Uma perspectiva multidisciplinar das mudanças climáticas

Por: Luis Fernando M. Costa

As mudanças climáticas são tema de diversas campanhas governamentais e de diversos projetos de pesquisa. Elas afetam tanto nosso cotidiano, quanto a nossa economia. Para nos adaptarmos a elas, esforços institucionais devem ser feitos. Nesse sentido, o engenheiro agrícola Jurandir Zullo Junior coorganizou e publicou, pela Editora da Unicamp, o livro Planejamento da produção de cana-de-açúcar no contexto das mudanças climáticas globais.

Esse livro, junto ao premiado Capitalismo e colapso ambiental, do historiador Luiz Marques, compõe o programa de TV Café com Conversa, nesta quarta-feira (18), a partir das 16h30 na Casa do Professor Visitante (CPV). Leia a seguir a entrevista de Jurandir Zullo (foto).

Blog da Editora da Unicamp – O livro Planejamento da produção de cana-de-açúcar no contexto das mudanças climáticas globais, co-organizado pelo senhor, tem como novidade a interação entre diversas áreas do conhecimento, o que mostra como um “problema” apresenta diversas facetas. Qual foi o impulso para essa cooperação? E como foi trabalhar com profissionais de áreas tão diversas?

Jurandir Zullo Junior – Nós detectamos  que vários grupos na Unicamp trabalhavam com o tema das mudanças climáticas, mas de forma disciplinar. O grupo de demografia trabalhava com mudanças climáticas e demografia, assim como nós da agricultura trabalhávamos com mudanças climáticas e agricultura. Então, começamos, junto a esses outros profissionais, a montar um projeto.

Eu fiz uma proposta numa das comissões da Unicamp por ter identificado que o assunto não era específico de uma área. É um assunto multi e interdisciplinar. A iniciativa foi nesse sentido: quando percebemos a necessidade de nos unirmos dentro da complexidade do tema das mudanças climáticas.

A motivação em relação à cana-de-açúcar foi por ela ser uma cultura importante para o país, especialmente para o estado de São Paulo, que é um grande produtor nacional e internacional. Já tínhamos uma experiência, desde 2011, com cenários de mudanças climáticas para a agricultura nacional. Começamos com o café, depois expandimos para outras culturas e para outras regiões do país, até realizarmos trabalhos nacionais.

Conversamos com colegas para que eles também trabalhassem em torno desse tema. A área de divulgação científica, por exemplo, atuou no projeto desde a sua concepção como pesquisadores, não como ocorre tradicionalmente: “nós fazemos e vocês divulgam”, e isso foi um diferencial. Um trabalho em conjunto, apesar do foco agrícola. A motivação foi a identificação da necessidade do trabalho em conjunto devido à dificuldade e à complexidade do tema, baseando-se na experiência de cada um na sua própria área.

Foi muito boa a cooperação, pois todos sabiam a importância da sua e das outras áreas. Além disso, conseguimos estabelecer um diálogo. Fazíamos reuniões mensais para discutir temas específicos, convidávamos pessoas que não faziam parte do projeto, mas que trabalhavam em temas de interesse. A palavra chave é diálogo, diálogo e respeito.

Blog da Editora da Unicamp – No livro Planejamento da produção de cana-de-açúcar no contexto das mudanças climáticas globais, são discutidas diversas formas de adaptação da  sociedade às mudanças climáticas, com foco para a produção sucroalcooleira. Isso indica que alterações no nosso comportamento cotidiano não estão incluídas nas adaptações às perspectivas futuras?

Jurandir Zullo Junior – Nós dividimos o estudo das mudanças climáticas em três áreas. Uma é a detecção: identificar se as mudanças climáticas estão ocorrendo ou não, se elas têm chance de ocorrer. Esse é um tipo de trabalho que nós fazemos, mas ele é contínuo, não é uma conclusão definitiva, porque nós estamos passando pelo fenômeno e ele está acontecendo.

Outro é a adaptação. Aconteça ou não as mudanças climáticas, dependendo do setor, temos a adaptação. Por exemplo, uma planta a ser cultivada agora no campo leva de dez a quinze anos para ser desenvolvida. Portanto, as empresas que desenvolvem novos materiais e novas sementes têm analistas que estão pensando nesse futuro. Elas não podem ser pegas por situações adversas, senão não terão tempo de desenvolver alguma tecnologia que mitigue essa adversidade.

O que a área de divulgação tem percebido é que a população não consegue entender que quando é feita uma previsão, ou um cenário, existe uma incerteza. O estudo com a população foi mais nesse sentido: tentar entender que tipo de informação está chegando até ela. E a informação que chega é normalmente catastrófica. Ela aparece como culpada, mas o grande problema é não saber como gerenciar a dúvida e não participar ativamente.

Têm aquelas ações que se pode fazer no dia a dia: economizar energia, economizar água. Mas têm outras ações que são políticas. Daí advém a importância dos diálogos com os representantes [políticos], porque eles tomam decisões muito importantes – em relação ao tipo de energia, ou a alguma negociação internacional.

Há uma discussão muito polarizada. Nela, existem os bons e os maus, os corretos e os incorretos; e o assunto não é essa dicotomia, não deve ser tratado assim. De forma geral, a sociedade tem rotulado muito essa questão. Isso também faz parte da área de mudanças climáticas. Nossa dedução é de que é sempre colocada a polarização. Não existe uma discussão com base nas incertezas.

Com relação à população, a principal contribuição do projeto foi a questão de educar para a incerteza, mostrar os vários aspectos do problema e que é uma situação que envolve vários temas., A divulgação científica tem que divulgar a incerteza e as pessoas têm que aprender que ela existe. Assim como, que a participação de todos é sempre importante, mas que não seja feita aquela separação dos bons e dos maus. Isso não ajuda.

A atitude na influência das políticas públicas é, sem dúvida, estratégica em todo esse contexto. Por exemplo, a questão de energia é muito baseada na política. Há decisões que são nossas do dia a dia, mas tem decisões que são de outro escalão. Existem outros fatores: fatores econômicos, interesses de grupos. Mas eu acho que a população mobilizando-se, mostrando interesse no assunto, tem um impacto, o que se percebe hoje com vários políticos ambientalistas.

Blog da Editora da Unicamp – As alterações no ecossistema são conhecidas por grande parte da população mundial. Para algumas pessoas, as perspectivas são tenebrosas, representadas por catástrofes e mudanças climáticas extremas. Como o senhor entende essa perspectiva e qual a sua opinião acerca das mudanças que estão por vir?

Jurandir Zullo Junior – Nesse trabalho de detecção, os modelos sempre indicam aumentos dos eventos extremos. O clima tem, por padrão, uma variabilidade, o que é normal. No nosso caso – clima tropical – há uma flutuação maior, mas ainda existe um comportamento conhecido. Porém, o que está sendo indicado é um aumento dos eventos extremos e eles, normalmente, têm um impacto maior por atingirem áreas maiores do que numa situação normal. Uma seca, como a que estamos observando em várias regiões, são sempre mais abrangentes, não são pontuais.

Existe a preocupação, porque todos os modelos que usamos aqui, de centros importantes, indicam que o clima deve mudar.  Percebemos uma convergência cada vez maior entre eles para uma situação de mudanças e, nessa situação, há aumento de eventos extremos. Esses eventos, no nosso caso, são a seca e a chuva forte, e esta, para nossas cidades, são bem preocupantes.

Há uma grande preocupação quando a temperatura média da terra aumenta em dois graus, pois aumenta bastante a possibilidade da ocorrência desses eventos e, assim, a capacidade de se conseguir uma adaptação a eles torna-se mais demorada. A agricultura, por exemplo, é o setor que sofre mais rapidamente, mas também é o que apresenta uma capacidade de adaptação maior. O que temos percebido são novas variedades sendo desenvolvidas, uma maior presença da agricultura de baixo carbono, da integração pecuária-lavoura.

Já no caso das cidades, onde a maior parte da população brasileira vive, o problema é maior, pois a área urbana tem uma capacidade muito baixa de absorver esses fenômenos que são naturais, mas que a intensificação, sem dúvida, pode prejudicar. Ela não está preparada e, particularmente, acho difícil realizar a adaptação de todo uma cidade.

Acho que teremos que ir para um caminho de tecnologia e educação. Acho difícil realizarmos grandes obras urbanas, assim como, por exemplo, de mudarmos completamente a estrutura viária de Campinas, ainda mais com a atual crise econômica.

Blog da Editora da Unicamp – Por fim, o senhor diria que o foco da ação governamental, assim como de outras instituições, deve ser na adaptação ou na prevenção das mudanças climáticas?

Jurandir Zullo Junior – Acho que tem que ser nessas três frentes [adaptação, mitigação, detecção]. O caso da mitigação refere-se à questão da cana, dos combustíveis fósseis, das energias alternativas, como solar e eólica, da reciclagem. Tudo isso faz parte do dia a

Também devemos identificar se as mudanças estão acontecendo ou não. Faz parte, inclusive, do estudo que alimenta os outros dois. Por isso que eu gosto de sempre de dividir trabalhos de adaptação, mitigação e detecção, que é o que, normalmente, nós fazemos. Deve-se aumentar a coleta de dados, desenvolver o modelo brasileiro, para o qual a Fapesp já fez um investimento. Devemos usar mais dados de satélites e existe toda uma parte de climatologia, de trabalhos bem básicos na área de clima e mudanças climáticas, que devem ser feitos.

No caso da adaptação, independe das mudanças climáticas acontecerem ou não. A agricultura, que é o nosso principal setor econômico, não pode ser pega de surpresa, ou seja, não pode identificar que se está numa situação desvantajosa e levar 15 anos, no mínimo, para se adaptar a ela. Além de que, nesse setor, toda ação de adaptação acaba sendo útil para outras regiões do país que atualmente não conseguem produzir.

Se, por exemplo, nós conseguirmos desenvolver um café que se desenvolva bem numa região mais quente, abrimos áreas de produção do país que não podem, atualmente, não podem produzi-lo.

Por isso, nós temos a obrigação de desenvolver a adaptação, o que implica no planejamento a longo prazo, que não é uma cultura nossa. Sendo que, agora, é um planejamento a médio e a longo prazo. Nós pensávamos que era apenas uma questão de longo prazo, mas se tornou uma questão de décadas.

 Enquanto, no Brasil, tínhamos um foco muito grande em doenças e pragas – 90 por cento dos nossos materiais e nossas sementes tinham esse objetivo -, hoje, nós já percebemos que temos outra preocupação, a dos estresses ambientais. Observamos o lançamento de novas plantas, de várias culturas resistentes a temperaturas altas, ao estresse hídrico.

 É uma situação muito complexa, não dá para deixar nenhum setor sem seu foco. No caso do governo e das agências de fomento, as três [frentes] são importantes.

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