cláudia Romano Ribeiro, professora de Literatura da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), oferece, nesta tradução inédita para o português, uma realidade fantástica e fabulosa. Fruto de sua pesquisa de doutorado, ela nos introduz a uma realidade ambígua, na qual real e irreal mesclam-se.

Enquanto as primeiras páginas nos levam a acreditar num verdadeiro relato de viagem, semelhante aos de Fernão de Magalhães e de Marco Polo, à medida que a narrativa evolui nos vemos diante de uma terra “até então desconhecida”, na qual o inverossímil se apresenta nas criaturas fantásticas que lá habitam: seja nas feras voadoras que atacam Sadeur em sua chegada, descritas como “certo tipo de cavalos, mas de cabeças pontudas e patas terminando em garras” (p.91), seja na suposta ilha em que ele se refugia, a qual descobre ser, na verdade, uma baleia com muitas patas e mais de cem cabeças.

Após perder seus pais no naufrágio que marcara seu nascimento, Nicolas Sadeur é conduzido à terra austral. Nela, descobre um país uniformemente dividido e ordenado em suas línguas, costumes, construções e cultura da terra, prodígio de um povo que, pelo uso mais puro da razão, comporta-se harmonicamente, sem conflitos nem divergências. Há uma natureza fértil e abundante, árvores que estão sempre carregadas de frutos maduros capazes de saciar, por completo, o homem. Encontram-se, por exemplo, “pequenas bolsas de um amarelo encantador” e uma fruta “de perfume agradabilíssimo e gosto sem igual na Europa”. Dada a inclinação do território, há um “perpétuo verão” e águas, “destramente conduzidos pelos austrais”, que percorrem todo o território desde os montes localizados ao sul até o litoral localizado ao norte. “Enfim, este é um país abençoado que, contendo todas as raridades e delicadezas imagináveis, está imune de todas as aflições que nos

O fabuloso também se encontra nos austrais. Hermafroditas, de uma constituição física forte e destra, possuem sobre a cintura um segundo par de braços. A unissexualidade, para eles, é uma condição de imperfeição. O homem inteiro é autossuficiente, portanto, a bissexualidade implica na plenitude da carne e do espírito: “por isso podemos viver sós, pois nada nos falta, enfim, por isso somos felizes e nosso amor nada tem de carnal” (p.123). Vivem todos nus, não veem sentido em esconder o que consideram perfeito. Porém, têm repugnância a qualquer atitude que se aproxime dos animais. A igualdade reina: não há bens privados e a educação é a mesma para todos, de modo que aos 30 anos são todos capazes de “raciocinar sobre todo tipo de problema” (p.41).

Todo o mundo fantástico com o qual nos deparamos revela que a ambiguidade da obra não se restringe à oposição entre um discurso pretensamente verídico e relatos inverossímeis. Pelo contrário, ela expande nosso horizonte de reflexão, ao impedir uma interpretação unívoca – característica do gênero utópico, ao tratar assuntos sérios em obras ficcionais que privilegiam a fantasia crítica, em detrimento de uma representação plausível do mundo, na qual a sátira e a ironia não se dissociam.

É dessa forma que Foigny irá criticar a política religiosa de seu período, propondo uma realidade alternativa, na qual a religião não é utilizada para disputas pessoais nem como tema de conversa – ou seja, não se constitui como parte central da política. Questiona-se, assim, a legitimidade de qualquer instância que tolha a liberdade humana, pensamento por demais progressista, surpreendente até, se nos lembrarmos de que ele se localiza na Europa do século XVII, quando a igreja e o Estado eram um só, e todas as produções intelectuais passavam pelos diversos veículos de censura para que se permitissem as suas publicações.

Nessa medida, ainda que A terra austral conhecida questione a possibilidade de uma

sociedade justa composta de homens naturalmente imperfeitos, o mundo ficcional por ela criado funciona como termo de comparação sobre a sociedade na qual vivia seu autor e, vista em perspectiva, integra o longo processo de laicização da sociedade francesa.

(Leia a versão desta resenha publicada no Jornal da Unicamp).

A terra austral

 

Título: A terra austral conhecida
Autor: Gabriel de Foigny
Tradutora: Ana Cláudia Romano Ribeiro
Páginas: 248

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