Um resgate da língua dos “homens verdadeiros”

Mais de um século depois da publicação original, em 1914, a Editora Unicamp reedita Rã-txa hu-ni ku-i … A língua dos Caxinauás do rio Ibuaçu, afluente do Muru, obra clássica de João Capistrano de Abreu, sobre “a língua dos homens verdadeiros”. O cearense viveu entre 1853 e 1927, tornando-se conhecido pela sua produção na área de história. Mas também atuou em diversos campos das ciências humanas, entre eles, paleontologia, geografia, economia, política, artes, etnografia e linguística.

Como enfatiza sua biógrafa, Alba Nascimento, em obra publicada em 1931, “Capistrano buscava um laço causal entre os reinos vegetal e animal, as relações entre o meio físico e os indivíduos, estudava as ações e relações entre a ambiência, o habitat e o homem”.

Desse modo, dedicou-se ao estudo do período colonial da história brasileira, elaborando conceitos de raça, terra e clima, típicos da visão europeia sobre as regiões tropicais, assim como a pesquisas sobre dois grupos indígenas, os Baicaris e os Caxinauás, priorizando descrições de suas tradições, costumes e mitos. Constituiu, assim, um campo de conhecimento fundamental para pesquisas posteriores sobre estes e outros povos indígenas do Brasil. Nesse cenário, o estudo e a tradução das narrativas ameríndias Caxinauás, empreendidos por Capistrano de Abreu, são um dos marcos decisivos no início do trabalho etnolinguístico brasileiro.

Nesta edição, a obra de Capistrano de Abreu conta com um intenso trabalho de pesquisa e revisão, sob organização da linguista Eliane Camargo, para o qual contribuíram falantes do Rã-txa hu-ni ku-i – que leram, ouviram e recontaram as histórias e os fatos registrados no trabalho centenário, muitas vezes fazendo contato pela primeira vez com aspectos de sua cultura que haviam se perdido no tempo.

Também cooperaram pesquisadores brasileiros e estrangeiros com traduções e adaptações para o português, além da própria grafia fonética da língua dos Caxinauás.

A obra, contendo quase 6 mil frases em Rã-txa hu-ni ku-i numeradas e acompanhadas de tradução literal em português, apresenta narrativas mitológicas junto de experiências cotidianas. Trata, portanto, de diversos aspectos da cultura, como a preparação de alimentos, interpretação de sonhos, instruções sobre ofícios e condutas na resolução de conflitos e delitos. Aborda, também, a vida sexual e ritos de festa, caça, enterro e luto do povo.

Alguns dos relatos compilados nesta versão puderam ser retomados graças ao trabalho de pesquisa. No entanto, muitos deles – como frequentemente se dá com a história oral – sofreram tantas mesclas, que acabaram perdendo-se no tempo e apenas são conhecidos, hoje, pelo trabalho de Capistrano. São perceptíveis também as mudanças no vocabulário dos Caxinauás, já que, quando apresentados a falantes contemporâneos da língua, alguns termos são considerados arcaicos, permitindo-lhes o mesmo olhar que nós, falantes de línguas que possuem registros escritos antigos, temos da evolução de nossas próprias línguas.

Esse riquíssimo documento, como indica o prefácio de Philippe Erikson, não é apenas para linguistas, “mas também para os Caxinauás contemporâneos que irão (re)encontrar uma parte importante de seu patrimônio cultural”. Além disso, para a área da etnografia, o registro de costumes traz consigo um universo de saberes que, como afirma Koch-Grünberg, fazem dessa obra “o maior e melhor material que jamais se publicou sobre língua sul-americana de índios”.

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Rã-txa hu-ni ku-ĩ… A língua dos Caxinauás do rio Ibuaçu, afluente do Muru
Autor:
 João Capistrano de Abreu (organização de Eliane Camargo)
Edição: 1ª
Ano: 2016
Páginas: 712

 

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