William Blake: a união do olhar literário e da contemplação artística

Por: Júlia Rodrigues

Quem já ouviu falar de William Blake sabe que ele foi um poeta bastante peculiar. Tendo se instruído de forma bem diversa da educação convencional, Blake desenvolve uma formação independente e autodidata, a qual contemplou estudos literários e artísticos. Assim Blake se torna um notável gravurista e, também, um extraordinário poeta.

Especialista em Blake e professor na Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Araraquara, Alcides Cardoso dos Santos falou com o Blog da Editora da Unicamp sobre essa figura tão importante para a literatura inglesa por ocasião de seu nascimento (28/11). Além de apresentar seu livro, Visões de William Blake, o professor comenta a recepção brasileira do poeta e recomenda leituras e traduções para quem quiser entrar, pela primeira vez ou mais a fundo, no universo fascinante de Blake.

Blog da Editora da Unicamp – O título de sua obra é Visões de William Blake. O senhor poderia resumir a importância da “visão” em sua leitura?  Em que sentido Blake foi um poeta que tinha algo de profeta?

Alcides Cardoso dos Santos – O título do livro se refere a duas instâncias da obra de William Blake: por um lado, a visão de um mundo melhor, onde o perdão e a aceitação das diferenças sejam o mote e a prática diária da vida e da arte.

Blake foi bastante influenciado por místicos, como Emmanuel Swedenborg e Jacob Boheme, e pelos livros proféticos da Bíblia, sobretudo por Ezequiel e Isaías, o que o levou a produzir uma arte visionária, profética e utópica, na qual o erro da tirania e da violência fosse substituído pelo perdão e pela aceitação.

Mas as “Visões de William Blake” também se referem ao fato de ele ter sido poeta, pintor e gravurista, artes que ele transportou para grande parte da sua obra poética, que foi gravada em placas de cobre. Estas foram pintadas para servirem de matrizes, a partir das quais eram feitas as cópias impressas. Esses poemas (também chamados de “iluminados”, pelo uso que Blake fez das iluminuras medievais) continham o texto poético juntamente com as gravuras e as iluminuras em diferentes arranjos e proporções, nas cores usadas pelos pintores pré-rafaelitas, perfazendo um todo formal de grande beleza.

A leitura desses poemas se torna, então, um processo multifacetado, no qual aprendemos a ler o texto juntamente com as imagens e as iluminuras, o que nos permite pensar que Blake – sob a grande influência da Comédia de Dante Alighieri -, concebeu seus poemas como uma viagem de (auto)conhecimento que nos levaria ao céu da aceitação e do perdão.

Blog da Editora da Unicamp – No prefácio de seu livro, o professor Fábio Durão aponta um diferencial de sua leitura: analisar, em conjunto, a poesia e as gravuras de Blake. Qual a relação entre poesia e artes visuais na obra desse poeta/artista?

Alcides Cardoso dos Santos – A questão das relações entre texto e imagem é bastante antiga e vários foram os poetas que estabeleceram um diálogo com as artes visuais, de Da Vinci a Lessing, Diderot e Mallarmé. Porém, a tradição de leitura que se estabelece desses poetas é aquela que privilegia o texto escrito em detrimento das imagens, como foi o caso das edições da poesia de Blake até meados do século XX, quando edições integrais de sua poesia iluminada são primeiramente publicadas. A poesia iluminada de Blake passa a ser vista, então, não mais como um empecilho editorial, mas como uma arte que propunha o ut pictura poesis [como a pintura, é a poesia] enquanto reflexão sobre as diferenças e a sua (difícil) aceitação, tanto na vida dos homens quanto na arte.

O que proponho, no meu livro, é a leitura da poesia iluminada de Blake a partir da junção do olhar literário com a contemplação da arte, do processo linear de leitura do texto escrito com a contemplação simultânea da arte visual. Tal leitura acaba por se transformar, ao final do poema, como um processo de reeducação de nossa capacidade perceptiva e imaginativa, como desejava Blake.

O poema que analiso e no qual pratico esta forma de leitura proposta por Blake é intitulado “Jerusalém, a Emanação do Gigante Albion”. Escrito entre 1804 e 1820, se refere a duas instâncias de sua poesia: Albion, metonímia para o homem e para a Inglaterra, e Jerusalém, sua emanação, isto é, sua parte imaginativa e divina. A partir da percepção de que Jerusalém estava sendo tomada pela tirania da intolerância e do moralismo, Blake realiza, em seu poema, uma viagem rumo à sua libertação, unindo, assim, o homem ao seu quinhão divino, que para Blake era a imaginação.

                                                                                                                                                                    Blog da Editora da Unicamp – Blake não é ausente no cenário editorial brasileiro. É possível encontrar diferentes traduções, inclusive a premiada de Paulo Vizioli (Jabuti, 1994) . Como é sua recepção no Brasil?

Alcides Cardoso dos Santos – Blake tem recebido boas traduções no Brasil, senão de toda a sua obra, pelo menos dos seus poemas principais ou mais famosos. Este foi o caso das “Canções de Inocência e Experiência” (1789), que teve grande repercussão nos anos da contracultura e que se tornou um símbolo da rebeldia e da inquietude juvenil. Além da ótima tradução de Paulo Vizioli, temos, também, as traduções de Paulo Arantes, de Alberto Marcicano e, mais recentemente, de Enéas Tavares, que coordena o Centro de Pesquisa William Blake , na Universidade Federal de Santa Maria (RS).

Porém, é necessário dizer que a sua recepção no Brasil infelizmente se restringiu às traduções de alguns poemas, não tendo sensibilizado o interesse acadêmico e produzindo uma grande lacuna nos estudos blakeanos no Brasil. Um dos objetivos de Visões de William Blake foi justamente oferecer ao leitor brasileiro um texto acadêmico que também pudesse servir de introdução à poesia deste grande artista. Na primeira parte do livro é feita uma apresentação abrangente da poesia de Blake, de modo a suprir, ao menos parcialmente, esta lacuna de estudos e pesquisa sobre Blake no Brasil.

Felizmente, cremos que com o interesse das novas gerações pela sua poesia, Blake encontrará doravante terreno mais fértil aqui no Brasil, tanto na tradução quanto nos estudos críticos e acadêmicos.

Blog da Editora da Unicamp – O leitor que ainda não conhece William Blake pode começar por onde? Alguma tradução merece destaque?

Alcides Cardoso dos Santos – Minha sugestão é de que o leitor comece pelos poemas líricos do início da produção poética de Blake, como as “Canções de Inocência e Experiência”, “O Casamento do Céu e do Inferno” (1790) e “O livro de Thel “(1790). Em seguida, o leitor poderá se iniciar nos poemas épicos, como “America” (1793) e “Europa” (1794) e, então, se aventurar nos poemas épico-proféticos, como “Milton” (1804-1810) e “Jerusalém, a Emanação do Gigante Albion” (1804-1820).

No primeiro dos épicos-proféticos, Blake presta uma homenagem ao poeta neoclássico inglês que grande influência teve sobre sua poesia, John Milton, guiando-o, como Virgílio faz a Dante, pelos caminhos da libertação pela arte. No segundo, considerado o poema mais importante da obra de Blake, o poeta realiza a grande tarefa alquímica de transmutar a realidade em utopia, o concreto em imaginação e a intolerância em perdão por meio da sua arte iluminada, novamente ligando Albion à sua emanação Jerusalém.

Também aconselho o leitor a conhecer a obra pictórica de Blake, exposta em vários museus e disponível, juntamente com toda a sua poesia iluminada, no site The William Blake Archive. Nesse site o leitor poderá ter contato com a beleza de sua obra pictórica e poética em reproduções de alta definição.

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Autor: Alcides Cardoso dos Santos
Edição: 1
Ano: 2009
Páginas: 248

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